Lys Cavalcante chegou ao café exatamente no horário combinado.
Pontualidade era uma forma silenciosa de controle.
Com seus 24 anos, ela já aprendera a não oferecer mais do que pretendia sustentar. A postura firme compensava a estatura delicada de 1,59, e ainda assim ninguém duvidava da segurança com que ocupava o espaço.
Erick Montreal a aguardava em uma mesa lateral.
Aos 39 anos, 1,80 de altura, presença marcante mesmo sentado, ele não se levantou de imediato - não por descaso, mas para não invadir. Observou quando ela se aproximou, avaliando cada gesto.
- Trinta minutos - ela lembrou, sentando-se.
- Estou contando - ele respondeu, olhando discretamente o relógio.
O café chegou. Conversa contida. Perguntas simples. Nenhuma invasão.
Até que o passado decidiu não respeitar limites.
- Lys?
A voz veio de trás. Grave. Familiar demais.
O corpo dela reagiu antes do rosto. Ombros rígidos. Respiração presa por um segundo - imperceptível para quase todos, mas não para Erick.
Ela virou devagar.
- Eu sabia que era você.
O homem se aproximou sorrindo, confiante demais. Mais alto que ela, postura de quem se sentia no direito de ocupar espaço.
- Quanto tempo... - ele disse. - Não esperava te ver aqui. Sozinha.
Erick permaneceu sentado, observando.
Esperando.
- Estou acompanhada - Lys respondeu, firme, sem olhar para ele.
O homem finalmente percebeu Erick. Avaliou-o dos pés à cabeça. O terno sob medida. A calma controlada. A diferença de presença era gritante.
- Desculpe - disse ele, forçando simpatia. - Sou Henrique.
Erick se levantou então. Devagar. A diferença de 1,80 contra 1,59 não era só física - era postura, domínio silencioso.
- Erick - respondeu. Nada mais.
Henrique voltou-se para Lys.
- Você sumiu - comentou. - Nunca respondeu minhas mensagens.
Ela sustentou o olhar.
- Porque algumas conversas terminam quando uma pessoa vai embora antes do que prometeu ficar.
O silêncio caiu pesado.
Erick entendeu ali.
Não os detalhes.
Mas o peso.
- Eu só queria saber se estava bem - insistiu Henrique.
- Agora sabe - Lys respondeu. - Estou.
Ela se levantou, o gesto encerrando qualquer continuação. Erick acompanhou o movimento imediatamente, sem perguntar, sem tocar.
- Vamos? - ele disse, olhando para ela, não para o outro homem.
Lys assentiu.
Enquanto se afastavam, Henrique ainda tentou:
- Você mudou, Lys.
Ela parou. Virou-se apenas o suficiente.
- Não - disse. - Eu aprendi.
E seguiu.
No corredor silencioso, ela respirou fundo. Erick caminhava ao lado dela, mantendo o ritmo - não à frente, não atrás.
- Obrigada - ela disse, sem olhá-lo.
- Não fiz nada.
- Fez - Lys respondeu. - Não tentou ser maior do que a situação.
Ele a encarou.
- Você não é alguém que precisa ser resgatada.
- Exato - ela disse, finalmente olhando para ele. - E é por isso que ainda estou aqui.
O relógio marcava vinte e oito minutos.
Erick sorriu de leve.
- Ainda temos dois.
- Use bem - ela respondeu.
E pela primeira vez desde que se conheceram,
Lys Cavalcante não se afastou imediatamente.





