Uma Babá para o Meu Filho - Milionário Insensível

Tempos Atuais....

— O que eu vou fazer Júnior? – Felix levou as mãos a cabeça.  — Não sei como fazer com ele.

— Felix. – José Carlos sentou-se ao lado dele. — Você perdeu seus pais, depois a Mel, e mesmo que tenha se afastado de tudo, cuidou do seu irmão á distância. Cuidou da faculdade dele, da formatura, das finanças e até das encrencas que ele arrumava. Cuidou da sua família quando o Nando quase morreu. Agora você tem um filho, eu sei que vai dar conta dele.

— Eu... Não sei como vou dizer para ele, que eu e a mãe. – Felix fechou os olhos. — Eu não pensei em ter um filho assim.

— Ninguém pensa cara. – José Carlos mantinha a mão nas costas dele. — Você é um Olivar Smith, sei que vai fazer a coisa certa. Vai aos poucos. O Luca nasceu bem fraquinho, não conseguia respirar direito, se conseguir passar essa noite vai ficar muitos dias aqui, até ele sair você terá tempo de aceitar as coisas. Tomei a liberdade de chamar o Nando. A Lu não pode vir, parece que a Maria Helena acordou com febre.

— Quando ele chega? – Felix indagou.

— Liguei para ele antes de você chegar aqui, se ele usou o avião, já deve estar por aqui.

— Obrigado Júnior. – Felix levantou o rosto.

— Vou ficar por aqui até seu irmão chegar. Depois devo ir para Londres.

Felix sabia o real motivo de José Carlos estar sempre longe. Ele nutriu um sentimento pela esposa de Fernando. Na época o irmão estava lutando contra um câncer agressivo, e Júnior esteve tanto do lado de Luiza que se apaixonou por ela. José Carlos era o melhor amigo de Nando, e acabou por contar para Felix quando estava bêbado de mais. Considerando-se um traidor do pior tipo, José Carlos resolveu que se afastar seria a melhor coisa.

Felix permaneceu ali até sentir um par de mãos em seu ombro, sabia que era seu irmão, então desabou completamente.

***

Horas se passaram, Fernando entrava e saía de salas, seguido por José Carlos. O corpo de Luciana já não estava mais na sala de parto. Era hora de ir até ela. Felix caminhou atrás do irmão pelo corredor frio, iria reconhecer o corpo de Luciana, já que ela não tinha parentes vivos. Parado frente aquela porta simples ele imaginou todas as circunstâncias que  o levariam para longe daquele lugar. Por fim pensou em Luca. Felix devia isso á ela. Uma despedida.

— Eu entro com você. – Nando se adiantou.

— Não cara, eu entro. Devo isso á ela.

— Felix, você não aguentou ver a mãe naquela situação..

— Eu entro. – Felix manteve o tom firme. — Devo isso á ela. 

Felix respirou fundo empurrou a porta e entrou.

Era uma única mesa disposta ali, Luciana ainda usava a touca do parto, a camisola hospitalar e o lençol sujo de sangue. A pele dela, normalmente rosada estava pálida, e os olhos que os inebriava estavam cerrados para a vida.

Ele parou a poucos centímetros dela, observou uma última vez as sardas que lhe cobriam o rosto e os ombros, as unhas curtas e bem feitas. Luciana era jovem.

— Lu... – Ele engoliu com dificuldade. — Me desculpa. Eu... Deveria ter colocado você dentro da minha casa. Mesmo com seu jeito estranho eu deveria ter protegido você. – Felix se aproximou mais um pouco. — Não entendo como alguém pôde ferir uma mulher grávida...

Felix se aproximou mais ainda, já podia sentir o cheiro doce dela misturado ao sangue. Luciana estava fria quando ele a tocou, os dedos já enrijeciam.

— Me perdoa Luciana, pelas vezes que brigamos, você deixou o Luca para mim e eu vou cuidar dele. Quanto á quem te fez mal, vou fazê-lo sofrer.

Se Luiza estivesse com ele, teria rezado pela alma de Luciana. Mas ele não sabia como fazer, então ergueu a cabeça para o alto e desejou que Luciana apesar de tudo o que havia feito, estivesse em um bom lugar. E que pudesse ver o crescimento do filho, se é que Luca cresceria.

Quando Felix voltou para junto do irmão tinha um semblante mais calmo.

— Irei cuidar do enterro dela. Luciana não tinha amigos ou parentes. Mas deixou meu filho e eu vou dar uma cerimônia á ela.

— Certo cara. – Nando deu alguns tapas no ombro dele. — Agora vamos descansar. Amanhã voltaremos para cuidar do Luca e de toda a papelada. A policia colheu os depoimentos das meninas do balcão, vão voltar para pegar as imagens da câmera e conversar com você. Por hoje, acabou.

***

Nem Felix, muito menos Nando conseguiram dormir naquela noite. O dia amanheceu chuvoso, a tempestade havia deixado muita gente desabrigada, houve vários acidentes e até mesmo alguns fatais.

Felix entrou no carro seguido pelo irmão e foram até o hospital,

Ao entrar ele notou os olhares estranhos, sussurros e condolências. Rumaram para o terceiro andar onde a médica, Doutora Ana os aguardava.

— Doutor Smith. Senhor Smith. Bom dia. Serei responsável pelo Luca. Podemos conversar na minha sala?

— Claro. – Nando respondeu. — Vamos.

Felix não sabia o que fazer, ouvia a médica falando em termos técnicos com Fernando, mostrando exames e sendo cobrada por mais.

— Ele não estava saturando muito bem. – Ela se explicou. — Então o ligamos no oxigênio. O Luca estava abaixo do peso para a idade gestacional, olha. — Ela olhou diretamente para Felix. — Ele sobreviver essa noite já foi um milagre. Agora torcemos para ele desenvolver.

— Quanto a parte neurológica. – Fernando pousou os exames na mesa. 

— Sendo sincera ele passou por muita coisa, e também é muito prematuro. As sequelas serão aparentes com o tempo.

— Eu quero que deixe essa parte comigo. Serei o neurologista do Luca. Quero deixar bem claro que o tratarei como um paciente, farei por ele tudo o que faço pelos meus pacientes. Então, se eu solicitar exames não é porque é meu sobrinho. Entendeu?

— Sim, Doutor Fernando. 

Felix nunca tinha visto essa agressividade no irmão. Talvez fosse porque ele havia pego alguns descasos com pacientes custeados pelos projetos.

A conversa durou bastante. Luca ainda não podia receber visitas por ser arriscado para a saúde dele, e era até melhor para Felix.

Fernando ainda ficou por lá uma semana. Como prometido cumpriu com a promessa, cuidou dos primeiros exames de Luca, acompanhou os primeiros dias dele, contratou uma empregada para Felix e pediu que um amigo, decorador fosse até a casa, mostrou onde seria o quarto do pequeno. Com a policia foi bem mais lento, já que Luciana era somente uma prostituta cara. Felix tinha um álibi, todas as câmeras de segurança em volta da casa e na portaria, o telefone que fora rastreado e todas as redes sociais. 

— Eu não posso ficar muito mais tempo Felix. – Nando empurrou a mala para a porta. — Luiza está se virando como pode com os pequenos furacões. Vou me manter informado sobre o estado de saúde de Luca. E você trate de ajeitar uma babá com experiência para cuidar dele.

— Não tenho sorte com essas coisas. – Felix disse.

— Vou conversar com a Lu. Ou pedirei para algum médico daqui me passar o contato de alguma babá competente.

— Obrigado Nando. Por tudo o que fez por mim. – Felix o abraçou meio sem jeito.

— Somos uma família. Você cuidou da minha quando eu precisei. E eu estou cuidando da sua. Voltarei mais vezes com a Lu. Vamos passar por isso juntos cara. Nossa família vai crescer, e logo vamos nos lembrar dessa fase ruim como um aprendizado.

Felix levou o irmão até o carro, se despediu e voltou para a casa enorme e solitária. O pensamento estava em Luca. Ele tinha de viver. Por Luciana.

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