Tarde demais para me reconquistar!

Os olhos de Ryan estavam frios e inflexíveis. Nicole ficou paralisada, sem conseguir proferir uma palavra.

A dor irradiava do lado machucado dela, e ela só conseguia observar em silêncio enquanto ele pegava Olivia com cuidado e a levava embora, deixando-a para trás.

Lágrimas quentes escorreram pelo rosto dela antes que percebesse. Nicole só funga, presa ao lugar, incapaz de se mover.

Não demorou muito para que o som distante da porta da frente se abrindo quebrasse o silêncio.

A empregada chegou, cantarolando baixinho a caminho da sala de jantar. A melodia alegre parou de repente quando ela avistou Nicole. "Nicole, o que foi? Por que está chorando assim?"

Aquela pergunta simples fez com que ela perdesse o último resto de compostura. As palavras saíram trêmulas da boca de Nicole: "Pode me ajudar? Estou com muita dor no lado."

A mulher não perdeu tempo. Ligou para o síndico pedindo um carro e rapidamente levou Nicole ao hospital mais próximo.

Depois de uma bateria de exames, os resultados trouxeram um certo alívio: nada grave fora danificado.

"Evite bater na cintura por um tempo e lembre-se de passar a pomada regularmente." O médico olhou para Nicole, notando o rosto jovem. "Podem aparecer alguns hematomas feios, mas vão sumir logo. Não se preocupe."

Nicole agradeceu em silêncio e saiu com a empregada.

Lá fora, a mulher se virou para ela. "Quer que eu ligue para o senhor Martins?"

"Não precisa."

Nicole imaginou que Ryan devia estar ocupado cuidando de Olivia, e era improvável que ele se preocupasse com ela naquele momento.

Um sorriso amargo lhe surgiu nos lábios enquanto torcia a cintura devagar, sentindo a dor ter aliviado um pouco. Entregou a pomada à empregada e disse baixinho: "Pode voltar. Vou para a faculdade."

A mulher hesitou, a preocupação estampada no rosto. "Tem certeza que vai ficar bem?"

"O médico disse que não é nada sério, nenhum osque quebrou. Vou me virar."

Foi preciso insistir um pouco, mas a empregada finalmente concordou em ir embora. Sozinha no banco de trás do carro, uma onda de solidão invadiu Nicole.

Ela morava na casa de Ryan desde criança, sempre sentindo-se protegida de qualquer perigo. Mas agora, quando realmente precisava de alguém, o único conforto vinha da empregada.

Todos os relacionamentos acabam se distanciando, suspirou ela por dentro. O dela com Ryan só tinha acabado um pouco mais cedo.

Mais tarde, depois de entregar a papelada, Nicole informou ao orientador sobre a intenção de estagiar em Aslesália.

O orientador piscou, surpreso. "Aslesália? É tão longe daqui. Pensei que você não aguentaria a ideia de deixar seu tio e que ia entrar na empresa dele. Ele não ficaria preocupado com você indo para tão longe?"

Nicole hesitou, sem saber como explicar a relação complicada dela com Ryan. Depois de uma pausa, respondeu: "Não somos parentes de sangue, e não posso ficar dependendo dele para sempre. Vou fazer vinte e um anos em breve. Já está na hora de aprender a me virar sozinha. Ele não tem motivo para se opor."

O orientador ponderou as palavras dela e soltou um suspiro suave. "Sabe, ninguém precisa me contar o quanto seu tio se importa com você. Todo mundo no campus vê, professores e alunos. Mesmo agora que você está quase adulta, ele ainda aparece para te buscar, como se estivesse te protegendo de qualquer perigo. Mas você está certa em querer crescer por conta própria. Tem muito a aprender fora daqui. Acredito mesmo que você vai se dar bem, não importa para onde vá. Estou torcendo por você."

Nicole acenou agradecida e ficou mais alguns minutos conversando antes de deixar o campus.

Seus dias na faculdade não foram muitos, mas as palavras do orientador trouxeram lembranças.

No primeiro ano, Ryan até comprou um apartamento perto do campus para poder cozinhar para ela.

Aquele tipo de cuidado parecia coisa de outra vida.

Agora, o mundo dele girava em torno de outra pessoa, alguém que ele queria amar e com quem construir um futuro. Nicole entendia que, no fundo, sua presença estava começando a pesar para ele.

Talvez se afastar fosse a melhor forma de demonstrar gratidão, um presente de despedida silencioso.

Ela tinha certeza de que Ryan estaria ocupado demais com Olivia para voltar para casa naquela noite.

Mas, ao entrar, o avistou no sofá, concentrado no notebook.

O som da porta o fez olhar. "Já voltou da aula?"

Nicole não esperava vê-lo. A empregada devia tê-lo mantido informado.

"Sim", respondeu, guardando as coisas no armário em silêncio. Depois de uma breve pausa, perguntou: "Como está a Olivia? Ela está bem?"

Ouvir o nome de Olivia fez Ryan franzir a testa, e a irritação transpareceu no rosto dele.

Nicole percebeu que ele estava prestes a repreendê-la por ter machucado Olivia de novo, então baixou a cabeça e calou-se.

Para sua surpresa, Ryan mudou de assunto. "Saí com tanta pressa mais cedo. A empregada me contou que você bateu forte na mesa. Foi feio?"

A mão de Nicole fechou-se ao lado do corpo, depois se soltou devagar. Ela fitou o chão e respondeu baixinho: "Não foi nada. Estou bem."

Ryan não acreditou nem por um segundo. Lembrou-se de que a empregada mencionara Nicole chorando, coisa que raramente acontecia. Ela sempre foi forte, então a dor devia estar insuportável.

Fechou o notebook, pousou-o na mesa e aproximou-se. "Deixa eu ver o machucado..."

Quando ele estendeu a mão, Nicole afastou-se instintivamente.

A mão de Ryan ficou pairando no ar, o gesto interrompido. A surpresa brilhou nos olhos dele com o recuo dela.

"Nicole?" A voz dele estava mais suave, conflituosa. "Sei que só pensei na Olivia naquela hora e não percebi o que você estava passando. Me desculpa, tá bom?"

Uma dor surda se instalou no peito de Nicole. Toda a preocupação dele era com a Olivia — ele nem a tinha visto.

De cabeça baixa, escondendo o rosto, Nicole respondeu num tom neutro: "Foi só um hematoma. Nada comparado ao que a Olivia sofreu. Você devia ficar com ela."

"Tem certeza que está bem?"

"Estou."

Ryan observou-a por um longo momento antes de relaxar, convencido de que ela falava sério. Conhecendo o temperamento dela, imaginou que ela teria feito um escândalo se fosse algo grave.

Ia continuar a conversa quando o celular tocou. Atendeu, e a voz dele se suavizou na hora. "Olivia? O que foi? Se machucou?", perguntou, já pegando o casaco sem hesitar. "Já estou indo."

Correu até a porta, mas parou e olhou para trás, para Nicole. "Se acontecer qualquer coisa, me avisa. Se cuida, e tenta não sair sem necessidade."

Nicole ficou em silêncio, observando enquanto ele saía apressado, ligava o carro e desaparecia na rua.

O silêncio se estendeu ao seu redor, e a cintura começou a latejar de novo.

De repente, o celular vibrou dentro da bolsa. A tela se iluminou com o nome de Kyson, e um nó se formou na garganta dela.

Atendeu, a voz marcada pela vulnerabilidade. "Kyson, me machuquei."

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