Tarde Demais, Sr. Albuquerque

Enquanto os papéis do divórcio corriam e os preparativos para a partida eram finalizados em segredo, Isa precisava manter as aparências.

Voltar para a mansão que dividia com Ricardo era um tormento, mas necessário para não levantar suspeitas.

Ricardo estava furioso com o "incidente" na fazenda e o sumiço de seus capangas, mas ainda não sabia do resgate dos pais de Isa.

Ele a culpava pelo transtorno, pela viagem perdida de Vanessa.

A primeira coisa que Isa fez, numa tarde em que Ricardo estava ausente, foi ir ao jardim dos fundos.

Ali, na antiga casa de campo da família em Petrópolis, um lugar de memórias felizes antes de Ricardo, ela acendeu uma grande fogueira.

Cartas de amor, presentes caros, fotografias de tempos mais felizes.

Tudo virou cinzas.

Cada objeto queimado era uma ponte rompida, uma dor catártica.

O cheiro de papel queimado e plástico derretido era o perfume de sua libertação.

Ela observou as chamas consumirem seu passado, sentindo um vazio gelado onde antes havia amor.

No dia seguinte, ela dirigiu até o mirante no Rio de Janeiro.

O mesmo mirante onde ele a pediu em casamento.

Onde prenderam um cadeado com suas iniciais numa grade, símbolo de um amor que deveria ser eterno.

Ela encontrou o cadeado, enferrujado pelo tempo e pela maresia.

Tirou um alicate pesado da bolsa.

Com um rangido metálico, o cadeado se partiu.

Isa jogou as duas metades no lixo próximo, sem olhar para trás.

Não havia mais amor, nem promessas. Apenas a fria realidade da traição.

Os ipês que Ricardo plantara para ela no jardim da mansão, um para cada ano de casamento, foram os próximos.

Ela não os cortou, mas ligou para um jardineiro e mandou arrancar cada um deles pela raiz.

Quando Ricardo chegou em casa naquela noite, encontrou os buracos na terra.

"O que significa isso, Isabella?" ele rosnou.

"Estavam doentes," ela respondeu com frieza, sem encará-lo. "Precisavam ser removidos."

Ele a fuzilou com os olhos, mas não disse mais nada.

A tensão na casa era palpável.

Dias depois, Isa voltou para a mansão e encontrou Vanessa instalada na sala de estar.

A influenciadora, trazida de volta por Ricardo sabe-se lá como, parecia frágil, os olhos vermelhos de choro.

"Isa, querida," Ricardo começou, a voz falsamente suave. "Vanessa passou por um trauma. Aquele voo, o retorno apressado... Ela precisa de cuidados."

Isa olhou para Vanessa, depois para Ricardo, com total indiferença.

"Que pena."

A expressão de Ricardo endureceu.

"Peça desculpas a ela, Isabella. Você causou tudo isso."

Vanessa fungou, agarrando o braço de Ricardo. "Não precisa, Rick. Eu só... só queria entender por que ela me odeia tanto."

Ricardo afagou os cabelos de Vanessa.

"Ela está com ciúmes, meu bem. Mas vai superar."

Ele se virou para Isa. "Vamos, peça desculpas."

Isa deu de ombros. "Não tenho nada pelo que me desculpar."

Ricardo a puxou pelo braço, levando-a para o escritório.

"Qual é o seu problema? Não vê que ela está sofrendo?"

"O único problema aqui é você, Ricardo."

Ele riu, incrédulo. "Eu? Eu que estou tentando consertar a bagunça que você fez!"

Isa notou uma bandeja com chá e biscoitos na mesa dele. Ricardo odiava chá. Vanessa adorava.

Uma pequena mudança, mas que gritava a profundidade da influência dela.

Quando Ricardo saiu para atender uma ligação, Vanessa se aproximou de Isa, o ar frágil desaparecendo.

"Ele me ama, sabe? Você perdeu." Sua voz era arrogante.

Isa sorriu levemente. "Fique com ele. Ele é todo seu."

A indiferença de Isa pareceu irritar Vanessa.

"Você não se importa?"

"Nem um pouco."

No momento em que Ricardo voltou, Vanessa pegou uma xícara de chá quente da bandeja e "tropeçou", derramando o líquido fervente em seu próprio braço, soltando um grito agudo.

"Isa! Por quê?!" Vanessa choramingou, olhando para Ricardo com os olhos cheios de lágrimas.

Ricardo correu para o lado de Vanessa, fuzilando Isa com o olhar.

"Você a queimou? Sua louca!"

"Eu não toquei nela!" Isa protestou, incrédula com a audácia da outra.

Vanessa soluçava. "Ela disse que eu não merecia você, Rick... e me empurrou."

"Isso é mentira!"

Ricardo não quis ouvir. Ele pegou o braço de Isa com força.

"Você vai aprender a não machucar as pessoas que eu amo."

Ele a arrastou pela casa, até a cozinha industrial.

Abriu a porta do frigorífico.

"Passe a noite aí. Talvez o frio acalme seus nervos."

Ele a empurrou para dentro e trancou a porta.

O frio era intenso. A escuridão, total.

Isa se encolheu, tremendo.

Ele prometera nunca deixá-la sentir frio. Prometera um sistema de aquecimento especial para a casa deles, lembrando como ela era friorenta.

Outra promessa quebrada.

As lágrimas congelavam em seu rosto.

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