Se seu cérebro não houvesse empacado em Lily Ryder, e se enrolado como um laço de rodeio, Dylan não teria pegado Tyler de surpresa do modo como fez, ali na garagem do mecânico. Um cutucão violento no seu ombro direito o trouxe de volta à realidade na mesma hora.
Tyler virou-se, pronto para brigar, mas conteve-se ao ver o sorriso de canto da boca de Dylan, e o brilho desafiador nos seus olhos azuis.
— Aquele seu luxuoso carro de cidade grande quebrou em algum lugar? — Dylan perguntou.
Tyler descerrou o punho direito, esvaziando os pulmões. Por mais que quisesse esmurrar o irmão do meio, teve receios de que isto poderia assustar Kit Carson, de modo que não o fez. O cachorro já passara pelo suficiente.
— Eu o troquei por uma caminhonete — escutou-se dizer. — E foi isso que quebrou.
Dylan ergueu uma das sobrancelhas.
— Precisa de carona?
Tyler olhou para o cão, descansando atentamente aos seus pés, os olhos castanhos indo de um irmão para o outro, A pobre criatura parecia estar esperando ser esmagada entre dois pratos gigantescos a qualquer momento.
— Preciso — Tyler respondeu, relutantemente aceitando a oferta de Dylan. — O reboque está atendendo outra chamada, e sou o quinto na fila, de modo que talvez só possam trazer a caminhonete amanhã, para poder consertá-la.
Depois de avisar para Vance Grant, o único mecânico de serviço, que ele voltaria a entrar em contato na manhã seguinte, Tyler e Kit seguiram Dylan para fora da oficina mecânica, sendo recebidos pelo calor da tarde. Deram uma parada no supermercado, para comprar ração para o cachorro, café, e alguns outros itens, e seguiram, em um acordo silenciosos para o rancho. O tempo todo, mal trocaram duas palavras entre si.
Na verdade, estavam a cerca de cinco quilômetros longe da cidade, Kit ofegando alegremente no banco de trás da caminhonete de cabine dupla de Dylan, antes de Tyler pensar em se perguntar como o irmão simplesmente aparecera na hora certa, ou errada.
Ponderando a questão, Tyler distraidamente esfregou o ombro dolorido, onde Dylan o cutucara.
— Você estava me procurando, quando veio à oficina? — perguntou.
— Estava — Dylan respondeu, tranqüilamente, sem sequer olhar na sua direção. O ligeiro curvar de satisfação no canto da boca do irmão disse a Tyler que ele o vira massageando o ombro. — As novidades se espalham rápido. É grande notícia, quando um Creed visita a velha cidade natal.
Tyler suspirou.
— Se nós somos notícia, realmente acontece muito pouca coisa por aqui.
— Você ficaria surpreso — Dylan retrucou. — Isto é, se parasse por aqui tempo o suficiente para descobrir o que anda acontecendo em Stillwater Springs.
Eles se esbarraram há pouco mais de uma semana, na casa de uma amiga em comum, Cassie Green Creeek, mas não fora exatamente uma reunião familiar. Tyler conhecera a filhinha de Dylan, Bonnie, e gostara um bocado dela, chegando até a ir buscar remédio quando ela ficara doente, mas o vínculo fraternal não foi muito além disso.
— Por que não me põe em dia? — Tyler disse, visto que Dylan, evidentemente, estava determinado a conversar.
E quando Dylan estava determinado a fazer qualquer coisa, era mais fácil simplesmente relaxar e deixar que o fizesse.
— Bem, eu me casei — Dylan anunciou. — Com Kristy Madison.
Tyler absorveu a notícia.
— Muito bem — disse. — Parabéns.
— Puxa, obrigado. Seu entusiasmo é contagiante.
— Ela é boa demais para você — Tyler comentou, não sabendo bem o que dizer. Havia tanta inimizade entre ele e os irmãos, que Tyler não sabia como levar uma conversa civilizada com nenhum dos dois. — Kristy, é claro.
Dylan riu.
— Verdade — respondeu. Depois começou a colocar Tyler em dia com os últimos acontecimentos em Stillwater Springs, Montana. — Eles desenterraram dois corpos na antiga propriedade dos Madison — prosseguiu. E o Xerife Book se aposentou um pouco mais cedo, uma semana antes da eleição especial. Mike Danvers estava concorrendo com Jim Huntinghorse, mas caiu fora da disputa, de modo que Jim, agora, é O Homem.
— Corpos? — Tyler repetiu.
Mal se livrara do choque de rever Lily Ryder, e a filhinha dela, e, agora, Dylan vinha com essa bomba.
— Vítimas de assassinato — Dylan confirmou.
— Caramba — Tyler disse. — Alguém que conhecemos?
— Provavelmente não — Dylan respondeu, ao deixarem a estrada principal e pegarem uma das antigas trilhas de gado que serpenteavam através do rancho como uma extensão de antigas raízes de árvore. Um músculo se retesou na mandíbula de Dylan. — Um andarilho que trabalhou para o pai de Kristy por algum tempo, e uma jovem que desapareceu durante uma viagem de família para acampar, alguns anos atrás.
Tyler lembrou-se do frenesi que a mídia fez envolvendo a garota desaparecida. Grupos de busca haviam olhado debaixo de cada pedra daquela região de Montana, sem sucesso, e, com o passar do tempo, o rebuliço foi esmorecendo, e os pais voltaram para casa, derrotados e com o desespero estampado nos olhares vazios.
— Floyd conseguiu pegar os assassinos?
— Será que você nunca lê um jornal? — Dylan retrucou, com um tom um pouco exasperado.
Um tom que Tyler conhecia muito bem.
— Não — respondeu. — Meus lábios se movem quando leio, e isso me deixa irritado.
— Tudo o deixa irritado, irmãozinho. — Dylan interrompeu-se, suspirou, e prosseguiu. — Freida Turlow matou a garota... Por ciúmes, ou coisa parecida. Quanto ao andarilho... Bem, essa é outra história.
— Aqueles Turlow são loucos de pedra — Tyler afirmou. Dylan riu de novo, mas foi um som áspero, desprovido de humor.
— Vinda de um Creed, é uma afirmação e tanto. Um pouco contra a vontade, Tyler também riu.
— O que o traz de volta ao lar, irmãozinho? — Dylan perguntou. O velho Dylan estava um tanto quanto loquaz.
— Pare de me chamar de irmãozinho — Tyler disse. — Sou uma cabeça mais alto do que você.
— Você sempre será o bebê da família. Aceite. — Dylan reduziu a marcha, e eles sacolejaram pela estrada que levava ao lago, na direção do chalé de Tyler. — Responda a minha pergunta. O que está fazendo aqui?
Tyler deixou escapar um demorado suspiro.
— Quem dera eu soubesse — admitiu. — Acho que me cansei da estrada. Preciso de algum tempo para pensar em algumas coisas.
— Que coisas?
Mais uma vez, o mau gênio de Tyler, nunca muito abaixo da superfície, deu sinal de vida.
— Por que diabos isso importa para você? — perguntou. Kit Carson ganiu no banco de trás.
— Porque eu me importo — Dylan afirmou, calmamente. — E Logan também.
— Cascata!
— Por que é tão difícil para você acreditar nisso? O chalé, construído bem perto do lago, surgiu no final da estrada. Era mais uma cabana do que uma casa, a herança de restos que recebera do velho, mas Tyler adorava a solidão e o modo como a luz do sol e da lua se refletiam sobre as águas tranqüilas.
Logan, sendo o mais velho, ficara com a casa principal do rancho, quando Jake Creed acabou morrendo na mata, derrubando árvores, e Dylan, vindo em segundo lugar, ficou com a velha espelunca do tio, do outro lado do pomar. Isso, como sempre, deixou Tyler em terceiro lugar.
Com os restos.
Tyler descerrou os dentes, e estendeu a mão para tranqüilizar o cão com um afagar das orelhas, Ignorando a pergunta de Dylan, preferiu perguntar sobre Bonnie.
— Ela está bem — Dylan respondeu.
Ele estacionou a caminhonete diante da armação de madeira em forma de A, e Tyler abriu a porta do carona, antes mesmo que Dylan desligasse o motor. Kit Carson aguardou, tremendo um pouquinho, ou de expectativa, ou de receio, até que Tyler o puxou para fora do banco de trás.
— Obrigado pela carona — Tyler disse para o irmão, pegando na caçamba os suprimentos que comprara na cidade. Aqui está o seu chapéu, para que a pressa?
Dylan desceu da caminhonete, e bateu a porta.
— Você não tem nada para fazer? — Tyler indagou, com secura.
Kit Carson estava cheirando ao redor de si, na grama verde e alta, sentindo-se em casa, e ele era toda a companhia que Tyler queria naquele instante. Assim que estivesse lá dentro, acionaria a bomba de água, acenderia o fogo no antiquado fogão a lenha e prepararia um pouco de café. Tentaria colocar as coisas em perspectiva.
— Tenho um bocado de coisas para fazer — Dylan respondeu, seu tom de voz calmo em conflito direto com o seu jeitão vá-para-o-inferno. — Para começo de conversa, estou construindo uma casa. Logan e eu voltamos aos negócios de gado. Mas, hoje, irmãozinho, você está no topo de minha lista de coisas a fazer. Goste ou não.
Tyler consultou uma lista imaginária, imaginando um pequeno caderno de anotações, como o que o pai sempre carregara no bolso da camisa de trabalho, cheio de medidas de troncos e números telefônicos de mulheres casadas.
— Você também está no topo da minha lista — retrucou. — O problema é que é uma lista negra.
Dylan apoiou-se no capô da caminhonete, observando quando Tyler seguiu para o chalé, carregando a saca de ração sob um dos braços e levando as duas sacolas de compras no outro. Kit Carson apressou-se em segui-lo, embora, provavelmente, estivesse mais interessado na comida para cachorro.
— Ty — Dylan disse, com aparente tranqüilidade, embora aquele sutil tom determinado fosse pura teimosia Creed. ― Somos irmão, lembra-se? Sangue do mesmo sangue, Logan e eu queremos fazer as pazes e enterrar de vez o passado.
— Você obviamente me confundiu com alguém que dá a mínima para o que você e Logan querem.
Dylan afastou-se da caminhonete e cruzou os braços.
— Olhe — disse, quando Tyler passou por ele, seguindo para a porta da frente do chalé —, estávamos todos confusos após o enterro de Jake...
Confusos? Logan, Dylan e ele se meteram na maior de todas as brigas, na taverna do Skivvie. Na verdade, acabaram na cadeia, e cada um seguiu o próprio caminho, após ter dito coisas que não podiam ser esquecidas.
Tyler sacudiu a cabeça e colocou a mão na maçaneta da porta. A coisa era tão enferrujada que ele jamais se dera ao trabalho de instalar uma tranca, mas, naquele dia, ela abriu sem problemas, e Kit Carson atravessou rapidamente o vão da porta, rosnando baixinho, com o pelo em pé.
Dylan vinha logo atrás de Tyler, trazendo o estojo de violão e a mochila do irmão.
― O que diabos? — murmurou.
Era óbvio que havia alguém dentro do chalé, e Kit Carson o encurralara no banheiro.
— Calma, garoto — Tyler disse para o cão, colocando no chão as coisas que vinha trazendo.
— Tire ele daqui! — gritou uma voz jovem de dentro daquilo que era usado como banheiro. — Tire ele daqui!
Tyler e Dylan trocaram olhares curiosos, e Tyler afastou o cão para o lado com um dos joelhos, postando-se diante da porta.
Uma criança encolhia-se no chão, entre o vaso e a bancada da pia, fitando Tyler com olhos selvagens, rebeldes, e apavorados. Um menino, até onde Tyler podia dizer, usando um comprido sobretudo preto, como se em desafio ao calor. Três anéis prateados furavam a sobrancelha esquerda do menino, e ambas as orelhas e o lábio inferior também exibiam peças de metal. A aranha tatuada no seu pescoço apenas contribuía para o drama.
Tyler estremeceu, apenas imaginando todas aquelas perfurações. Ele apoiou ambas as mãos no batente da porta, bloqueando a única rota de fuga, além da pequena janela um metro acima do tanque do vaso. O menino olhou para cima, e foi inteligente o suficiente para desconsiderar aquele método de agressão.
— Eu não estava fazendo mal a ninguém — disse. Seus olhos voltaram-se para Kit, que estava tentando se espremer por um espaço entre o joelho direito de Tyler e a parede, para desafiar o invasor. — O cachorro morde?
— Depende — Tyler disse. — Qual é o seu nome?
― Se ele morde ou não depende de qual é o meu nome? — o menino zombou.
Tyler reprimiu um sorriso. Tirando a tatuagem e os piercings, ele supôs ter mais em comum com o garoto do que diferenças.
— Não — disse. — Depende se você vai ou não deixar de bancar o espertinho e me contar quem é você e o que está fazendo na minha casa.
— Isto é uma casa? Parece mais um galinheiro para mim.
De pé atrás de Tyler, Dylan riu baixinho. Ele pousara o estojo do violão e a mochila de Tyler no chão, e, a julgar pela barulheira, começara a trabalhar com a bomba de água na pia principal.
— Muito bem, Brutus — Tyler disse, olhando para o cão —, pode pegá-lo.
Kit Carson o fitou confuso, provavelmente querendo saber quem diabos era Brutus.
— Davie McCullough! — o menino gritou, ficando rapidamente de pé e, ao mesmo tempo, tentando se fundir com a parede do banheiro, que estava coberta com um papel de parede antigo, descascando em vários lugares. — Está bem? Meu nome é Davie McCullough!
— Respire fundo, Davie — Tyler lhe disse. O cão não o machucará, e nem eu.
Contudo, alguém já o havia machucado. Agora que o menino saíra do chão e a luz empoeirada da janela alta lhe iluminara o rosto, Tyler notou as manchas roxas desbotadas, meio amareladas, ao longo do seu queixo.
Mais uma vez, Tyler estremeceu. Ou Davie McCullough recentemente havia se metido em uma briga com algum outro menino, ou algum adulto lhe dera uma senhora surra. Tendo tido ele próprio um pai alcoólatra, Tyler estava tendendo mais a acreditar na segunda versão.
— O que houve com o seu rosto? — Dylan perguntou, enfiando um pouco de lenha no fogão para ferver a água para o café, assim que Davie deixou o banheiro, esforçando-se para manter a distância tanto de Tyler quanto do cão.
Na verdade, Davie manteve uma distância cuidadosa de todo mundo. Um feito e tanto em um chalé do tamanho de um daqueles carros de palhaço no rodeio, que despeja levas de bufões.
— Você realmente vai acender uma fogueira em um dia como este?
— Davie retrucou.
— Eu fiz minha pergunta primeiro — Dylan respondeu, pousando ruidosamente a chaleira de metal amassada sobre o fogão.
Davie franziu a testa. Com um pavio tão curto, ele deveria ter sido um Creed, Tyler pensou, com um certo humor negro.
— O namorado de minha mãe estava de ovo virado — disse, impertinente, apesar da total desvantagem de sua situação. — Está bem?
Tyler sentiu mais uma pontada de solidariedade, e uma vontade quase irresistível de encontrar o namorado e ver se ele não estaria disposto a encarar um homem adulto, em vez de um garoto magricela que provavelmente jamais levantou algo mais pesado do que um computador laptop.
— Tudo bem — Dylan retrucou, afavelmente.
Ele enfiou a mão em uma das sacolas de compras de Tyler, retirou de lá de dentro um pacote de biscoitos de chocolate e o jogou para Davie, que agarrou a embalagem e tratou de abri-la na mesma hora.
— Eu comi aquela carne enlatada que você tinha guardada no armário— ele disse para Tyler, cuspindo algumas migalhas de biscoito no processo. — Você não costuma guardar muita comida por aqui, não é?
— McCullough — Tyler disse, e, desta vez, não se deu ao trabalho de tentar conter o sorriso. — Não me lembro de já ter encontrado alguém com esse nome em Stillwater Springs. É novo na cidade?
Claramente dividido entre a vontade de sair correndo pela porta, que Dylan deixara aberta para deixar sair um pouco do calor do fogão, e ficar, por não ter para onde ir, Davie hesitou, sem saber ao certo como responder, depois, puxou uma das quatro cadeiras frágeis que rodeavam a mesa no centro do chalé, e sentou-se para terminar de devorar os biscoitos.
Se ele já acabara com as dezenas de latas de "presunto" enlatado que Tyler costumava guardar para as suas visitas intermitentes, era óbvio que o garoto vinha se escondendo no lago já há algum tempo.
— Minha mãe morou aqui há muito tempo — Davie informou, após traçar um bocado de biscoitos. — Antes de eu nascer.
— Quem é a sua mãe? — Dylan perguntou, calmamente.
O sr. Sutil. Como se qualquer idiota não pudesse notar que ele estava pretendendo encontrar a mulher e lhe dizer poucas e boas por deixar que o namorado lhe surrasse o filho.
— Você é assistente social ou coisa parecida? — Davie perguntou, desconfiado.
— Não — Dylan respondeu, encontrando canecas no armário, e fazendo uma careta ante o que quer que tenha visto no interior delas. — Apenas tentando ser sociável, mais nada. Contudo, sua mãe deve estar um bocado preocupada.
— Está ocupada demais servindo bebidas no cassino para se preocupar — Davie zombou. — Roy está desempregado há um ano, de modo que ela tem feito jornada dupla, tentando economizar para que tenhamos a nossa própria casa.
Dylan e Tyler voltaram a trocar um olhar. Nenhum dos dois disse nada. Agora que o garoto estava com um pouco de açúcar e conservantes no sangue, ficara um tanto quanto falante.
— Moramos no acampamento para traileres Shady Grove, com a avó de Roy. O lugar é pequeno para todos nós, ainda mais quando ele está dando coices.
Jake Creed fora famoso por dar alguns socos quando estava virando goela abaixo um contracheque, e tanto Dylan quanto Tyler já haviam estado na pele de Davie mais vezes do que gostariam de admitir. Costumavam se refugiar na casa de Cassie, dormindo no chão de sua sala de estar, ou na tenda em seu quintal. Apenas Logan fora imune ao mau-gênio de Jake, talvez por ter sido o mais velho, ou porque sempre fora o favorito do velho, o que poderia "se tornar alguém na vida." O café ficou pronto.
Kit Carson caminhou lentamente até a varanda e ficou ali deitado, tomando sol, como era o direito de qualquer cão velho.
— Eu lhe darei uma carona de volta para a cidade — Dylan disse para Davie, após algum tempo passar. — O novo xerife é amigo meu. Talvez ele possa fazer algo quanto a Roy.
O rosto de Davie foi tomado de medo, rapidamente controlado, mas não rapidamente o suficiente.
— Nada além de um tiro de escopeta na barriga vai resolver o que há de errado com Roy Fifer — disse. — Por que não posso ficar aqui? Posso dormir lá fora, e trabalharei pela comida que eu comer, cortando lenha ou coisa que o valha.
Tyler sabia que não podia ficar com o garoto. Para começo de conversa, era um lobo solitário. A segunda coisa era que Davie era menor de idade. Não devia ter mais de treze ou quatorze anos. Para melhor ou pior, era a mãe quem decidia onde ele morava.
— Não daria certo — disse, com certa relutância.
O que ele e Dylan teriam feito, todas aquelas noites, se Cassie houvesse se recusado a abrir a porta para eles? Se ela não houvesse enfrentado Jake Creed na sua varanda e lhe dito que chamaria o xerife Book e prestaria queixa contra ele se Jake não fosse embora para casa, esperar a bebedeira passar?
— Eu trabalharei — Davie disse, e o desespero em sua voz foi como uma facada na barriga de Tyler. — Posso cuidar do cachorro e cortar lenha e pescar todo o peixe que pudermos comer. Ficarei fora do seu caminho... Não causarei problemas...
— Talvez eu não fique aqui por muito tempo — Tyler argumentou, sua voz rouca, incapaz de olhar na direção de Dylan. ― E você não pode ficar aqui sozinho, Não passa de uma criança.
Davie estava o mais perto das lágrimas que seu orgulho permitiria.
— Tudo bem — ele disse, seus ombros curvando-se um pouco. Dylan empurrou a cadeira para trás e ficou de pé. Ele suspirou. Devia estar se lembrado de todas as coisas de que Tyler se lembrara, e talvez alguma mais, visto que fora o filho do meio, não o caçula, como Tyler, nem o mais inteligente, como Logan. Não, Dylan fora turbulento, o filho que espelhou todas as coisas que Jake Creed poderia ter sido, se não houvesse sido tamanho desperdício de oxigênio.
— Vou falar com Jim — disse para Tyler.
Tyler simplesmente assentiu, entorpecido por sofrimentos antigos. Sofrimentos compartilhados.
Quando crianças, ele, Dylan e Logan muito brigaram, mas cada um também sempre cuidou da retaguarda dos outros. Logan, muito maduro para a idade, sempre providenciara para que ele e Dylan tivessem dinheiro para a merenda e presentes no Natal.
Quando foi que tudo deu tão errado para eles?
Não foi no enterro de Jake. Não, os problemas começaram antes disso.
Passando pela cadeira de Tyler, Dylan pousou a mão no seu ombro.
— Você sabe o número do meu celular — disse, baixinho. — Quando sua caminhonete ficar pronta, ligue para mim, e eu lhe darei uma carona até a cidade.
LILY ACORDOU com o raiar do dia, ao som de vozes conhecidas conversando na cozinha, a da filha e a do pai, uma combinação nova. Em algum lugar lá fora, talvez no quintal do vizinho, um irrigador de jardins cantava a sua canção estivai: ka-chucka-chucka-whoosh, ka-chucka-chucka-whoosh.
Sentando-se na cama estreita do que outrora fora o quarto de costura da mãe, Lily sorriu, bocejou e espreguiçou-se. Calçou nos pés as sandálias que chutara para longe antes de se deitar. Pretendera apenas descansar os olhos, em vez disso, apagara por completo, indo tão fundo, que nem mesmo o mais vivido dos sonhos conseguiu alcançá-la.
Por algum tempo, vira-se misericordiosamente livre da realidade mundana.
Da culpa pela morte de Burke.
Do enorme abismo que a separava do homem que outrora chamara de "papai".
A solidão corrosiva.
Ela ficou sentada por alguns instantes, escutando a cadência animada da voz de Tess enquanto ela contava para o avô tudo sobre a hora da história na biblioteca. Já fazia tempo demais desde que Lily escutara aquela cadência doce. Tess normalmente era tão solene, uma pequenina alma perdida, seguindo com a vida.
Hal riu com gosto ante um dos comentários de Tess. Ele sempre fora um bom ouvinte... até simplesmente decidir parar de ouvir, pelo menos, o que Lily tinha a dizer. Quando ligara para ele, após o divórcio, desesperada para escutar alguma garantia de que as coisas voltariam a ficar bem, ele a ignorara, ou, pelo menos, foi o que pareceu para uma criança de coração partido, sofrendo com tantas coisas que mal podia identificar.
Lily entrou na cozinha e encontrou Tess e Hal arrumando a mesa para o jantar. Espaguete ensopado ao forno, a especialidade de Janice Baylor, a recepcionista de longa data de Hal, ao que Lily se recordava. O rostinho de Tess brilhava de prazer com a tarde de aventura na biblioteca com Kristy.
Lily reprimiu um comentário sobre a quantidade de gordura e colesterol no prato de forno de Janice e sorriu.
— Algo está cheirando bem — disse.
— A sra. Baylor trouxe espaguete para o jantar — Tess disse, alegremente. Hal observou Lily, provavelmente esperando um discurso sobre as
maravilhas do tofu.
— Está com uma aparência melhor — ele disse, — Parece mais descansada.
Lily assentiu. Precisava de uma chuveirada e dormir mais (será que algum dia poria o sono em dia?), porém, precisava mais de uma refeição quente e mais ainda da companhia do pai e da filha.
— E quanto a você? — ela perguntou a Hal. — Descansou um pouco durante a tarde?
Hal sorriu. Aqui, na sua própria casa, ele não parecia tão pálido e abatido quanto no hospital. A expressão de pesar delirante nos seus olhos também esmorecera. Lily supôs que ele decidira viver.
— Tanto quanto pude, com metade da cidade vindo me trazer comida — ele respondeu. — A campainha tocou pelo menos uma dúzia de vezes.
Lily ficou horrorizada. Não escutara nada. Sequer se mexera em uma das duas camas duras no quarto de costura. Afinal de contas, era assim que zelava pela saúde do pai?
Seus pensamentos deviam ter se espelhado no seu rosto. Hal deu uma piscadela, e disse, baixinho:
— Sente-se, Lily Você está em casa, agora. Você está em casa, agora. Kristy dissera algo parecido, ainda há pouco. Era uma fantasia agradável, Lily supunha, contudo, assim que o pai estivesse em condições de se virar sozinho, ela e Tess voltariam para suas antigas vidas em Chicago, para o apartamento, e para a escola particular de Tess, e para o emprego de Lily como compradora para um varejista on line de roupas femininas.
A mãe de Burke, Eloise, que adorava Tess, ficaria perdida sem o chá semanal delas, apenas para as duas, sem contar com a empregada de Eloise, Dolores. Elas usavam apenas a melhor porcelana branca, Eloise e Tess, e usavam chapéus floridos, e luvas brancas com botões de pérola. Eloise levava Tess a museus, e lhe comprava lindos vestidos feitos a mão, e a convidava para longos finais de semana no "chalé" de Kenyon, em Nantucket.
O lugar tinha três andares, quatorze aposentos, cada um deles enfeitado com móveis antigos primorosamente gastos. Paisagens marítimas inestimáveis adornavam as paredes, e até mesmo os tapetes eram peças de herança, ou achados elegantes nas melhores casas de leilão do mundo.
Tess, Eloise jamais deixava de salientar, era tudo que lhe restava, depois que o marido a deixara e o filho morrera no auge da vida. A acusação não precisava ser proferida: se ao menos Lily tivesse sido mais tolerante com o "espírito livre" de Burke, um pouco mais paciente...
A própria mãe de Lily não parecia ter tempo para ela, e nem para Tess, estava ocupada demais adornando o braço do poderoso marido em festas sofisticadas por toda a costa leste.
Resolutamente, ela despertou dos pensamentos, seguiu para a pia da cozinha e lavou as mãos. Depois, sentou-se para jantar de "espaguete" com a família.
— Gostei do homem com o cachorro Tess anunciou, no meio da refeição.
Só de ser lembrada de Tyler, Lily ficou toda arrepiada.
— Onde ele mora? — Tess insistiu, quando nem Lily e nem Hal ofereceram uma resposta.
Lily não tinha idéia. Não queria saber. Tudo seria muito mais fácil se pudesse apenas fingir que Tyler Creed não existia, como vinha fazendo desde a noite em que ele lhe partira o coração, mas isso seria muito difícil em uma cidade tão pequena como Stillwater Springs.
— A família dele tem um rancho — Hal explicou, com uma presteza que pegou Lily de surpresa, dada a antiga opinião negativa que ele tinha dos Creed em geral e de Tyler em particular. Ela recordou-se da maneira amigável com que ele cumprimentara Tyler quando o encontraram caminhando ao longo da estrada solitária, — É uma propriedade enorme. O chalé de Tyler fica no lago, a melhor pescaria da região.
— Duvido que ele passe muito tempo lá — Lily disse, timidamente.
— Ele é um homem ocupado, não há dúvidas — Hal concordou, com silenciosa admiração, — Mudou um bocado desde que era garoto. Logan e Dylan também. Todos cursaram a faculdade, com Jake atrapalhando mais do que ajudando, e também deixaram sua marca no circuito de rodeio profissional. Na verdade, Logan é formado em direito.
Os olhos de Lily se arregalaram ao fitar o pai.
— E desde quando você se tornou fã dos Creed? — ela perguntou, tomando o cuidado de manter o tom de voz tranqüilo. Tess era tão inteligente que poderia pegar no ar a mais suave das nuances.
— Desde que um deles salvou a minha vida — Hal disse, baixinho, — Além do mais, admiro iniciativa. E isso é o que não falta neles, nos três.
— Ele é casado? — Tess perguntou, um pouco cautelosamente demais para o gosto de Lily. — Ele tem uma filhinha?
Lily quase se engasgou com uma garfada do ensopado de espaguete.
— Até onde eu sei — Hal respondeu, olhando para Lily, em vez de para Tess —, ele é solteiro. Não tem filhos.
― Acha que ele gostaria de uma filhinha? — Tess insistiu, com tamanha esperança na voz que os olhos de Lily se encheram de lágrimas súbitas e escaldantes. — Uma filhinha como eu?
— Querida... — Lily começou a dizer, mas as palavras lhe falharam. Hal estendeu o braço para acariciar a mão da netinha, seu sorriso sincero e cheio de carinhosa compreensão.
— Acho que qualquer homem ficaria orgulhoso de ter você por filha, meu docinho.
— Não — Lily sussurrou.
E, naquele exato instante, o telefone tocou.
Lily correu para atender, em parte, porque precisava da distração e, em parte, porque não queria que Hal saísse às pressas para cuidar da vaca doente de alguém, colocando em risco a sua saúde frágil.
— Alô? — atendeu.
— Lily? É Tyler.
O chão pareceu desaparecer sob os pés de Lily exatamente como fazia quando ela era adolescente e o som da voz de Tyler tinha o poder de deixá-la de pernas bambas.
— Hã.. oi... — Lily balbuciou.
— Eu quero vê-la — Tyler disse. Eu quero vê-la. Simples assim.
Como se ele não a houvesse dispensado para dormir com uma garçonete tatuada. Como se não houvesse destruído os seus sonhos mais preciosos e promovido um distanciamento frio no centro de seu casamento que ela e Burke jamais foram capazes de superar.
Maldito seja, era muita ousadia. Porque ele queria vê-la, Tyler esperava que isso fosse acontecer. Na sua arrogância, ele provavelmente sequer cogitara a possibilidade de que ela poderia recusar.
— Lily? — Tyler insistiu, quando ela ficou em silêncio por tempo demais.
O rosto dela ardia, seu estômago se contorcia, e ela deu as costas para Hal e Tess, em uma tentativa inútil de esconder o que estava sentindo.
— Lily — Tyler repetiu. — Será que quer jantar comigo amanhã à noite?
— Tudo bem — Lily respondeu, embora tivesse a intenção de dizer não. Em se tratando de Tyler Creed, sua determinação e nada eram o mesmo.
Se Tyler tivesse que explicar o que o fizera ligar para Lily e convidá-la para sair, teria dificuldade em encontrar as palavras certas. Ela não saíra de sua cabeça desde que se esbarraram na estrada, depois que a caminhonete dele quebrou, contudo, não era só isso. Havia muito mais.
Talvez fosse o fato de estar sozinho no chalé, com apenas Kit Carson como companhia, embora, no fundo, a solidão sempre houvesse sido uma das suas coisas favoritas na vida. Sem dúvida, era um lobo solitário, mais do que qualquer um dos irmãos, que por si só já eram um bocado autossuficientes.
Talvez fosse o fato de saber muito bem como era ser um garoto como Davie McCullough, um jogador em uma partida de queimado psicológico, sempre o alvo. Jamais sabendo para que lado saltar, mas sempre pronto para se esquivar de uma bolada.
E, talvez, houvesse sido o pouco tempo que passara com Dylan, naquele dia, lembrando-o de que ter irmãos podia ser uma coisa boa.
Para algumas pessoas.
Isto é, pessoas que não eram Creed.
De qualquer modo, ligara para Lily, sem sequer parar para pensar que ela podia estar envolvida com algum sortudo. Contudo, ela concordara em sair para jantar com ele, e isso era um começo.
A questão era, começo do quê?
Ele estava sentado no degrau da varanda, olhando para o lago, Kit Carson ao seu lado, encostando ligeiramente no seu ombro direito, como se para, de algum modo, ancorá-lo, e bebendo café forte, quando o seu celular tocou.
Seu primeiro pensamento, ao colocar a caneca no chão e tirar o celular do bolso da camisa, foi que Lily mudara de idéia. Recuperara o bom senso. Estava ligando para ele para dizer que pensara bem, e agradecia, mas não, obrigada...
Mas, no final das contas, quem estava ligando era Dylan.
— A situação do garoto é bem ruim — Dylan disse. Era típico dele. Nunca se dava ao trabalho de dizer "alô", contudo, por outro lado, na maioria das vezes, Tyler também não o fazia. Nem Logan. Quando Tyler ligava para alguém, era porque tinha negócios a tratar. Ele não ficava jogando conversa fora. Uma característica da família, pensou, com certo humor. — A do Davie, é claro.
Tyler deixou escapar um suspiro que estivera travado em seu íntimo, pesado e sombrio, desde que encontrara Davie McCullough agachado no chão de seu banheiro, naquela tarde.
— Foi o que eu supus — respondeu. — Conversou com Jim?
— Conversei. No momento, nosso novo xerife está até o pescoço de jacarés. Ele queria ligar para a assistência social e colocar o garoto em algum lar adotivo. Davie disse que fugiria antes que isso acontecesse, e eu acredito nele, de modo que convenci Jim a aguardar alguns dias.
Tyler fechou os olhos.
— Onde está Davie agora?
— Eu o levei até o cassino. Ele está esperando em um dos restaurantes, até que a mãe encerre a jornada de trabalho. — Dylan interrompeu-se, e pigarreou, e Tyler, que soubera que algo mais sério estava por vir desde o início da ligação, se preparou para o pior. — Ty? — Dylan prosseguiu. — A mãe do menino... Bem... Ela é alguém que você conhece, — Ele interrompeu-se novamente. Na cabeça de Tyler apareceu a imagem das saídas de bombas se abrindo em um jato de combate, dos abomináveis cilindros caídos com graciosidade lenta e mortal. — Você a conheceu como Doreen
Baron.
— Diabos — Tyler praguejou, ao absorver o impacto. Isso é que era uma bomba emocional.
Quando a conhecera, Doreen era garçonete, na época em que o Skivvie's servia almoço e tinha algumas mesas. Quinze anos mais velha do que ele, Doreen, com sua variedade de tatuagens e uma atitude de quem nem estava aí para nada, ensinara-lhe tudo que ele precisava saber sobre dar prazer a uma mulher, além de outras coisas.
Ainda tentando se recompor, Tyler desesperadamente começou a fazer as contas, contando para trás, a partir da idade que supunha que Davie tivesse.
— Diabos — repetiu.
Davie podia ser seu filho. E, ao que tudo indicava, algum desgraçado o vinha surrando regularmente.
— Você ainda está aí? — Dylan indagou, um tanto quanto cautelosamente, quando o silêncio se estendera além do suportável.
— É, ainda estou aqui — Tyler respondeu, zonzo devido à combinação de medo e incontrolável esperança.
Por um lado, torcia para que Davie fosse seu. Por outro, tal revelação tornaria impossível a chegada a um entendimento entre ele e Lily Será que ele sequer queria chegar a um entendimento com Lily?
— Está pensando no que eu estou pensando? — Dylan insistiu, baixinho.
— Estou — Tyler respondeu. — Diria que Davie tem a idade certa. — Ele inclinou a cabeça, massageou a ponte do nariz com o polegar e o indicador. O cão deixou escapar um ganido e encostou-se ainda mais nele. — Contudo, Doreen jamais sequer fingiu que eu era o único homem em sua vida, e acho que, se Davie fosse meu, ela há muito já teria vindo me pedir dinheiro.
Dylan ficou em silêncio por um longo tempo.
— Olhe, você vai precisar de um carro. Já falei com Kristy, e ela concordou em lhe emprestar a Blazer dela até a sua caminhonete ficar pronta. Se quiser, podemos levá-la até aí, depois que ela largar o serviço na biblioteca.
O orgulho se manifestou no íntimo de Tyler pronto a dominá-lo, contudo precisava do transporte. A oficina mecânica não era o tipo de lugar que oferecia veículos emprestados, e carros de aluguel também estavam fora de cogitação, a não ser que quisesse ir até Missoula buscar um, o que ele não queria.
— Tudo bem — disse, por fim. ― Obrigado. Dylan riu.
— Está vendo? — Não foi tão difícil assim, foi?
Fora muito difícil. Como um Creed, Dylan tinha de saber o quanto.
— Não comece a achar que vamos ser chapas ou coisa do gênero — Tyler alertou.
Mais uma vez, Dylan riu, desta vez, uma risada mais breve, e o som dela irritou certas partes mais sensíveis de Tyler. Depois da briga no Skivvie's, após o enterro de Jake, jurara que jamais deveria nada aos irmãos, e sempre vivera de acordo com tal juramento. Agora, ali estava ele, pegando emprestada a Blazer, como um perdedor, incapaz sequer de providenciar transporte para si mesmo.
— Deus me livre, ser seu chapa — Dylan retrucou, com secura.
— Que seja — Tyler respondeu, apertando o botão de desligar. Duas horas mais tarde, horas que Tyler passou alternando entre andar de um lado para o outro e tocar nervosamente o violão, dois veículos estacionaram diante do chalé, Dylan dirigindo um deles e Kristy atrás do volante do outro.
Tyler saiu do vão da porta, guardou o caríssimo violão feito sob encomenda no seu estojo, e torceu para que ninguém comentasse nada, mas o olhar de Dylan foi direto para o instrumento musical, assim que ele e Kristy puseram os pés dentro da casa.
Kristy, trazendo Bonnie, de dois anos de idade, apoiada no quadril, seguiu direto para admirar o violão, deixando escapar um assovio baixinho de admiração.
— Um Martin — disse, com sutil reverência.
— Gosto de uma garota que conhece seus violões — Tyler disse, dando um beijo rápido na face da cunhada e, em seguida, acariciando a cabecinha loura de Bonnie.
Kristy estava linda, sempre fora. Pernas que se estendiam ao infinito, e um cérebro de verdade por trás daquele rosto angelical. E estava com um brilho especial, que indicava um recente orgasmo da variedade cósmica.
Dylan, seu olhar tranqüilo, seu corpo se movendo como se as articulações houvessem sido engraxadas, é claro, fora o sujeito sortudo.
Tyler sentiu uma pontada da mais pura inveja. Sorriu para disfarçar, embora suspeitasse que Dylan soubesse exatamente o que lhe passava pela cabeça.
Kristy retirou as chaves da Blazer de dentro do bolso do jeans justo, e as sacudiu diante do nariz de Tyler.
— Aqui está, caubói — disse.
— Caubói — Bonnie repetiu, alegremente, esforçando-se para pular para os braços dele.
Tyler sempre tivera um fraco por crianças e tomou a sobrinha nos braços. Agachou-se para apresentá-la a Kit Carson. A menininha riu, extasiada. Kit lhe lambeu a face. Tyler voltou a ficar de pé.
Kristy pousou as chaves sobre a mesa da cozinha, seus olhos azuis escuros cheios de boa vontade.
— É bom tê-lo de volta em Stillwater Springs, Ty — disse. — Estamos indo jantar na casa de Logan e Briana. Quer vir conosco?
— Ainda não estou pronto para isso — Tyler disse, mal-humorado, depois de trocar um olhar com Dylan.
Estava curioso quanto à Briana e à família pré-fabricada de Logan, dois garotos, de acordo com Cassie, além de todo o trabalho que estava sendo feito na antiga casa, mas Logan estaria lá, e isso por si só já seria motivo para manter a distância.
Mais uma vez, o olhar de Dylan pousou-se sobre o violão. Provavelmente estava se recordando do incidente no Skivvie's, depois de enterrarem Jake Creed, exatamente como Tyler estava fazendo.
— O que passou deveria ficar no passado — Dylan disse. Era fácil para ele dizer, Tyler pensou, sentindo a raiva antiga voltar a se manifestar, Ele escrevera uma canção sobre Jake, ou sobre o homem que precisara que o pai fosse, e Logan arrancara o violão de suas mãos e o destroçara de encontro ao bar.
Tyler ainda podia escutar o vibrar surdo das cordas. O instrumento havia sido uma encomenda especial; provavelmente não custara mais do que vinte ou trinta dólares, mesmo quando novinho em folha. Também fora a última coisa que a mãe de Tyler lhe dera, antes de seguir para um hotel sujo, evidentemente cansada de ser a mulher de um Creed, mesmo que por apenas mais um dia, e engolira o conteúdo de um frasco de comprimidos.
— Eu avisarei quando o que passou tiver ficado no passado —Tyler enfim respondeu, com o tora de voz duro. — Enquanto isso, é melhor esperar sentado.
Bonnie, dando-se conta da mudança no ambiente, voltou para Kristy, seu rostinho sério de preocupação, enfiando o polegar na boca, enquanto se acomodava no ombro da madrasta.
A expressão do rosto de Kristy também demonstrava preocupação.
— Vibrações ruins — comentou, baixinho, alternando o olhar entre Tyler e Dylan.
Por Kristy, e mais ainda por Bonnie, Tyler esboçou o que ele torcia para que fosse um sorriso tranquilizador, e não uma careta de morte.
— Obrigado pelo empréstimo do carro, Kristy — ele disse. — Eu fico muito grato.
Dylan estava perto da porta aberta, pronto para ir embora, agora que entregara o veículo e fizera a sua boa ação do dia.
— Se mudar de idéia quanto ao jantar, sabe onde nos encontrar — disse para Tyler, depois deixou a casa.
Kristy lançou outro olhar intrigado para Tyler e, com Bonnie, seguiu o marido.
Tyler aguardou até que todos tivessem partido na caminhonete de Dylan antes de pegar as chaves de Kristy.
— Vamos, garoto — disse para Kit Carson. — Vamos descobrir se sou o querido papai de alguém.
Tess atirou-se na cama do antigo quarto de Lily, os bichinhos de pelúcia que Tyler ganhara na feira há tanto tempo rodeando-a.
— Podemos ficar aqui, mãe? — ela perguntou, quando Lily sentou-se na beirada do colchão, que ainda estava coberto pela colcha rosa com bolinhas brancas que ela ganhara no seu oitavo aniversário. — Quero dizer, em Stillwater Springs, com o vovô?
Lily ajeitou para trás um cacho dos cabelos da filha, ainda úmido devido ao banho da tarde, afastando-o da testa. Ela beijou o local que acabara de deixar exposto.
— Temos um apartamento em Chicago — disse. — E sua avó Kenyon morreria de saudades de você se nós nos mudássemos para longe.
— Ela poderia me visitar aqui — Tess disse, com uma expressão de esperança resignada brilhando no olhar.
A idéia de Eloise Kenyon visitando uma cidade de gado como Stillwater Springs trouxe um sorriso melancólico aos lábios de Lily. A mulher provavelmente não tinha nem um par de jeans, quanto mais botas e tênis como a maioria das pessoas usava por ali. No que dizia respeito à sogra, o lugar poderia ficar em uma dimensão paralela.
— Por que quer ficar em Montana, minha querida? — Lily perguntou. — Você tem tantos amigos em Chicago...
— Não me sinto sozinha aqui — Tess lhe disse. Ela costumava fazer comentários como aquele, de figurativamente, sem aviso nenhum, puxar o tapete de baixo de Lily. — Gosto desta casa. Parece que ela está me abraçando. E vovô disse que, quando ele voltar a trabalhar, eu posso ajudá-lo a cuidar dos animais.
Em silêncio, Lily contou até dez, É claro que Hal estava por trás de toda a idéia de ela e Tess se mudarem de volta para a antiga cidade natal, agora que ele se vira frente a frente com a morte, subitamente, virará um homem de família. Certa vez, levara ela, Lily, nas suas rondas, exatamente como prometera levar Tess. Depois, um dia, aparentemente, cansara-se de ter uma filha e, de uma hora para a outra, a descartara.
Por Deus, não faria o mesmo com Tess. Não ia conquistar o amor e a confiança da criança, apenas para expulsá-la de sua vida.
— Você se sentia sozinha em Chicago? — Lily perguntou, impotentemente, pois precisava de tempo para pensar, antes que tocasse no outro assunto.
Como diabos alertaria Tess, uma criança de seis anos de idade, para não se apegar ao próprio avó? Ainda mais quando ela tão obviamente necessitava de uma figura paterna qualquer?
— Sempre me senti como se fosse para o papai estar lá — Tess explicou sabiamente, dando de ombros. — E eu poderia fazer amigos novos aqui mesmo. Kristy disse que havia crianças por aqui com quem eu poderia brincar, e eu também gostei muito da hora da história.
Lily esforçou-se, mas, mesmo assim, lágrimas lhe vieram aos olhos, e Tess as viu.
Ela sentou-se, atirou os braços ao redor do pescoço de Lily e a abraçou com força. Outra criança poderia ter se agarrado; Tess estava oferecendo conforto, não tomando.
Agora, era Lily que estava se agarrando a ela.
— Não chore, mamãe — Tess suplicou, sua respiração quente de encontro à face de Lily — Por favor, não chore.
Lily fungou bravamente.
— Eu sinto muito -— disse. — Eu é que deveria ser forte.
Tess voltou a se recostar nas almofadas, as mesmas almofadas onde Lily tivera tantos sonhos com Tyler, e fitou a mãe com aquela peculiar expressão séria e tão adulta que preocupava tanto Lily
— Ninguém é forte o tempo todo, mamãe — Tess disse. Ali estava novamente a mulher sábia se fazendo passar por uma criança. — Se você deixar, pode ser feliz. Foi o que vovô disse, enquanto você estava tirando o seu cochilo e estávamos preparando a janta.
Por dentro, Lily entrou em ebulição. Obrigada, pai do ano, disse em silêncio para o pai imprestável.
— Eu sou feliz, querida. Afinal de contas, tenho você. O que mais poderia querer?
Ela mexeu um pouco nas cobertas, olhou ao redor, admirando todas aquelas lembranças de sua infância, pensando, com o intuito de se distrair, que o quarto poderia usar uma renovação. Cortinas novas, papel de parede novo, algumas aquarelas emolduradas, em vez de todos aqueles cartazes de bordas amareladas dos astros do rock de sua adolescência...
— Poderia querer um marido — Tess sugeriu, em resposta à pergunta de Lily que não era para ser respondida. Não que poderia esperar que uma criança de seis anos de idade, mesmo uma precoce como Tess, pudesse ter esse tipo de sensibilidade. — E mais filhos. ― Eu tenho um emprego em Chicago, lembra? — Lily salientou. — Um emprego que eu adoro, E, caso não se importe, não acho que eu queira um marido.
O ceticismo estava estampado no rosto sardento de Tess, franzindo-lhe o nariz e desenhando vincos na sua testa.
— Você não ama aquele trabalho, mamãe — argumentou. — Está sempre dizendo que preferia ter a sua própria empresa, para que pudesse administrar as coisas do seu próprio jeito e fazer o seu próprio horário. E, de qualquer modo, não precisamos de dinheiro, precisamos? Vovó Kenyon diz que você tem mais do que o suficiente, graças ao fundo fideicomisso do papai e ao prêmio do seguro.
Por trás do sorriso maternal, Lily acrescentou Eloise Kenyon à lista negra mental encabeçada por Hal Ryder, Por que a mãe de Burke mencionaria questões como fundos e prêmios de seguro para uma criança, a não ser que quisesse que o comentário chegasse aos ouvidos de Lily? Usar Tess como intermediária entre as duas era indesculpável, uma atitude decididamente passiva-agressiva.
Quanto a Burke, independente de todos os seus outros defeitos, ele mantivem o testamento atualizado. Cuidara do futuro da filha e, até certo ponto, do da esposa.
O fundo fideicomisso estava seguramente reservado para Tess, e Lily usara o prêmio do seguro para pagar as muitas dívidas de cartão de crédito de Burke e a hipoteca do apartamento. Seu trabalho, contudo, apesar de, às vezes, fazê-la querer arrancar os cabelos de pura frustração, pagava bem, e, de qualquer modo, ela e Tess viviam sem muito luxo.
Lily era uma pessoa extremamente sensata.
A não ser quando se tratava de Tyler Creed, c claro.
Por que fora concordar em jantar com ele, quando sabia que nenhum outro homem na face da terra, nem mesmo o próprio pai, era capaz de magoá-la tanto quanto Tyler?
Será que o sofrimento era um modo de vida para ela? Será que começara a gostar de sofrer?
— Estamos as duas cansadas — disse, por fim. — Vamos falar sobre isso uma outra hora.
Ela viu o protesto estampando-se nos olhos de Tess, Você sempre diz isso... e o mais tarde jamais chega.
Lily pousou o indicador sobre os lábios de Tess, para conter o desafio inevitável.
— Conversaremos sobre isso amanhã — disse. — Eu prometo. Apaziguada, embora por muito pouco, Tess deixou escapar um suspiro de menininha e relaxou visivelmente.
Lily voltou a beijá-la.
— Quer que eu deixe a luz acessa por algum tempo? — ela perguntou. Tess jamais sentira medo do escuro, mas, afinal de contas, tratava-se de uma casa estranha, independente do quanto ela alegasse adorá-la, e ela tivera um dia e tanto.
— Não estou com medo, mamãe — Tess respondeu. — Já lhe disse que esta é uma casa abraçadora.
Uma casa abraçadora.
Por um instante, Lily sentiu saudades da inocência da juventude, e teve vontade de sentir-se da mesma forma que Tess sentia a respeito da casa antiga. Quando criança, ela... ela adorara morar ali. Até os pais rasgarem ao meio o conceito de lar, cada um levando consigo uma metade e largando-a perdida no meio do ar.
Lily simplesmente assentiu, não confiando em si mesma para falar de novo sem chorar, e ficou de pé. Ela desligou o abajur, com sua cúpula amarelada pelo tempo e cheia de babados, e seguiu para o corredor.
— Mas você pode deixar a porta aberta — Tess solicitou, corajosamente, em meio à escuridão.
Lily sorriu, sabendo que a filha podia enxergá-la devido à luz que vinha do corredor.
— Boa noite, docinho.
— Noite — Tess murmurou, com uma voz sonolenta. Alguns instantes mais tarde, Lily se juntou ao pai na sala de estar na parte da frente da casa. Ele estava sentado atrás da sua antiga escrivaninha de tampo corrediço, examinando o que parecia ser uma pilha de contas.
Lily, que viera pôr em pratos limpos algumas coisas, engoliu em seco. Será que o pai estava bem de dinheiro? Afinal de contas, era o veterinário de uma pequena cidade, e, se ela se recordava direito, recolher pagamento jamais fora uma prioridade com ele. Ainda mais quando os clientes estavam passando por dificuldades.
E, nos dias de hoje, as pessoas estavam fazendo o possível apenas para sobreviver.
— Eu posso ajudar — escutou-se dizer, — Se estiver um pouco atrasado com os pagamentos ou coisa parecida...
Hal sorriu, e, mais uma vez, algo mudou no seu olhar. Algo que pareceu magoá-lo.
— Agradeço a oferta — disse, com a voz um pouco rouca. — Mas eu estou com os pagamentos em dia, Lily. Nada com que tenha de se preocupar.
Sentindo-se um pouco constrangida, Lily assentiu. Manteve o rosto virado para o outro lado, enquanto sentava-se em uma poltrona acolchoada que, provavelmente, era mais velha do que ela.
— Tess está falando sobre ficar de vez em Stillwater Springs — sondou. — Por acaso é idéia sua?
Hal riu, saudosamente.
— Ainda é um lugar excelente para se criar filhos — ele retrucou. — Seguro para ir colher doces durante o Halloween. Você pode desejar Feliz Natal para as pessoas sem escutar desaforos de que não está sendo politicamente correto, e todo quatro de julho há um enorme piquenique e queima de fogos no parque.
Lily sentiu as faces arderem.
— Chicago também é — ela retrucou, mesmo então, incapaz de enfrentar o olhar do pai. ― Um bom lugar para se criar os filhos, é claro. Hal espirou sonoramente.
— Você já foi feliz aqui — lembrou-a.
— Fui — ela retrucou, friamente. — Até eu me tornar persona non grata.
No instante em que as palavras lhe deixaram os lábios, Lily arrependeu-se delas. Verdade ou não, Hal estava se recuperando de um enfarto seriíssimo. Não era a hora de desenterrar mágoas antigas.
Hal nada disse, por um longo tempo. Quando o fez, suas palavras fizeram Lily sentir um aperto doloroso na garganta.
— Você jamais foi persona non grata, Lily — ele insistiu, o tom de voz áspero e cansado. — Sua mãe e eu sempre a amamos muito. Apenas não amávamos mais um ao outro, e você acabou levando um bocado das sobras disso. Eu realmente lamento muito.
Ela quis perguntar ali mesmo por que ele a ignorara de repente, logo após o seu rompimento com Tyler, mas não sabia se seria forte o suficiente para escutar a resposta.
— Suponho que o divórcio jamais seja fácil para ninguém — disse, admitindo o óbvio. — Seja adulto ou criança.
Com um suspiro que provocou um aperto no coração de Lily, seu pai alçou-se da cadeira atrás da escrivaninha, cruzou o recinto, e sentou-se na outra poltrona, ficando cara a cara com ela.
— Fale-me mais do seu divórcio, Lily — ele pediu. — Quanto tempo passou infeliz ao lado de Burke, antes que, por fim, decidisse dar-se por vencida e desse o fora?
Lily abaixou a cabeça.
— Tempo demais — sussurrou.
— Ele a traía, não é? Envolvia-se com outras mulheres?
Ela engoliu em seco e assentiu. Depois, fitou o pai nos olhos.
— Mamãe alega que você estava "se envolvendo com outras mulheres" quando ela o deixou. Isso é verdade, pa... Hal?
O sorriso de Hal foi triste.
— A terra não sairia dos eixos se você voltasse a me chamar de pai, Lily — disse, gentilmente. Ele mexeu-se na poltrona, pegou um cachimbo do suporte sobre a mesa, e ante a expressão furiosa de Lily, devolveu-o ao seu lugar, — Para responder à sua pergunta, fui fiel à sua mãe, pelo menos, no sentido literal da palavra.
— O que ISSO quer dizer?
— Que éramos diferentes demais um do outro, eu e Lucy — Hal disse, lentamente. — Ela gostava de luzes brilhantes e cidades grandes, e eu gostava de ser um veterinário do interior. Ela queria dirigir um carro caro, e eu recusei, mesmo podendo comprar um, porque não gostava da mensagem que isso teria passado para as pessoas que lutavam apenas para colocar comida na mesa. No final das contas, Lily, a única coisa que sua mãe e eu realmente tínhamos em comum, era você.
Pois sim, Lily teve vontade de dizer, mas engoliu as palavras.
Hal riu, mas ele parecia tão cansado. Estava na hora de ele tomar o seu remédio e ir para a cama. Lily fez menção de se levantar, para ir buscar a sacola cheia de frascos de comprimidos que o médico enviara para casa com eles.
— Sente-se, Lily — o pai disse, com firmeza. Ela voltou a afundar na poltrona.
— Ainda quero saber sobre Burke, Não a versão pública. O filho da grande família da Nova Inglaterra, e toda essa baboseira. Como ele era na verdade?
— Fútil — Lily, respondeu, após pensar um pouco. — Engraçado. Inteligente. Autoconfiante.
— E muito popular com as outras mulheres?
A pergunta foi feita de forma gentil, porém, ao mesmo tempo, não havia dúvida de que ele esperava uma resposta e que não a deixaria ir embora antes que ela respondesse com honestidade, Era óbvio que ele não ia permitir que ela o tirasse do rastro.
— Muito — Lily concordou. — Pensando bem, o que não faltou foram índices. Os costumeiros telefonemas em que desligavam quando eu os atendia, despesas incomuns no extrato do cartão de crédito, camisinhas na mala dele quando Burke jamais as usava, coisas do gênero, Eu fingia não notar. Suponho que não era capaz de encarar a verdade a nosso respeito. Mas era quase como se Burke quisesse que eu soubesse que ele tinha outras mulheres. Eu ligava para o quarto dele quando ele estava fora da cidade, em um voo, e uma mulher atendia. Ele dizia que a tripulação toda estava no seu quarto, que estavam comemorando o aniversário de alguém, a promoção de um membro da equipe, ou a aposentadoria de outro colega... — Ela se interrompeu, corou, e sacudiu a cabeça ante a própria ingenuidade. — Até o avião dele cair, pensei que ele estivesse me manipulando para eu dar o primeiro passo, para que ele não fosse o primeiro Kenyon na história da família a pedir o divórcio. Contudo, quando enfim procurei um advogado, ele...
— Ele se matou — Hal completou, gentilmente. ― É.
— Tem certeza disso? Quem sabe não foi um acidente?
— Quem dera eu pudesse acreditar nisso — Lily disse, baixinho. —, Não houve um bilhete, nem nada do gênero, mas ele me ligou algumas horas antes de decolar aquela última vez. Estava abalado, implorando outra chance, fazendo tudo quanto era tipo de promessas malucas. — Ela se interrompeu, e engoliu em seco. — Ele disse... Disse que não seria certo destruir o lar de Tess... Que deveríamos tentar ter outro filho...
― E?
— Eu disse que não o amava mais. Que não adiantava tentar, visto que havíamos tentado terapia de casal após a última traição dele. — Lily mordeu o lábio inferior com tanta força, que sentiu uma pontada de dor, e meio que esperou sentir o gosto do sangue. Quisera tanto mais filhos, porém Burke sempre se recusara. Uma era o suficiente, dissera. Como se Tess fosse uma hipoteca com parcelas pesadas, um objeto de algum tipo. — Como é que dizem mesmo? Quem age precipitadamente tem o resto da vida para se arrepender?
— Mesmo que Burke tenha caído com o avião porque você estava se divorciando dele, Lily, não significa que a culpa tenha sido sua.
— Eu vivo me dizendo isso — Lily admitiu. — Mas parte de mim sabe que é mentira, — A verdade veio à tona, por conta própria, grande demais para ser contida. — Eu não amava Burke... Jamais o amei. Eu amava a idéia de amar, de ser a esposa de alguém, a mãe de alguém. De ter um lar e uma família. Mas, no fundo, jamais gostei de Burke como deveria, e acho que ele sabia disso.
Ela jamais amara Burke porque jamais deixara de amar Tyler, e era o tipo de mulher que se apaixonava por toda a vida.
— Você deve ter sentido algo por Burke — o pai argumentou, gentilmente. — Afinal de contas, casou-se com ele. Teve Tess com ele.
— Acho que, no começo, pensei que, com o tempo, eu me apaixonaria por ele. Mas isso não aconteceu. — Uma lágrima escorreu pela face de Lily, e ela não se deu ao trabalho de enxugá-la. — Eu não devia ter aceitado levar adiante o casamento. Se eu tivesse me recusado, ele poderia estar vivo hoje.
— Não há como saber disso — Hal lhe disse. — Pare de se martirizar, Lily, mesmo que apenas pelo fato de não poder mudar o passado e de Tess precisar de uma mãe feliz, uma mãe que olha para o futuro, e não para o passado.
— Eu sou feliz — ela insistiu, pela segunda vez na mesma noite.
O suspiro de Hal foi carregado de um divertimento acre-doce e de certo grau de resignação.
— Não, não é não — contra-argumentou. — Sua mãe aprovou cem por cento o casamento, mas eu me recordo de olhar no seu rosto, pouco antes de acompanhá-la até o altar para entregá-la, e enxergar algo que me deixou com vontade de dar um basta na coisa toda ali mesmo. Quis dizer para todos aqueles Kenyons e seus amigos e parentes chiques que comessem, bebessem e se divertissem, mas que não haveria cerimônia.
Hal Ryder abrira mão da filha muito antes do casamento dela, mas isso não importava agora. Era mais um velho esqueleto empoeirado que não deveria ser exumado.
— Por que não disse nada? — Lily perguntou baixinho. — Pelo menos para mim?
Hal voltou a suspirar.
— Por que eu não tinha o direito, Você era uma mulher adulta, formada na faculdade e com um bom emprego. E por que eu já interferira com a sua vida uma vez antes. — Justamente quando Lily ia perguntar o que ele queria dizer com aquela última parte, Hal ficou de pé, espreguiçou-se e bocejou. — Estou exausto, Lily — confessou. — Preciso descansar um pouco.
— Vou buscar seus comprimidos — Lily disse, também se levantando.
— Ah, sim — Hal retrucou, com um humor macabro. — Meus comprimidos, não podemos nos esquecer deles.
Na cozinha, ela abriu a bolsa de remédios, estudou os rótulos dos frasquinhos marrons e cuidadosamente contou as dosagens apropriadas enquanto o pai aprontava a cafeteira para a manhã seguinte e trancava a porta dos fundos.
Lily ergueu a sobrancelha diante disso.
— Hoje em dia as pessoas estão trancando as portas em Stillwater Springs? — perguntou.
— Normalmente, não costumo trancar — Hal admitiu. — Mas, agora, tenho que pensar em você e Tess. E algumas coisas têm acontecido por aqui recentemente...
Na sala de estar, ele acabara de fazer um discurso sobre como Stillwater Springs era um bom lugar para se criar os filhos... especialmente Tess. Sabendo que ele estava cansado, Lily nada falou sobre a contradição entre as palavras do pai e seus atos.
Agora, tenho que pensar em você e Tess.
Será que ele se convencera de que elas ficariam permanentemente em Stillwater Springs, depois que ele houvesse se recuperado o suficiente para se virar sozinho?
Ela colocou um punhado de comprimidos em um pedaço de papel toalha e o entregou para Hal, junto com um copo de água. e observou enquanto o pai tomava a contragosto a medicação.
— Boa noite, querida — ele disse, ao terminar, e colocar o copo vazio na pia.
Quando foi a última vez em que ele a chamara de querida?
A noite em que Tyler lhe fizera o coração em pedaços fora a última vez. Será que realmente já fazia tanto tempo?
Lily fechou os olhos e aguardou até que Hal houvesse deixado o aposento. Até escutar a porta do quarto de dormir dele se fechar, no final do corredor que levava à cozinha.
E, então, ela chorou, por todas as menininhas sem pai.
Assim como pelas meninas grandes na mesma situação.





