Um filho para o Bilionário

— Henrique… — Ela começou, mas o homenzinho careca e atarracado que descia as escadas olhava para ela com um rosto que denotava nada mais do que descontentamento.

— Não, senhorita, eu quero meu dinheiro. Agora! — Ele disse. Danika não lhe pagou na semana passada, nem na semana anterior. Por mais que ganhasse boas gorjetas no restaurante, ela acabava gastando o dinheiro com algo muito mais importante. 

— Olha, minha avó ficou doente e eu tive que…

— Não tente isso comigo, doçura. Meu coração não vai derreter — Ele disse, então, se aproximou dela e a olhou de cima a baixo — A menos que você tenha mudado de ideia e decidido me pagar de outro jeito. 

Danika entortou a boca, com nojo. Era incrível como ultimamente ela só encontrava aquele tipo de homem na vida dela! 

— Não…

O sorriso dele desapareceu e foi substituído por uma carranca.

— Você me paga amanhã logo cedo, ou você está fora.

Ele passou por ela e quase esbarrou em seu ombro.

Sem um pingo de energia, Danika subiu as escadas até seu apartamento e só quando pegou a bolsa para colocar sobre a mesa é que percebeu que o envelope que o estranho lhe deu ainda estava em suas mãos. Ela olhou para a lata de lixo e jogou aqueles papéis lá.

Depois de ir ao banheiro e descobrir que não havia água, ela foi para a cama e sentiu que sua vida não poderia ficar pior do que aquilo. Pensando nisso, ela acabou caindo no sono e, claro, teve pesadelos.

Pela manhã, ela saiu bem cedo de casa. Henrique já havia mandado uma mensagem para ela, mas Danika não teve coragem de abrir e ler. Ele provavelmente estava pedindo o dinheiro do aluguel. Ela tinha que pegar o dinheiro do restaurante antes de ir falar com Henrique ou estaria ferrada.

Chegando ao restaurante, ela entrou pela porta dos fundos e viu Moira. Na noite anterior ela não teve tempo de conversar com a mulher, mas agora poderia pelo menos trocar algumas palavras.

— Meu Deus, Dan! — Moira disse e jogou os braços em volta do pescoço de Danika. Então, ela a segurou pelos ombros e olhou para a ruiva — O que aquele imbecil fez com você? E Dupont demitiu você? Que idiota!

— Estou bem. Eu só preciso receber meu pagamento e pronto.

— Mas... como você vai sobreviver, meu bem?

Moira era uma garota linda, com olhos azuis brilhantes e cabelos pretos. Naquele momento, ela estava claramente preocupada. Desde que Danika chegou naquela cidade e conseguiu o emprego, Moira a a tomou como irmã e cuidou dela, ajudando sempre que Danika precisava.

— Eu vou sobreviver, como sempre. Não se preocupe.

— Se precisar de alguma coisa, me ligue e não desapareça, ok? Nós somos mais do que amigas. 

— Pode deixar — Danika prometeu e foi atrás de Dupont.

Ela recebeu o pagamento, tentou encontrar outro emprego, mas, curiosamente, ninguém quis contratá-la!

“Eu não consigo acreditar! Sempre fui boa funcionária e agora, só porque dei um soco mais do que merecido naquele idiota do Igor Sololov, eu sou rejeitada? Mas ele mereceu!”, ela choramingou internamente e decidiu voltar para casa. Danika teria que pagar Henrique e no dia seguinte procurar novamente por emprego. Porém, ela não foi rápida o suficiente, porque quando chegou no prédio, parte de suas coisas já estavam do lado de fora. 

— Mas o que…? — Ela exclamou e tentou parar um dos homens, que estava carregando seus travesseiros.

— Desculpe, senhorita. Estamos apenas seguindo ordens — O homem de pele escura disse e continuou andando. Danika sabia que ele estava dizendo a verdade e não podia culpá-los.

— Onde está Henrique?

— Não sei… talvez lá dentro.

Ela entrou no prédio, contendo as lágrimas. O homem estava em seu escritório, contando dinheiro. Quando ela entrou na saleta, ele ergueu os olhos e sorriu.

— Olá, gatinha.

— Não vem com essa, Henrique! — Ela tirou o dinheiro da bolsa e colocou-o sobre a mesa. — Aqui! Agora, eu quero as minhas coisas dentro do apartamento! 

Ele pegou o dinheiro, contou e sorriu para ela. Então, ele fez um beicinho de pura falsidade.

— Desculpe, gatinha, não vai dar. O apartamento já está alugado.

— O quê? — Danika perguntou, incrédula — Mas eu acabei de pagar você!

— Outra pessoa me pagou o ano inteiro. Não dava pra recusar — Ele se inclinou e cheirou as notas de dólar.

Danika estava prestes a desmaiar.

— Tudo bem, então me devolva meu dinheiro.

Ele franziu a testa e olhou de forma desdenhosa para ela.

— O seu dinheiro? — Ele perguntou — Eu não tenho o seu dinheiro.

— Acabei de colocar nesta mesa, você o pegou. Agora, devolva!

— Não, gatinha, esse dinheiro era meu. Você me devia e acabou de me pagar. Com juros. 

— Mas…

— Não é problema meu! Dê o fora!  A menos que você tenha decidido usar essa sua boquinha para me agradar, pode ir se ferrar!

Danika saiu do prédio, sentou-se na escadaria e começou a chorar.

O telefone dela começou a tocar e quando viu o nome da mãe na tela, ela enxugou as lágrimas, limpou a garganta e atendeu a ligação.

— Oi, mãe!

— Oi, meu amor! — A voz de Thalia soou do outro lado da linha. A mulher fungou e Danika franziu a testa ao ouvir isso.

— Você esteve chorando? O que aconteceu? Aconteceu alguma coisa com a vovó Olene? — Danika podia sentir que algo estava errado.

— Danika, querida, sinto muito por pedir isso de você novamente. Sua avó… Precisamos de mais dinheiro. Os remédios dela acabaram — Disse Thalia — Lamento que sejamos um fardo para você. Eu quem deveria estar te ajudando… —Thalia começou a chorar novamente.

Danika foi abandonada pelo pai quando era tão jovem que nem conseguia se lembrar do rosto dele. Desde então, sua mãe e sua avó fizeram de tudo para criá-la, até o dia em que a idosa adoeceu e Thalia teve que pedir demissão para cuidar de Olena. Mas... Por que Thalia e não Danika? Simples, porque desde que Danika disse “não” para um homem, que por acaso era filho de uma das famílias mais ricas daquela cidade, ela não conseguiu encontrar emprego, nem sua mãe. Restou a Danika procurar um longe dali. 

Elas conversaram um pouco mais e quando a ligação terminou, Danika suspirou. E agora como ela ajudaria a avó? Ela tinha perdido todo o seu dinheiro para o Henrique e não tinha emprego, nem nada. Então, ela viu a lata de lixo. Primeiro, ela não deu muita importância, mas se lembrou de uma coisa... O envelope!

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