Tarde Demais, Sr. Johnston: Ela Se Foi

Kairós acordou com o cheiro de antisséptico e o zumbido rítmico de uma máquina.

Seu corpo parecia oco. Não era apenas o vazio físico em seu ventre; era um vácuo espiritual, como se alguém tivesse enfiado a mão dentro dela e arrancado sua alma.

Ela piscou, as pálpebras pesadas. O quarto estava na penumbra. Havia uma silhueta sentada na cadeira ao lado de sua cama.

Uma faísca de esperança patética acendeu em seu peito.

- Zelo? - ela sussurrou, a voz rouca.

A figura se moveu. Uma mão cobriu a dela. Era quente, calejada, gentil.

- Sou eu, Kairós. É o Júbilo.

A esperança morreu instantaneamente, substituída por uma onda esmagadora de decepção.

Sua visão clareou. Júbilo Vau, o enfermeiro de seu avô, olhava para ela com olhos cheios de preocupação.

- Ele não veio, não é? - perguntou Kairós.

Ela puxou a mão e virou a cabeça em direção à janela.

Júbilo suspirou. Ele serviu um copo de água de uma jarra de plástico.

- O hospital ligou para o seu avô como contato de emergência. Ele não podia se mover, obviamente. Então ele me enviou.

Kairós encarou as persianas fechadas.

- O bebê se foi, Júbilo.

- Eu sei.

Júbilo ajustou o cobertor em volta dos ombros dela. Seu olhar vagou para o suporte de metal ao pé da cama. A folha superior estava visível. Leucemia Linfocítica Aguda.

Ele ficou rígido. Kairós viu os olhos dele se arregalarem.

Ela estendeu a mão e agarrou o pulso dele.

- Não conte a ninguém - sibilou ela. - Especialmente ao meu avô. Se ele souber que estou doente, ele vai desistir. Ele vive por mim.

Júbilo parecia furioso. Seu maxilar trabalhou.

- Você precisa de tratamento, Kairós. Tratamento real. Não apenas esconder isso. O dinheiro... eu posso ajudar.

Ele se interrompeu. Ele deveria ser apenas um enfermeiro assalariado. Não podia explicar como tinha acesso a milhões.

- É inútil - disse Kairós, fechando os olhos. - Eu só quero garantir que o vovô esteja seguro antes de eu partir.

Zelo caminhava pelo corredor do hospital. Ele havia deixado o baile de gala mais cedo. Algo na maneira como Kairós gritou ao telefone havia ficado preso em sua garganta como uma espinha de peixe.

Ele disse a si mesmo que estava vindo apenas para verificar a mentira dela. Para provar que ela estava fingindo.

Ele chegou à porta do Quarto 304. Estava ligeiramente entreaberta.

Pela fresta, ele a viu. Ela parecia pequena na cama do hospital. E inclinado sobre ela, perigosamente perto, estava um homem.

Um homem em uniformes baratos de enfermeiro. O homem estava colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha de Kairós.

Zelo sentiu uma onda de calor subir pelo pescoço. Era um ciúme irracional e violento.

Ele escancarou a porta com um estrondo. O som foi como um tiro no quarto silencioso.

Kairós pulou. Júbilo girou, instintivamente se colocando entre a cama e a porta.

Zelo parou ao pé da cama.

- Então é isso? - Zelo zombou, o escárnio pingando de sua voz. - É por isso que você estava tão desesperada para se livrar do meu filho? Para abrir espaço para a criadagem?

Kairós sentou-se, estremecendo quando os pontos em seu abdômen repuxaram. Seu rosto corou de raiva.

- Você é um monstro, Zelo.

Júbilo deu um passo à frente, os punhos cerrados ao lado do corpo.

- Você não tem ideia do que ela passou hoje.

Zelo nem olhou para Júbilo. Manteve os olhos fixos em Kairós.

- Saia da minha frente, enfermeiro.

Ele enfiou a mão no bolso interno do smoking e puxou um talão de cheques. Riscou um número, arrancou o papel e o jogou sobre a cama. Ele flutuou e pousou no colo de Kairós.

- Aqui. Isso é para suas "despesas médicas" - disse Zelo. - Ou pague seu namorado. Eu não me importo. Apenas pare de me ligar.

Kairós olhou para o cheque. Cinquenta mil reais. O preço do seu trauma.

Ela o pegou. Seus dedos tremiam, não de medo, mas de fúria pura.

Ela rasgou o cheque ao meio. Depois ao meio novamente. Jogou os pedaços de papel nele como confete.

- Saia - disse ela. Sua voz era quieta, mortal.

Zelo sentiu uma pontada de inquietação. Nunca a tinha visto olhar para ele daquele jeito. Geralmente, os olhos dela eram suplicantes, suaves. Agora estavam mortos.

Ele mascarou seu desconforto com crueldade.

- Ótimo - disse ele, girando nos calcanhares. - Mas não espere que eu continue pagando pela suíte privada daquele velho se você vai agir assim.

Ele saiu.

Júbilo fez menção de persegui-lo, mas Kairós começou a tossir. Era um som úmido e cavernoso.

Ela cobriu a boca com um lenço de papel. Quando o afastou, estava manchado de vermelho.

Júbilo congelou. Ele envolveu os braços ao redor dela, segurando-a.

- Me leve para casa, Júbilo - sussurrou ela, encostando a cabeça no peito dele. - Eu não quero morrer neste quarto.

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