Um Novo Jogo, Uma Nova Vida

A mensagem de Miguel foi como um balde de água fria.

Ele nem sequer perguntou se eu estava bem.

A sua única preocupação era o "capricho" do meu pedido de divórcio.

Senti uma raiva fria a subir-me pelo peito. Respondi sem pensar duas vezes.

"Pequena? Miguel, o seu filho viu-me presa nas ferragens e escolheu ajudar outra pessoa. A minha carreira acabou. Acha mesmo que isto é pequeno?"

A resposta dele foi quase imediata, como se ele estivesse à espera, com o telemóvel na mão.

"A Eva estava em choque. O Pedro fez o que qualquer pessoa decente faria. Tu és forte, sempre foste. A Eva é frágil. Ele tomou a decisão certa."

Frágil. Essa era a palavra que usavam sempre para a desculpar. Eva, a viúva delicada que precisava de proteção constante. E eu, a atleta, a mulher forte que aguentava tudo.

"Forte?", escrevi eu, os meus dedos a tremer. "Eu perdi tudo. E o seu filho nem sequer olhou para trás."

"Estás a ser dramática. Lesões acontecem. Vais superar. Mas um divórcio é uma mancha na família. Pensa na nossa reputação."

A reputação da família. Era isso que importava. Não a minha perna partida, não a minha vida destruída.

Desliguei o telemóvel e atirei-o para o banco do táxi. O motorista olhou para mim pelo espelho retrovisor, com uma expressão preocupada.

"Tudo bem, menina?"

"Leve-me para a Rua das Flores, número 12, por favor."

Era o endereço do nosso apartamento. O meu lar. Ou o que eu pensava ser o meu lar.

Enquanto o táxi se movia lentamente pelo trânsito, a minha mente voltou ao acidente. A imagem do rosto de Pedro, olhando para mim por um segundo antes de se virar para o carro de Eva, estava gravada na minha memória.

Naquele momento, eu não era a sua mulher. Era um obstáculo.

Quando finalmente cheguei ao prédio, arrastei-me para fora do táxi. Cada passo com as muletas era um esforço. O porteiro, o Sr. Alves, correu para me ajudar com a porta.

"Menina Sofia! O que aconteceu? Soube do acidente na televisão. Fiquei tão preocupado."

A sua gentileza genuína quase me fez chorar.

"Obrigada, Sr. Alves. Foi um dia complicado."

"O seu marido já chegou. E a sua prima também. Chegaram há pouco."

O meu coração parou. Eles estavam ali. Juntos.

Subi no elevador, o estômago a revirar. Quando a porta se abriu no nosso andar, ouvi risos. Risos vindos do meu apartamento.

A porta estava entreaberta. Hesitei por um momento, depois empurrei-a.

A cena que vi fez o meu sangue gelar.

Pedro estava no sofá, e Eva estava sentada no chão, a sua cabeça apoiada no joelho dele. Ele passava a mão pelo cabelo dela, de uma forma que nunca tinha feito comigo.

Na mesinha de centro, havia uma garrafa de vinho aberta e dois copos. O meu sogro, Miguel, estava sentado na poltrona, a observá-los com um sorriso satisfeito.

Nenhum deles me notou na porta.

Eles pareciam uma família feliz.

E eu era a intrusa.

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