Um Novo Amanhecer: Depois da Tempestade

Quando abri os olhos, a luz branca do hospital ofuscou-me. A minha cabeça doía, e uma dor surda latejava na minha barriga agora vazia.

O meu marido, Leo, estava ao lado da cama, a descascar uma maçã com uma concentração que nunca me dedicara.

Ao lado dele estava a minha sogra, Inês, com os braços cruzados e uma expressão de desdém.

"Acordaste, finalmente," disse ela, com a voz cortante. "Pensava que ias dormir para sempre e deixar o meu filho a tratar de tudo sozinho."

Leo nem sequer levantou a cabeça.

"Mãe, não fales assim," disse ele, mas sem qualquer convicção.

Tentei falar, mas a minha garganta estava seca. A minha mão foi instintivamente para a minha barriga. Onde estava o meu bebé? A última coisa de que me lembrava era da dor lancinante e do sangue.

"O bebé..." sussurrei.

Leo finalmente olhou para mim. Os seus olhos estavam frios, vazios de qualquer emoção.

"O bebé foi-se, Clara. Tivemos um acidente."

Um acidente. Ele chamava àquilo um acidente.

As memórias voltaram de repente. Eu a conduzir, a minha sogra ao meu lado a gritar comigo por querer comprar um berço mais caro.

"És uma esbanjadora! O meu filho trabalha tanto, e tu só pensas em gastar!"

A sua voz estridente, a sua mão a agarrar o volante de repente. O carro a despistar-se. A dor.

"Tu... tu agarraste o volante," disse eu, a voz a tremer.

Inês riu-se, um som feio e agudo.

"Estás a delirar por causa dos medicamentos. Eu estava a tentar ajudar-te a evitar um buraco. Tu é que és uma péssima condutora. Quase nos mataste a todos."

Olhei para o Leo, à espera que ele me defendesse, que dissesse a verdade.

Ele apenas suspirou e pousou a faca e a maçã.

"Clara, a minha mãe ficou ferida também. O braço dela está partido. Não vamos falar sobre isto agora. Precisas de descansar."

O braço dela estava partido. E eu tinha perdido o nosso filho. O nosso filho, que tentámos ter durante três anos.

As lágrimas que eu não sabia que estava a segurar começaram a rolar pelo meu rosto. Eram quentes e silenciosas.

"Leo, vamos divorciar-nos," disse eu, a voz surpreendentemente firme no meio da minha dor.

O silêncio no quarto tornou-se pesado.

Leo olhou para mim, chocado, como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.

"Divórcio? Ficaste louca? Acabaste de perder um filho, e já estás a pensar em divórcio? Não tens coração?"

"Foi precisamente por ter perdido o nosso filho que quero o divórcio," respondi, a voz a ganhar força. "Por causa de ti e da tua mãe."

Inês levantou-se de um salto.

"Sua ingrata! Depois de tudo o que fizemos por ti! O meu filho cuidou de ti durante toda a gravidez!"

"Ele não cuidou de mim. Ele atendeu a todos os teus caprichos enquanto me ignorava," disse eu, olhando diretamente para o Leo. "Quando é que ficaste do meu lado? Uma única vez?"

Leo desviou o olhar.

"Isso não é verdade. Eu amo-te."

"Não, não amas. Tu amas a conveniência. Amas ter alguém para culpar. Agora, não há mais bebé. Não há mais nada que me prenda a esta família."

Ele levantou-se, o rosto vermelho de raiva.

"Vais arrepender-te disto, Clara. Vais ficar sozinha e miserável."

"Prefiro ficar sozinha do que miserável contigo."

Ele agarrou no casaco e saiu do quarto, batendo a porta com força.

Inês olhou para mim com puro ódio.

"Vais pagar por isto. Vais ver."

Depois, ela também saiu, deixando-me sozinha com o som do monitor cardíaco e o vazio na minha barriga.

O meu telemóvel estava na mesa de cabeceira. Com a mão a tremer, peguei nele. Havia dezenas de mensagens e chamadas não atendidas dos meus pais.

Liguei ao meu pai. Ele atendeu ao primeiro toque.

"Clara! Minha filha, estás bem? Estamos a ir para aí agora mesmo. O Leo ligou-nos, mas não explicou nada direito."

A voz preocupada do meu pai foi a única coisa que me impediu de desmoronar completamente.

"Pai," comecei a chorar, soluços que me abalavam o corpo todo. "O bebé... eu perdi o bebé."

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