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Uma Escolha Perigosa
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Uma Escolha Perigosa

9.2
/ 10
Em Uma Escolha Perigosa, Jenna enfrenta as perdas do passado em um ambiente hostil. Neste romance de máfia, ela deve sobreviver ao acordo com Antoni Santorin enquanto busca recomeçar. Leia este mafia novel e descubra se ela superará os riscos nesta envolvente ficção moderna.

Capítulo 1 de Uma Escolha Perigosa

Acordei me sentindo estranha, meu corpo estava adormecido, minha boca seca, o braço direito estava dor, não muito, era mais como uma dor que incomodava, dormente. Já meus olhos, precisei abrir e fechar algumas vezes até conseguir realmente enxergar com clareza, parecia haver uma camada pastosa entre minha íris e o mundo exterior.

Estava em um quarto branco, como em um hospital, logo notei que não, pois apesar de bem equipado, estava cheio de móveis, bem decorado e uma janela para um jardim que me lembrava a mansão Belline. Ao meu lado esquerdo havia um homem conferindo uma prancheta. Era um médico, deduzi pelo jaleco branco, e provavelmente devia ter uns cinquenta anos. Notei que atrás dele havia uma porta.  Não demorou muito até que me viu acordada.

-Finalmente acordou...Bem-vinda de volta! –Parecia estar feliz com meu despertar, mas não fazia ideia de quem era.

-Onde estou? Cadê o Jackson? -Mesmo com todo esforço do meu peito as palavras saíam baixas e fracas.

Estava rouca, devo ter dormido demais, e minha boca ainda pedia por água, o que parece que ele já sabia, levou um copo com água e encostou em meus lábios me fazendo engolir um pouco.

-Isso...Calma, devagar...Você passou por muita coisa...

Suas palavras despertaram minha memória. Sim, tomei um tiro, por isso a dor no braço, mas devia estar com anestesia, porque agora não era nada comparado a dor que senti na hora do tiro. Era insuportável, diferente de agora, que parecia apenas deixar meu braço pesado.

-Quem é você? E Jackson, onde está? -Perguntei novamente. Minha voz estava voltando ao normal aos poucos. Minhas cordas vocais começaram a trabalhar com mais afinco.

-Sou Dr. Manoel Galdino...Ele...não está aqui...-Houve uma breve pausa, como se estivesse confuso. Seu jeito desastrado me lembrou meu pai. -Espera só um momento...

Saiu porta a fora, deduzi que tivesse ido chamá-lo.

Acenei com a cabeça e fiquei observando aquele lugar. Com certeza era uma casa, claramente não conhecia, não fazia ideia de onde estava. Tentei me levantar, e não tinha forças suficiente, principalmente porque não conseguia apoio no braço machucado. Consegui me sentar um pouco com o esforço do lado esquerdo, mas ainda não estava confortável.

-Espera...Deixe-me ajudá-la! Você ainda está muito frágil. -Dr. Galdino voltou enquanto ainda tentava me acomodar.

Apertou o passo com pressa para chegar logo até mim. Logo atrás dele vinha mais dois homens, um senhor de idade, parecia forte apesar de usar uma bengala, e um mais jovem, mesmo porte, forte, alto, imaginei que fossem pai e filho, a semelhança era nítida. Ainda assim continuava sem os conhecer.

-Quem são vocês? -Perguntei. Desisti de tentar me ajeitar e deixei o médico arrumar os travesseiros.

Não pareciam ser do cartel, eram bem arrumados, e apesar de sérios não tinham uma expressão de ódio, como vi no rosto dos homens do cartel naquela noite. Além do mais estava recebendo cuidados médicos, quando poderiam facilmente me matar.

-Sou Antoni Santorin, pode me chamar de Tony e esse é meu filho...Antoni II -O senhor com barba e cabelos grisalhos caminhou em direção ao meu lado direito com uma expressão amistosa. Apontava para o filho. Esse não, permanecia sério e parado afastado dos pés da cama, quase perto da porta, com os braços cruzados. Mesmo seu tom de cabelo sendo totalmente preto, era incrível a semelhança com seu pai.

-Jackson...Me falou de um Antoni, era você? Onde ele está?  -Perguntei. 

-Na verdade, era eu –Respondeu o filho -Jackson e eu tínhamos um acordo.

Ele era bem mais sério que o pai, não tinha nenhum sinal de simpatia. Não saía do lugar, não se mexia. Sua voz grossa e firme invadiu meus ouvidos fazendo meu corpo rejeitar qualquer impressão de que havia bondade ali.

-E onde ele está? Está vivo?

Se estivesse vivo, estaria em casa com ele. Pensei só depois as palavras saíram da minha boca e fizeram sentido. Meu coração tomou um outro ritmo, acelerado e confuso.

-A senhorita precisa manter a calma...-Disse o médico.

-Não sabemos, achamos que está vivo, mas não temos contato desde aquela noite...-Seu pai chegou ainda mais perto, tentando me consolar.

-Aquela noite? -Interrompi, ainda estava perdida no tempo. Meu cérebro parecia incapaz de pensar sozinho, precisava de um empurrão das palavras que surgiam. -Você estava em coma, já se passaram mais 2 semanas! Jackson não poderia ter escolhido alguém mais empático para fazer aquele acordo, Antoni não levava o menor jeito para comunicar uma notícia dessas. Um choque atravessou minha espinha. Pude ver o médico e seu pai repreendendo-o com um olhar. Ele não parecia nenhum pouco confortável ou não gostava de mim. Resolvi ignorá-lo me direcionando aquele senhor que parecia mais agradável.

-John, meu irmão, onde está? Vi que conseguiu fugir, lembro dele entrando no helicóptero...

Tony, que já estava ao meu lado, segurou em minha mão cuidadosamente. Presumi que fosse me dar a notícia de sua morte. O que poderia esperar se estava ali sozinha.

-Ele está bem, está na Suíça...Jackson havia deixado instruções caso as coisas dessem errado -Respirei aliviada -Está em um internato, bem cuidado, não se preocupe...

É claro que ele havia cuidado de tudo. Será que me enviar para aquela casa era parte do acordo também? Provavelmente sim. Talvez pudesse confiar naquelas pessoas.

-Quero falar com ele, posso? -Perguntei apreensiva.

-Claro...Podemos organizar isso. Lá tem horários restritos, mas acho que consigo organizar algo. Assim que sairmos daqui farei isso.

Seu olhar desviou para o médico, e logo os três se encararam. Havia mais alguma coisa, e pareciam não saber como me contar.

-O que houve? -Meu estado de alerta e nervosismo voltaram. -Falem logo! -Olhei para o doutor, que deu um suspiro antes de começar a falar.

-Na noite do ataque...Quando tomou aquele tiro, você estava grávida...Lamento dizer, mas o bebê não resistiu ao estresse da bala.

Manoel falou pausadamente, o que para mim parecia que tinham jogado uma bomba novamente, só que dessa vez direto em meu estômago. A dor se misturou a náusea e a culpa. Mas como isso? Como não percebi? Não me lembro de sentir mal estar.

-Você teve uma hemorragia...E precisamos induzi-la ao coma, para que se recuperasse. -Encarei Tony que tomou a vez segurando minha mão, enquanto tentava me explicar. Senti um certo carinho em seu olhar. O que não encontrei em Antoni, esse por sua vez me falava silenciosamente para aceitar aquela informação e engolir o choro.

-Não, não, não é possível...Grávida? Eu não sabia...

Não sei quantas vezes repeti isso, para mim e para eles. Estava desesperada, primeiro Jackson estava desaparecido e agora descubro que perdi nosso filho, que nem sabia que estava esperando. Me joguei para tomar aquele tiro, era minha culpa, provoquei isso. Matei nosso filho. Meu corpo não parecia entrar em acordo, minha mão debatia em minha cabeça. Minhas pernas tentavam empurrar essa notícia para longe. A claridade do quarto foi se dissipando aos poucos. ◆◆◆

Meus olhos abriram sem minha permissão, concluí que haviam me sedado e desejei que fosse para sempre. Quando os procurei pelo quarto, vi que apenas Antoni estava lá, sentado em uma poltrona próximo a porta.

Fiquei surpresa já que antes não parecia muito amigável. Estaria me vigiando? Porque? Me olhava fixamente inclinado com seus dois antebraços apoiados em sua perna. Conseguia ver uma certa indiferença dele, me senti amedrontada com a sua presença.

Poderia estar pensando em quantas maneiras conseguiria simplesmente me matar e acabar com seu problema. Devia me odiar, com certeza perdeu homens naquela guerra, e parecia me culpar por isso, não que estivesse errado, de fato tudo começou comigo. Mas eu também queria que acabasse, por isso tomei aquele tiro, quando estivesse morta, todos teriam paz.

-Por quê? -Encarei seus olhos comuns, um castanho escuro, ou preto, estava um pouco longe não dava para ter certeza, não consegui definir.

O tom de sua pele era mais branco que Jackson, acredito que da mesma altura, apesar de um pouco mais magro também era forte. E era muito mais sério, apesar de bonito, não tinha uma expressão agradável. Ele sim parecia uma mafioso italiano.

-O que? -Perguntou curioso, sem fazer qualquer movimento.

-Por que está fazendo isso? O que estou fazendo aqui? -Continuei.

-Já falei...Fiz um acordo com seu namorado, estou apenas cumprindo minha parte. -Já esperava que não fosse por bondade considerando como me tratou desde que acordei.

Apesar de mafiosos, eram homens de palavra, naquele momento desconfiei que talvez não me faria mal. Jackson não permitiria, não faria parte do acordo.

-Acha que ele está vivo? -Perguntei por que sabia que me daria uma opinião sincera. Além de hostil não parecia do tipo de meias palavras.

-Honestamente...Não sei...Se ele foi pego pelo cartel, deve estar morto. Por outro lado, o cartel não é discreto, teríamos recebido algum...-Sua pausa demonstrou estar procurando a palavra certa. Estranhei. -Olha, essas pessoas tem o costume de usar alguém de exemplo, para mandar um recado. Normalmente mandam partes do corpo da pessoa de presente...Já checamos e o pai dele não recebeu nada.

-E o que vocês vão fazer agora? -Eles deveriam ter um plano.

-Nada...Nosso acordo era cuidar de você e do seu irmão, e estamos cumprindo...

Se colocou de pé e andou em minha direção.

-Como assim? Vão desistir dele? Não podem abandoná-lo...Você tem que fazer algo!

Endureci minha voz, tinha que fazê-lo mudar de ideia, não adiantaria cuidar de mim e abandoná-lo.

-Acho que em algum momento Jackson deve ter dado a impressão de que você mandava em alguma coisa...-Sua expressão fria deu lugar ao sarcasmo -Talvez lá, sim. Particularmente nunca achei que ele tivesse capacidade para chefiar.

Antoni parecia um típico criminoso que fazia questão de demonstrar poder cada chance que tivesse. Estava acostumada com homens do tipo dele, era a maioria dos clientes do escritório. 

-E se ele estiver machucado? E se estiver sendo torturado? -Sua cara de indiferença me dizia que não conseguiria nada dele. -Certo...Já que você não tem colhões para isso...

Apesar de me sentir vulnerável, precisava fazer algo, Jackson fez tanto por mim, não poderia simplesmente desistir dele. Puxei todos aqueles fios, mesmo sem força no braço direito, tentei me levantar, enquanto recebia seu olhar de desaprovação.

-Poderia usar todo esse músculo para me ajudar a levantar ou também está com medo de uma mulher moribunda? -Antoni precisava saber que eu também sabia ser hostil, que não me trataria de qualquer forma.

-Aqui...Você não é nada além de um peso! -Senti sua mão em meu pescoço, me empurrando contra a cama. -Não manda em nada e não serve para nada! -O encarei firme tentando esconder o medo que corria pelo meu corpo. Me acostumei a enfrentar Jackson, sabendo que nunca me machucaria, cometi o erro com esse homem, mas não voltaria atrás. -Vai ficar aqui até se recuperar...Depois, pode fazer o que quiser, isso não é problema meu.

Eu queria lutar mais, ao mesmo tempo, estava mais fraca que o normal e aquele imbecil era bem forte.

-Eu não tenho medo de você...-Não daria esse gostinho a ele. Seus olhos estavam bem próximos aos meus quando o respondi. Eram castanhos e bem escuros, e só conseguia enxergar um vazio neles. 

-Achei que advogados fossem mais inteligentes! - Colocou sua outra mão em meu braço esquerdo, e a outra permaneceu em meu pescoço, agora aplicava um pouco mais de força, seria difícil conseguir falar algo nesse momento. Senti a ameaça e sabia que se quisesse conseguiria me estrangular ali mesmo, e me desovar em algum lugar.

-Faça, não tenho nada a perder...-Minha voz saiu rouca.

Não me esqueci do meu irmão, mas não poderia vê-lo sem colocá-lo em risco. Não era a vida que desejava para ele. Era melhor morrer, e acabar com tudo aquilo de uma vez.

Antoni continuou me encarando. Seu olhar parecia analisar todas as formas que poderia me matar e quais seriam as consequências daquilo.

-Não vale a pena...Minha palavra vale muito mais -Tirou sua mão do meu pescoço e do meu braço. Esperei que continuasse falando. -Como falei...Quando se recuperar, pode ir embora. Pago até sua passagem para vê-la longe o quanto antes...Mas enquanto isso, ficará aqui e fará o que EU mandar! -Virou as costas me deixando sozinha no quarto.

Comecei a chorar assim que bateu a porta. Jackson poderia estar morto, perdi nosso filho, provavelmente nunca mais veria meu irmão, e nem fazia ideia de como estava meu pai. Queria levantar, ir embora, mas mal conseguia mexer meu ombro, me sentia fraca, um lixo.

Devo ter caído no sono depois de tanto choro, pois não me lembro de ter parado.

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