Ponto de Vista: Alice Telles
A risada de Caio ecoou no salão silencioso, cada gargalhada um golpe pequeno e afiado. Ele estava se divertindo, atuando para sua plateia, saboreando minha humilhação pública. "O gato comeu sua língua, Alice? Percebeu o quão ridícula você soa?"
Joana deslizou para o seu lado, sua expressão uma mistura perfeita de pena e preocupação. Era um olhar que ela havia aperfeiçoado ao longo de anos de prática. "Caio, não seja tão duro com ela", ela arrulhou, alto o suficiente para que todos ouvissem. "Ela só está nervosa. É um grande dia." Ela se virou para mim, seus olhos brilhando com malícia. "Alice, querida, você precisa ter cuidado. Ouvi coisas terríveis sobre o Bruno. Dizem que ele uma vez levou uma empresa à falência só por esporte. Você não gostaria de acabar como uma de suas vítimas, não é?"
A multidão murmurou em concordância, um coro de avisos abafados e ameaças veladas. "Ela tem razão, sabe." "Aquele homem é um tubarão." "Caio é a aposta segura. A única aposta."
Na minha vida passada, as palavras deles teriam sido facas, cortando minha determinação. Eu teria desmoronado, pedido desculpas e implorado para que Caio perdoasse minha explosão tola. Mas a garota que temia o julgamento deles já havia partido há muito tempo, substituída por uma mulher que enfrentou monstros muito piores do que alguns executivos fofoqueiros.
"Minha escolha é minha", eu disse, minha voz firme. Não era uma resposta, mas uma declaração. Um limite.
O rosto de Joana se fechou. Minha compostura estava arruinando sua performance. Ela precisava de uma vítima. Ela deu um passo em minha direção, sua mão tremulando perto do peito como se de repente estivesse se sentindo fraca. "Oh, Alice, eu só me preocupo com você..."
Seu movimento foi fluido, praticado. Ela tropeçou, não para longe de mim, mas em minha direção. Seu ombro roçou no meu com o mais leve dos toques.
E então ela estava no chão.
Um suspiro teatral escapou de seus lábios, seguido por um soluço alto e de cortar o coração. Ela embalou o braço, o rosto contorcido em agonia. "Alice! Por que você me empurrou?"
A sala explodiu. Caio estava ao seu lado em um instante, seu rosto uma máscara de fúria trovejante. Ele a ajudou a se levantar, embalando-a como se fosse feita de vidro.
"Você está louca?", ele rosnou para mim, sua voz tremendo de fúria. "Ela estava tentando te ajudar! Qual é o seu problema? Seu ciúme é tão consumidor que você atacaria sua própria prima?"
Sua prima. A mentira estava tão enraizada na narrativa de nossa família que até ele acreditava. Meus pais acolheram Joana, deram-lhe um lar, uma educação, tudo o que ela tinha. Mas ela não era minha irmã. Ela nem era do meu sangue. Ela era filha de um parente distante, uma víbora alpinista social que nós tolamente acolhemos em nosso ninho.
Joana, escondida atrás da estrutura protetora de Caio, me lançou um olhar de puro e absoluto triunfo.
Uma risada seca e sem alegria escapou dos meus lábios. "Eu não toquei nela."
"Mentirosa!", Caio cuspiu. "Eu vi! Todo mundo viu! Você tem agido como uma pirralha mimada a noite toda, e agora isso. É porque eu dei um pouco de atenção à Joana? Meu Deus, Alice, eu sabia que você era obcecada por mim, mas isso é patético."
"Caio, por favor", Joana choramingou, puxando sua manga. "Não fique com raiva dela. A culpa é minha. Eu não deveria ter... eu só queria que fôssemos todos uma família feliz." Suas palavras eram perfeitas, pintando-a como a vítima magnânima e a mim como a agressora desequilibrada.
Os sussurros ao nosso redor ficaram mais altos, mais venenosos. "Você viu aquilo?" "Empurrou ela direto para o chão." "A filha dos Telles tem um lado cruel."
O rosto de Caio estava a centímetros do meu, suas feições distorcidas de nojo. A máscara encantadora se foi, revelando o monstro que eu conhecia tão bem. Por um segundo aterrorizante, pensei que ele ia me bater, bem aqui, na frente de todos. A memória de seus punhos, da dor aguda e ofuscante, enviou um choque de gelo por minhas veias.
Sua mão disparou, não para me bater, mas para agarrar meu queixo, forçando-me a olhá-lo. Seus dedos cravaram em minha pele.
Então, o impensável aconteceu.
Ele me deu um tapa.
O som estalou pelo salão como um chicote, silenciando cada sussurro. A ardência na minha bochecha foi aguda, imediata. Minha cabeça virou para o lado com a força do golpe.
Um suspiro coletivo e horrorizado encheu a sala.
"Se você alguma vez", ele sibilou, sua voz um rosnado baixo e aterrorizante, "colocar a mão na Joana de novo, eu pessoalmente vou garantir que o Horácio jogue você e seu precioso legado na rua. Você me entendeu?"
A ameaça era clara. A linha havia sido traçada. E aos olhos dele, eu a tinha acabado de cruzar.





