Ponto de Vista de Laura Moraes:
A mensagem de Caio Mendes era breve, apenas três palavras: "Sete da manhã. Meu motorista."
Curto, direto, ao ponto. Típico do Caio. Ele não desperdiçava palavras, nunca desperdiçou. Era um contraste gritante com as frases cuidadosamente construídas de Heitor, cheias de ameaças veladas e remorso calculado.
Soltei uma risada amarga. De todas as pessoas no mundo, tinha que ser o Caio. Meu nêmesis de infância. O pirralho que costumava puxar minhas marias-chiquinhas e sabotar meus projetos de feira de ciências. Agora, ele era minha única esperança. Meu parceiro de vingança. A ironia não me passou despercebida.
Desliguei o celular, a tela escurecendo, espelhando o vazio em minha alma. Meu corpo doía, uma dor surda na cabeça por ter batido no balcão, uma dor fantasma mais profunda no meu útero pelo procedimento. A exaustão pesava sobre mim, uma companheira constante nos últimos dois anos.
O sono não oferecia escapatória. Era um sono inquieto, agitado, assombrado por pesadelos fragmentados. Figuras envoltas em sombras, sussurros de traição, o gosto metálico do medo. Eu me debatia, tentando me libertar, mas a escuridão se agarrava a mim, sufocante.
Acordei com um sobressalto, meu coração batendo contra minhas costelas. O quarto ainda estava escuro, a luz cinzenta do amanhecer mal perfurando as cortinas pesadas. Outro dia. Outra batalha.
Levei a mão ao rosto, meus dedos roçando a umidade em minhas bochechas. Lágrimas. Eu as odiava. Eram uma fraqueza que eu não podia me permitir. Enxuguei-as bruscamente, cerrando a mandíbula. Meu reflexo no espelho da cabeceira mostrava uma mulher pálida, de olhos fundos, mas meus olhos, embora sombreados, continham uma nova e fria resolução. A suavidade se fora. Substituída por algo duro, inflexível.
Saí da cama, cada movimento um testemunho da dor que eu estava determinada a ignorar. Meu corpo era um mapa da crueldade de Heitor, uma tela de hematomas roxos e amarelos, um testamento de sua 'justiça'. Vesti-me com cuidado, escolhendo mangas compridas e golas altas, uma nova camada de base para mascarar a palidez da minha pele. Ninguém precisava ver as cicatrizes, por dentro ou por fora. Ainda não.
Peguei as chaves do meu carro, meus movimentos rígidos. O frio do ar da manhã mordeu minha pele quando saí. O mundo ainda estava adormecido, envolto em um silêncio melancólico. Perfeito. Sem testemunhas.
Meu destino era a quilômetros de distância, um cemitério tranquilo aninhado entre colinas. O lugar de descanso final da minha mãe. E o que restava da minha família.
Caminhei pelas fileiras de lápides, cada uma um lembrete gritante da perda, de como tudo poderia se desfazer rapidamente. Encontrei a dela, uma simples laje de granito. Maria Moraes. Amada Mãe. Meus dedos traçaram as letras, um nó se formando na minha garganta.
Ajoelhei-me, colocando um buquê de lírios brancos na base da pedra. Seus favoritos. Eles representavam pureza, paz. Coisas que não tínhamos mais.
"Mãe", sussurrei, minha voz falhando. Era a primeira vez que eu me permitia falar seu nome em voz alta em meses sem a presença de Heitor. "Sinto muito. Não consegui te proteger. Não consegui proteger o papai."
Uma onda de luto me invadiu, ameaçando me consumir. Mas eu a empurrei para trás. Eu não podia quebrar agora. Ainda não.
"Mas eu te prometo, mãe", continuei, minha voz ganhando força, se enrijecendo. "Eu vou conseguir justiça. Vou limpar o nome do papai. E vou fazê-los pagar. Todos eles."
Meus olhos endureceram, um fogo frio queimando dentro deles. Heitor. Âmbar. Eles se arrependeriam do dia em que cruzaram o caminho dos Moraes.
Nesse momento, um sedã preto elegante parou atrás de mim, seu motor um zumbido baixo que perturbou a tranquilidade do cemitério. Eu não precisei me virar para saber quem era. O ar de repente ficou mais pesado, carregado de uma familiar desagradabilidade.
"Laura?", uma voz adocicada arrulhou atrás de mim. Âmbar Costa. Claro. Ela sempre encontrava uma maneira de se inserir na minha dor.
Endireitei-me, minhas costas retas como uma vara, meus ombros quadrados. Respirei fundo, preparando-me para o confronto inevitável.
"O que você está fazendo aqui, Âmbar?", perguntei, minha voz fria, desprovida de emoção. Não me virei. Não suportaria olhar para seu rosto presunçoso e autossatisfeito.
"Oh, só prestando minhas homenagens", ela disse com um sorriso falso, sua voz pingando falsa simpatia. "Edmundo era como um pai para mim, sabe."
Minha mão se fechou em um punho. Ela era a víbora que o envenenou.
"Saia daqui", rosnei, as palavras escapando dos meus lábios antes que eu pudesse detê-las. "Você não tem o direito de estar aqui."
Ela ofegou dramaticamente. "Laura, querida, não seja tão rude. Heitor está aqui também. Ele insistiu que viéssemos."
Aquele nome. Heitor. Foi como um balde de água fria, cortando a névoa de luto e raiva. Ele estava aqui também? A audácia. A pura e inalterada cara de pau.
Finalmente me virei, meus olhos varrendo-a, depois pousando em Heitor, que estava alguns metros atrás dela, o rosto uma máscara de preocupação cuidadosamente controlada. Ele estava bancando o genro enlutado. O protetor devotado. Isso me revirou o estômago.
"Heitor Almeida", eu disse, minha voz mal um sussurro, mas carregada de um nojo palpável. "Você ousa mostrar seu rosto aqui? Depois de tudo?"
Ele deu um passo à frente, sua mão se estendendo como se para me tocar. "Laura, por favor. Âmbar só queria mostrar seu apoio."
Âmbar, sempre oportunista, deu um passo à frente, um buquê de rosas vermelhas berrantes na mão. Ela tentou colocá-las no túmulo da minha mãe, bem ao lado dos meus lírios brancos.
Uma onda de pura, inalterada fúria percorreu meu corpo. Essas mãos, essas mãos manipuladoras, haviam destruído minha família, e agora ousavam profanar a memória da minha mãe?
"Não se atreva", sibilei, minha voz baixa e perigosa.
Âmbar, fingindo inocência, hesitou. "Laura, eu só..."
Com um grito gutural, balancei o braço, arrancando as rosas vermelhas de sua mão. Elas se espalharam pela terra úmida, suas pétalas carmesim um contraste gritante e grotesco com os lírios brancos imaculados.
Âmbar gritou, pulando para trás como se tivesse sido picada. Heitor se moveu rapidamente, puxando-a para trás dele, seu braço protetoramente em volta de sua cintura. A visão acendeu uma nova onda de fúria dentro de mim.
"Qual é o seu problema, Laura?", Heitor exigiu, a voz afiada de raiva. "Por que você é sempre tão desrespeitosa?"
"Desrespeitosa?", zombei, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "Você quer falar sobre desrespeito, Heitor? Quer falar sobre hipocrisia?"
Meus olhos queimaram nos dele. "Lembro-me de um tempo em que você passava horas conversando com ela, contando tudo. Ela te amava, Heitor. Ela acreditava em você. E você a recompensou deixando-a morrer de coração partido."
Sua mandíbula se contraiu, um músculo se contraindo em sua bochecha. Ele não conseguia encontrar meu olhar. Ótimo. Deixe a culpa apodrecer.
"Laura, você está sendo irracional", Âmbar interveio, sua voz de repente firme, perdendo o tom adocicado. "Você está claramente doente. Heitor, deveríamos ir. Ela precisa de ajuda."
"Ajuda?", virei meu olhar ardente para ela, meus lábios se curvando em um desprezo. "Você acha que eu estou doente? Você, a arquiteta de toda essa farsa, ousa me chamar de doente?"
Dei um passo em sua direção, meus olhos nunca deixando os dela. "Nunca mais, nunca mais ouse falar o nome da minha mãe, Âmbar. Você é veneno. Você é uma doença."
Âmbar, surpreendentemente, não recuou desta vez. Seus olhos, geralmente tão calculistas, agora continham uma centelha de malícia genuína. "E você, Laura, é uma mulher patética e delirante. Você perdeu tudo, e a culpa é sua."
Minha mão tremeu. Eu queria esbofeteá-la. Limpar aquele olhar presunçoso de seu rosto. Mas uma ideia diferente, mais insidiosa, se formou em minha mente.
"Ajoelhe-se, Âmbar", ordenei, minha voz baixa, perigosa.
Ela piscou, confusa. "O quê?"
"Eu disse, ajoelhe-se", repeti, minha voz subindo ligeiramente, a autoridade nela surpreendendo até a mim mesma. "Aqui mesmo. Na frente do túmulo da minha mãe. E implore por perdão."
Os olhos de Âmbar se arregalaram, um lampejo de medo finalmente aparecendo neles. "Você está louca, Laura! Eu nunca faria isso!"
"Oh, você vai", contrapus, minha voz fria e inabalável. Agarrei um punhado de seu cabelo perfeitamente penteado, puxando sua cabeça para trás. "Ou eu te obrigo."
Seus olhos correram para Heitor, um apelo desesperado neles. Mas Heitor, pela primeira vez, estava congelado, preso entre seus instintos protetores e um crescente desconforto.
"Laura, pare com isso!", Heitor finalmente gritou, avançando.
Mas era tarde demais. Torci o braço de Âmbar para trás, forçando-a a se ajoelhar. Ela gritou, um ganido agudo e dolorido. A sujeira manchou suas roupas de grife caras.
"Implore", sussurrei em seu ouvido, minha voz uma promessa arrepiante. "Implore pelo perdão dela. Implore pelo do meu pai."
Âmbar se debateu, lágrimas escorrendo pelo rosto, mas ela não era páreo para minha força crua e visceral. Meu aperto se intensificou, seus ossos rangendo.
"Por favor, Laura, pare!", ela choramingou, a voz mal audível. "Eu não... não consigo respirar!"
Heitor finalmente nos alcançou, o rosto contorcido de fúria. Ele arrancou minha mão do cabelo de Âmbar, enviando uma onda de dor pelo meu pulso.
"Laura, que diabos há de errado com você?", ele rugiu, os olhos em chamas. "Você está agindo como um animal selvagem!"
Recuei, esfregando o pulso, meu olhar ainda fixo em Âmbar, que agora soluçava histericamente, agarrada a Heitor.
"Ela merece coisa pior", afirmei, minha voz fria, desprovida de remorso. "Muito, muito pior."
Heitor se colocou na frente de Âmbar, protegendo-a do meu olhar. "Você precisa de ajuda, Laura. Ajuda séria. Você está perdendo a cabeça."
"Eu estou perdendo a cabeça?", ri, um som sem alegria, quebrado. "Você me manipulou, Heitor. Você me traiu. Você destruiu minha família. E tem a audácia de dizer que estou perdendo a cabeça?"
Seu rosto endureceu. "Você é um perigo para si mesma e para os outros, Laura. Não posso deixar você continuar assim."
Ele se virou para Âmbar, sua voz suavizando. "Âmbar, sinto muito. Você está bem?"
Ela assentiu, soluçando em seu peito, lançando um olhar triunfante para mim por cima do ombro dele. A pura malícia em seus olhos era inconfundível.
"Você realmente ainda a está protegendo, não é?", perguntei a Heitor, minha voz um eco oco no cemitério silencioso. "Depois de tudo o que ela fez."
Ele não respondeu. Apenas segurou Âmbar com mais força, seu olhar fixo em mim, uma mistura de pena e desprezo em seus olhos.
"Tudo bem", eu disse, uma nova resolução endurecendo minhas feições. "Então terei que garantir que vocês dois recebam o que merecem."
Virei as costas para eles, afastando-me do túmulo da minha mãe, longe das duas pessoas que haviam roubado tudo de mim. Não olhei para trás.
"Laura!", Heitor chamou atrás de mim, a voz um apelo desesperado. "Não faça nada de que vá se arrepender!"
Parei por um momento, depois continuei andando, meu passo firme, meu propósito claro. Arrependimento? Eu não tinha mais nada do que me arrepender. Apenas vingança.
O sedã preto elegante, o motorista de Caio, estava me esperando nos portões do cemitério. Enquanto me aproximava, o motorista, um homem grande e imponente, saiu e abriu a porta de trás. Minha fuga. Meu futuro.
Entrei, e o carro partiu, deixando Heitor e Âmbar para trás, em meio à desolação de sonhos desfeitos e vidas estilhaçadas. Meu último olhar no retrovisor os mostrou como figuras pequenas e insignificantes.
O motorista me olhou pelo espelho. "Destino, senhora?", ele perguntou, a voz neutra.
"O aeroporto", eu disse, minha voz firme, meus olhos fixos no horizonte. "E depois, uma nova vida."





