Tarde Demais, Miguel: Meu Filho, Minha Escolha

A porta bateu, e eu fiquei sozinha com a minha sogra e o cheiro a comida fria.

A dor nas minhas costas transformou-se numa cãibra forte que se espalhou pela minha barriga. Prendi a respiração.

"Vês? Estás bem," disse Sónia, começando a levantar a mesa. "É só o bebé a mexer-se."

Tentei levantar-me, mas a dor fez-me sentar de novo com um gemido.

"Acho que não é só o bebé," disse eu, com a voz trémula. "Isto é diferente."

Ela suspirou, irritada. "Não sejas tão queixinhas, Clara. Eu tive três filhos, sei do que falo."

Peguei no meu telemóvel com as mãos a tremer e marquei o número do Miguel.

Caixa de correio de voz.

"Miguel, sou eu. A dor está muito forte. Por favor, volta para casa."

Tentei outra vez.

Caixa de correio de voz.

E outra. E outra.

Ele não atendeu. Provavelmente tinha silenciado o telemóvel para dar toda a sua atenção à "emergência" da Sofia.

Uma nova contração atingiu-me, mais forte do que a anterior. Dobrei-me sobre a mesa, a respiração ofegante.

Sónia olhou para mim, e pela primeira vez, vi um vislumbre de preocupação no seu rosto.

"Talvez devesses ligar para a tua mãe," sugeriu ela, mas não se moveu para me ajudar.

A minha mãe vivia a uma hora de distância. Ela não chegaria a tempo.

Senti uma humidade quente entre as pernas. Olhei para baixo. Uma pequena poça estava a formar-se no chão de madeira.

As minhas águas tinham rebentado.

"Oh meu Deus," sussurrei.

O pânico finalmente apoderou-se de mim. O bebé estava a chegar, com um mês de antecedência, e o meu marido estava a consertar uma fechadura.

Sónia ficou pálida. "Eu... eu vou chamar uma ambulância."

Ela pegou no telefone, os seus dedos gordos a atrapalharem-se nos botões.

Eu marquei o número de Miguel mais uma vez, uma última tentativa desesperada.

Desta vez, ele atendeu.

"Clara, o que foi? Estou ocupado!" A voz dele era áspera, irritada. Ao fundo, ouvi a risada da Sofia.

"Miguel," consegui dizer entre as dores. "As minhas águas rebentaram. Eu estou a entrar em trabalho de parto."

Houve um silêncio do outro lado da linha. Um silêncio que durou uma eternidade.

"Não pode ser," disse ele finalmente, a sua voz desprovida de qualquer emoção. "O médico disse que ainda faltava um mês."

"Eu sei o que sinto!" gritei. "Preciso de ti! Vem para casa!"

"Ok, ok, calma," disse ele. "A ambulância já está a caminho?"

"A Sónia está a ligar agora," ofeguei, enquanto outra contração me percorria o corpo.

"Certo. Ouve, eu não posso sair daqui já. O serralheiro ainda não chegou, e a Sofia está em pânico. Encontramo-nos no hospital, está bem?"

E antes que eu pudesse responder, antes que eu pudesse gritar ou chorar, ele desligou.

O telemóvel caiu da minha mão. O som do plástico a bater no chão ecoou na sala silenciosa.

Ele não vinha.

Ele escolheu ficar com ela.

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