Um Novo Amanhecer Após a Tempestade

Naquela noite, a chuva caía sem parar, batendo forte na janela do hospital. O som era abafado, quase um murmúrio distante.

O meu corpo estava dormente. Não sentia dor, apenas um vazio imenso.

Eu tinha acabado de perder o meu bebé. Um menino.

A enfermeira entrou no quarto, o seu rosto era uma máscara de profissionalismo.

"Senhora, o seu marido, Pedro, está aqui fora. Ele quer vê-la."

Pedro.

O nome dele soou estranho, como se pertencesse a outra pessoa, a outra vida.

Apenas algumas horas antes, eu estava presa nos destroços do nosso carro, depois de um acidente horrível na estrada escorregadia.

Liguei para o Pedro dezenas de vezes. O telefone dele chamou, chamou, mas ele nunca atendeu.

Fiquei presa por duas horas, o sangue escorria pelas minhas pernas. Os socorristas tiveram que me cortar para fora do metal retorcido.

Eles salvaram a minha vida, mas não conseguiram salvar o meu filho.

"Deixe-o entrar," eu disse, a minha voz era um sussurro rouco.

Pedro entrou. O seu cabelo estava molhado da chuva, colado à testa. Ele não parecia preocupado, apenas irritado.

"O que aconteceu? Porque é que não me ligaste do hospital?"

Olhei para ele, para o homem com quem me casei há três anos. O homem que prometeu amar-me e proteger-me.

"Eu liguei, Pedro. Liguei vinte e três vezes enquanto estava presa no carro."

Ele franziu o sobrolho, tirando o telemóvel do bolso.

"Não recebi nada. Deves ter ligado para o número errado."

"Não liguei para o número errado," afirmei, a minha voz a ganhar um pouco de força. "Tu não atendeste."

Ele encolheu os ombros, a sua irritação a transformar-se em impaciência.

"Eu estava ocupado. A Sofia precisava de mim."

Sofia. A sua ex-namorada. A mulher que ele jurou que era apenas uma amiga.

"O que aconteceu com a Sofia?" perguntei, embora já soubesse a resposta. O meu coração estava frio, uma pedra de gelo no meu peito.

"Ela caiu das escadas. Estava com dores, assustada. Levei-a para o hospital. Estive com ela o tempo todo."

Ele disse aquilo como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como se a dor dela fosse mais importante do que a minha.

"O nosso filho morreu, Pedro."

As palavras saíram da minha boca, secas e sem emoção.

Ele olhou para a minha barriga, agora coberta por um lençol fino. Pela primeira vez, vi um vislumbre de choque no seu rosto.

"O quê? Como assim?"

"O acidente. Perdi o bebé."

Ele ficou em silêncio. Não havia lágrimas, nem tristeza. Apenas um silêncio vazio e desconfortável.

"Eu... eu não sabia," ele gaguejou. "A Sofia estava com tantas dores."

"Vamos divorciar-nos," eu disse, cortando-o.

A palavra pairou no ar entre nós, pesada e final.

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