Dora POV:
O almoço foi uma tortura. Heitor, meu suposto amante, mal reconheceu minha presença. Toda a sua atenção estava fixada em Arlete. Ele encheu o copo de água dela antes que estivesse pela metade, cortou seu bife em pedaços pequenos e se inclinou atentamente toda vez que ela falava, seu olhar nunca deixando o rosto dela. Ele se agarrava a cada palavra dela. Era uma devoção tão absoluta, tão profunda, que fez meu estômago revirar com uma mistura amarga de ciúme e devastação total.
"Heitor, querido", Arlete cantou, estendendo a mão sobre a mesa para dar um tapinha gentil na mão dele. Seu toque demorou, abertamente afetuoso. "Você está me mimando."
Querido. A palavra, íntima e possessiva, me cortou. Lembrei-me de como uma vez tentei chamá-lo de "meu querido" em um momento de vulnerabilidade terna. Ele se afastou gentilmente, quase imperceptivelmente, sua expressão indecifrável. "Apenas Heitor, passarinho", ele disse, uma leve carranca vincando sua testa. "Combina mais comigo." A memória daquela pequena rejeição agora parecia uma ferida aberta.
Arlete então começou a recontar nostalgicamente a infância de Heitor, uma série de anedotas sobre suas travessuras e palhaçadas adoráveis quando menino. "Ah, Heitor, lembra daquela vez que você tentou fazer um bolo para a mamãe e colocou sal em vez de açúcar? Você era um terrorzinho!" Ela riu, um som tilintante que encheu o restaurante elegante.
Heitor riu calorosamente, seus olhos se enrugando nos cantos. Ele ouvia, totalmente cativado, um sorriso suave e afetuoso no rosto, como se estivesse revivendo as memórias queridas. Esse era o sorriso que eu sempre desejei, o calor genuíno que estava tão conspicuamente ausente quando ele olhava para mim. Ele estava completamente à vontade com ela, completamente ele mesmo.
Meu coração doeu, uma dor física e aguda. Ele nunca havia falado de sua infância comigo. Nunca. Cada pergunta que eu fazia, gentil e hesitante, era recebida com um encolher de ombros vago ou uma rápida mudança de assunto. Ele não queria passado comigo, porque em sua mente, eu não tinha futuro com ele.
De repente, Arlete ofegou, sua mão voando para o dedo. "Oh, que desajeitada!" ela exclamou, uma pequena gota de vermelho florescendo em sua unha perfeitamente manicure. Ela havia se cortado na borda do garfo.
Antes que alguém pudesse reagir, Heitor estava de pé, correndo para o lado dela. Ele pegou a mão dela, examinou o corte minúsculo, seu rosto contorcido de alarme genuíno. Então, com uma ternura que me tirou o fôlego, ele levou o dedo dela aos lábios, beijando suavemente a pequena ferida. "Dói, meu amor?" ele murmurou, sua voz cheia de uma preocupação tão profunda, uma devoção tão crua, que doía fisicamente testemunhar.
Minha mente girou. Ele nunca me mostrou tal afeto desenfreado, tal pânico desprotegido. Nem mesmo quando eu acidentalmente me cortei feio na cozinha, cortando meu dedo até o osso. Ele apenas me entregou um curativo e me disse para ser mais cuidadosa.
Então, para meu horror, eu vi. Um aperto sutil, mas inegável, nas calças de Heitor. Seu corpo estava reagindo a Arlete, não apenas com preocupação, mas com desejo cru e primitivo. O sangue sumiu do meu rosto. Eu era apenas uma receita. Arlete, sua 'deusa', era a coisa real. A verdade, naquele momento, foi uma humilhação tão profunda que ameaçou me consumir. Mordi o lábio até sentir o gosto de sangue, tentando manter a compostura, para parar o tremor em minhas mãos.
Depois que Heitor se preocupou adequadamente com o pequeno corte de Arlete, ele a presenteou com uma pequena caixa de veludo. "Feliz aniversário adiantado, querida", disse ele, seus olhos brilhando de adoração. Dentro havia um colar de diamantes, brilhando sob as luzes do restaurante. Era de uma beleza estonteante e inegavelmente caro.
Arlete ofegou de prazer, seus olhos brilhando. "Oh, Heitor, você não devia! É requintado!" Ela se inclinou e beijou sua bochecha, um gesto demorado e íntimo. "Você sempre sabe do que eu gosto."
Heitor a observava, seu olhar inabalável, cheio de um amor tão potente que era quase tangível. Era um olhar que eu sempre desejei, mas nunca recebi.
Enquanto Arlete prendia o colar em seu pescoço esguio, seus olhos pousaram no meu pulso. "Oh, Dora", disse ela, sua voz pingando uma bondade cuidadosa. "Que lindo medalhão você tem. É uma antiguidade?"
Minha mão instintivamente foi para o medalhão de prata no meu pulso. Era uma herança de família, passada por gerações de mulheres da minha família. O único elo tangível com meu passado, a única coisa com que acordei neste mundo moderno. Era simples, sem adornos, mas infinitamente precioso para mim. "Sim", respondi, minha voz mal um sussurro. "Pertenceu à minha mãe."
Heitor, que estava se aquecendo no brilho de Arlete, virou-se para mim, sua expressão subitamente severa. "É muito bonito, não é?" ele disse a Arlete, ignorando minha explicação. "Dora, por que você não deixa a Arlete experimentar? Tenho certeza de que ficaria ainda mais deslumbrante nela."
Meu coração despencou no estômago. Dar o medalhão da minha mãe para Arlete? O símbolo da minha família perdida, a única peça da minha verdadeira identidade? "Eu... eu não posso, Heitor", gaguejei, minha voz mal audível. "É muito antigo e muito especial para mim. É... uma herança de família."
A mandíbula de Heitor se contraiu. Seus olhos, geralmente tão charmosos, tornaram-se frios e duros. "Não seja boba, Dora. É apenas uma bugiganga. Arlete admira. Seria rude recusar." Ele estendeu a mão para o meu pulso, seus dedos se fechando ao redor do medalhão. "Vamos, seja uma boa menina."
Puxei minha mão, meu coração martelando. "Não, Heitor. Por favor. É realmente importante para mim." Minha voz era firme, uma lasca de desafio cortando meu medo.
Seu rosto escureceu instantaneamente. "Dora", ele rosnou, sua voz baixa e perigosa. "Não faça uma cena. Arlete quer. Dê a ela."
Arlete, sempre a diplomata, colocou uma mão gentil no braço de Heitor. "Oh, Heitor, não fique bravo com ela. Está tudo bem. Eu não sonharia em tirar algo tão sentimental da Dora. Talvez ela possa me emprestar por um tempinho, só para admirá-lo direito?" Suas palavras eram melosas, mas seus olhos, quando encontraram os meus, continham um brilho agudo e triunfante. Ela sabia exatamente o que estava fazendo.
Heitor, ainda furioso, assentiu secamente. "Viu, Dora? Arlete está sendo graciosa. Apenas por empréstimo." Ele me lançou um olhar que prometia repercussões severas se eu continuasse a resistir.
Engoli em seco, minha garganta apertada. O medalhão parecia pesado, queimando contra minha pele. O descarte casual de seu valor, a exigência descarada de entregar meu único elo com meu passado, foi uma nova ferida. Eu soube então, com uma clareza arrepiante, que eu não significava nada para ele. Absolutamente nada.
O resto da refeição foi um borrão. Sentei-me em silêncio entorpecido, a cordialidade forçada ao meu redor uma zombaria insuportável. Meu apetite se foi. Meu amor por Heitor, antes um fogo crepitante, havia diminuído para algumas brasas moribundas, agora completamente extintas.
Quando estávamos saindo do restaurante, uma chuva torrencial repentina começou. Gotas de chuva gordas martelavam o pavimento, transformando rapidamente a rua em uma bagunça caótica. Heitor correu para abrir a porta para Arlete, protegendo-a com seu guarda-chuva caro. "Cuidado, querida", ele murmurou, sua voz cheia de preocupação.
Ele então se virou para mim, seu rosto ainda marcado pela raiva residual do incidente do medalhão. "Entre no carro, Dora", ele ordenou, sua voz afiada.
Movi-me para abrir a porta de trás, mas ele a bateu a um centímetro dos meus dedos. "Nunca mais me desafie", ele sibilou, seus olhos ardendo de fúria. Com um clique aterrorizante, ele trancou as portas por dentro.
"Heitor, espere!" Arlete gritou, sua voz com o que parecia ser preocupação genuína. "O que você está fazendo? Ela vai ficar encharcada!"
Heitor se virou para ela, um sorriso arrepiante no rosto. "Ela precisa de uma lição de obediência, Arlete. Às vezes, um pouco de desconforto ensina muito." Ele então entrou no banco do motorista.
Arlete me observou com um lampejo de algo indecifrável em seus olhos, uma mistura de pena e satisfação presunçosa. Ela deu um pequeno encolher de ombros impotente, depois se virou.
Heitor ligou o motor, um rugido que abafou a chuva forte. Ele me olhou pelo espelho retrovisor, seus olhos frios e implacáveis. Ele então acelerou, enviando uma onda de água suja da chuva espirrando sobre mim enquanto o carro desaparecia na tempestade.
Fiquei ali, encharcada, tremendo e totalmente sozinha, a chuva gelada imitando as lágrimas que escorriam pelo meu rosto. Minha mente voltou a uma memória, uma falsa promessa que ele me fizera uma vez. "Eu nunca vou te deixar no frio, passarinho", ele sussurrou, me abraçando forte. "Nunca."
A mentira ecoou no vazio da rua, um testemunho cruel de seu engano.





