Tarde Demais Para Perdoar

O médico à minha frente, Dr. Almeida, suspirou, os ombros descaídos.

"Isabela, os resultados não são bons."

A sua voz era baixa, quase um sussurro, mas cada palavra ecoava na sala de consulta fria e impessoal.

"Leucemia mieloide aguda. E, lamento dizer, está num estado avançado."

Senti o ar a faltar-me nos pulmões, o chão a fugir-me debaixo dos pés.

Avançado. Uma sentença de morte.

Assenti lentamente, incapaz de formar palavras.

Lágrimas silenciosas começaram a escorrer-me pelo rosto, mas limpei-as rapidamente.

Não agora. Tinha de ser forte.

"Quanto tempo?" consegui finalmente perguntar, a voz rouca.

"É difícil dizer com exatidão," respondeu ele, evasivo. "Alguns meses, talvez menos sem tratamento agressivo. Com tratamento, podemos tentar ganhar algum tempo, mas a qualidade de vida..."

Abanei a cabeça. Não queria tratamentos agressivos que me deixassem ainda mais debilitada.

Queria... queria o quê?

Lembrei-me de Coimbra, da universidade, dos corredores de pedra fria onde conheci o Tiago.

Ele era um estudante de enologia, sonhador, com as mãos sempre sujas de terra e o cheiro a uvas entranhado na pele.

Eu, uma aspirante a tradutora, fascinada pela sua paixão.

A imagem dele a sorrir, os olhos brilhantes enquanto me falava da sua pequena vinha no Douro, invadiu-me a mente.

"Vamos erguer isto juntos, Bela," dizia ele, a voz cheia de esperança.

E erguemos.

Trabalhei em traduções de manuais técnicos vinícolas, ajudei-o com a burocracia, sacrifiquei as minhas próprias ambições para que a "Quinta do Tiago" se tornasse a marca de renome que era hoje.

O nosso amor era como um vinho jovem, vibrante e cheio de promessa.

Agora, tudo o que restava era um sabor amargo na boca.

O sucesso subiu-lhe à cabeça.

As viagens de negócios tornaram-se mais frequentes, as ausências mais longas.

E depois apareceu a Carolina.

A gestora de marketing. Ambiciosa, calculista, com um sorriso que nunca chegava aos olhos.

Começaram os jantares de trabalho tardios, as mensagens trocadas às escondidas.

O Tiago que eu amava desapareceu, substituído por um estranho frio e distante.

O ressentimento dele por eu não conseguir engravidar, um fantasma que nos assombrava há anos, tornou-se uma arma nas suas mãos, nas mãos dela.

"Talvez o problema não seja meu, Isabela," dissera ele uma vez, a voz gélida, depois de mais uma tentativa falhada de fertilização.

As palavras dele ainda me queimavam.

Ajeitei a mala no ombro, o peso dos papéis do médico a esmagar-me.

Saí do consultório, a decisão já tomada.

Não lhe contaria. Não ainda.

Para quê? Para ver a falsa compaixão nos seus olhos? Para ouvir mais acusações veladas?

Não.

Este fardo, carregá-lo-ia sozinha.

Cheguei a casa, o nosso apartamento em Coimbra, outrora um ninho de amor, agora um mausoléu de memórias.

O silêncio era ensurdecedor.

Tiago estava, como sempre ultimamente, no Douro. Com ela, provavelmente.

Fui até à estante, procurando um livro qualquer para me distrair.

Os meus dedos roçaram um objeto esquecido, escondido atrás de uma fila de romances.

Um velho gira-discos que o Tiago me tinha oferecido nos nossos primeiros tempos.

Estava partido. Uma das agulhas tinha-se perdido há anos.

Como nós.

Ao lado, um pequeno caderno de notas, de capa dura, azul-escura.

O meu caderno de traduções.

Mas não continha apenas termos técnicos e listas de vocabulário.

Nas margens, nas páginas em branco, eu desabafava.

Pequenos poemas, pensamentos soltos, a crónica da nossa ascensão e da nossa queda.

Abri-o ao acaso.

"Hoje o Tiago vendeu a primeira grande encomenda. Celebramos com um vinho barato e sonhos caros. Sinto que podemos conquistar o mundo."

A caligrafia era a minha, mas parecia de outra pessoa, de outra vida.

Folheei mais algumas páginas.

"Ele está diferente. Distante. A Carolina ligou outra vez. Diz que é trabalho."

A última entrada era de há poucas semanas.

"A dor no peito voltou. Ele nem reparou."

Um conflito rasgou-me por dentro.

Devia mostrar-lhe? Devia esfregar-lhe na cara a dimensão da sua traição, da sua negligência?

Ou devia simplesmente desaparecer, levando comigo o segredo da minha doença e a dor do nosso amor desfeito?

Um humor cínico apoderou-se de mim.

Ele nem sequer notaria a minha ausência, quanto mais a falta deste caderno.

A chave a rodar na fechadura sobressaltou-me.

Tiago.

Entrou de rompante, a cara fechada, o telemóvel encostado à orelha.

"Sim, Carolina, já estou a tratar disso. Relaxa."

Desligou a chamada e olhou para mim, os olhos frios a varrerem o caderno nas minhas mãos.

"O que é isso?" perguntou, a voz ríspida. "Andas a remexer em coisas velhas? Não tens mais nada que fazer?"

O choque da sua hostilidade imediata atingiu-me como um soco.

"São só... memórias," murmurei, a voz a falhar.

Ele riu, um som seco, desprovido de alegria.

"Memórias? Devias era pensar no futuro. Num futuro em que não me chateias com os teus dramas."

A dor no meu peito intensificou-se, uma pontada aguda que me fez engolir em seco.

Ele não via. Não queria ver.

A desilusão era um nó apertado na minha garganta.

Lembrei-me de uma noite, há muitos anos, quando tive uma gripe forte.

Ele cuidou de mim com uma ternura infinita.

Fez-me canja, mediu-me a febre de hora a hora, não saiu do meu lado até eu adormecer.

Onde estava esse Tiago?

A frieza dele agora era uma lâmina a cortar-me a alma.

Ele aproximou-se, o cheiro do perfume caro dela a precedê-lo.

"Olha, Isabela," começou, num tom falsamente conciliador, "eu sei que as coisas não têm estado fáceis. A pressão do negócio, a Carolina a precisar de mim para fechar aquele contrato internacional..."

Interrompi-o, a voz mais firme do que esperava.

"Não fales dela. Não aqui."

Ele revirou os olhos.

"Sempre o mesmo drama. A Carolina é essencial para a empresa. E, francamente, tem sido um apoio que tu não me dás há muito tempo."

Traição. A palavra ecoava na minha cabeça.

Anseava pelo passado, por um tempo em que éramos nós contra o mundo.

Agora, era ele e ela contra mim.

Ele pegou no telemóvel outra vez, um sorriso a desenhar-se-lhe nos lábios enquanto lia uma mensagem.

Provavelmente dela.

Exibicionismo ostensivo. Queria magoar-me.

"Tiago," disse eu, a voz embargada, "acho que devíamos separar-nos."

A palavra "divórcio" pairou no ar, pesada, definitiva.

Ele olhou para mim, o sorriso a desaparecer, substituído por uma expressão de desprezo.

"Separar? Não sejas ridícula, Isabela. Estás a ser melodramática. Temos um império para gerir. Não tenho tempo para estas tuas crises."

Agarrou num casaco que estava pousado no sofá.

"Tenho de ir. A Carolina está à minha espera para um jantar importante."

Bateu a porta atrás de si, deixando-me sozinha com o eco das suas palavras cruéis e a certeza do meu fim.

O meu fim. E o fim de nós.

A dor física voltou com força, uma garra a apertar-me o peito e as costas.

Curvei-me, a respiração ofegante.

Tentei ligar-lhe. Caixa de correio.

Claro. Estava com ela.

Fui até ao calendário na cozinha. Marquei o dia de hoje com um X vermelho.

A finalidade da minha situação abateu-se sobre mim com um peso esmagador.

Não havia mais nada a fazer.

Era o início do fim.

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