Ponto de Vista de Aline Campos:
Eu não dormi. A noite se estendeu em uma eternidade de lágrimas silenciosas e uma dor oca no peito que parecia uma ferida física. Pouco antes do amanhecer, o esgotamento finalmente me venceu, me puxando para um vazio raso e sem sonhos.
O som de carros e conversas animadas do andar de baixo me arrancou dele.
Levantei-me da cama, meus membros pesados, e caminhei até o topo da grande escadaria curva. A cena lá embaixo congelou o sangue em minhas veias.
Emerson estava lá, perto da porta da frente, e Gisele estava em seus braços. Não em sua cadeira de rodas. Ele a estava segurando, no estilo noiva, enquanto ela ria e envolvia os braços em volta do pescoço dele. Era uma cena de uma intimidade tão deslumbrante que me senti uma intrusa em minha própria casa.
A cabeça de Gisele virou-se ligeiramente, e seus olhos escuros, tão parecidos com os meus, encontraram os meus. Um brilho de triunfo, frio e agudo, passou por eles antes de ser substituído por um olhar de inocência de olhos arregalados.
"Oh", disse ela, sua voz um sussurro suave e musical. "Aline. Não te vi aí." Ela apertou seu aperto em Emerson, um gesto deliberado e possessivo. "Emerson, querido, você não me disse que sua... esposa... estava em casa."
Emerson olhou para cima, e pela primeira vez, vi um lampejo de algo desconfortável em seus olhos — culpa, talvez, ou apenas o aborrecimento de ser pego. Desapareceu em um instante, substituído por seu sorriso charmoso de sempre.
"Aline, meu bem", disse ele, caminhando em direção ao pé da escada, Gisele ainda aninhada em seus braços. "Os médicos de Gisele acharam que seria melhor para a recuperação dela estar em um ambiente familiar e confortável. Espero que não se importe."
Ele não esperou por uma resposta. "Eu mandei... ajustar... algumas coisas para deixá-la mais confortável."
Ele estendeu a mão para a minha, mas eu a puxei para trás como se seu toque fosse fogo. Meu olhar varreu o hall de entrada, a sala de estar. Ajustar não era a palavra. Era um apagamento.
A pintura abstrata que eu escolhera para a entrada havia sumido, substituída por um retrato maciço e dourado de Gisele em seu auge. Os tapetes macios e de cor creme foram trocados por opulentos tapetes persas em vermelho carmesim, a cor favorita de Gisele. Minha coleção de partituras de música clássica, geralmente empilhadas ordenadamente perto do piano, havia desaparecido.
Minha vida, meus gostos, minha própria presença nesta casa estavam sendo sistematicamente desmantelados. Dois anos da minha existência, apagados da noite para o dia.
Era como se eu nunca tivesse estado aqui. Gisele estava sendo instalada, não como uma convidada, mas como a rainha legítima retornando ao seu trono.
Nesse momento, dois carregadores passaram apressados, carregando a enorme fotografia de casamento que ficava no salão principal. Era uma foto de Emerson e eu em um penhasco ensolarado em Fernando de Noronha, seus braços envolvendo-me, minha cabeça jogada para trás em uma gargalhada. Era minha foto favorita, aquela que eu olhava todas as manhãs para me lembrar de como eu era sortuda.
Quando um dos carregadores tentou passar pela porta, ele tropeçou. A moldura maciça escorregou de suas mãos e se espatifou no chão de mármore com um som doentio de vidro quebrando.
Eu não vacilei. Apenas encarei os destroços. Um grande caco de vidro havia cortado diretamente meu rosto sorridente na fotografia, um rasgo irregular e violento.
O olhar de Emerson seguiu o meu, e vi sua mandíbula se contrair. Ele se lembrava do quanto eu amava aquela foto. Ele se lembrava de mim chorando de alegria quando ele me surpreendeu com ela.
"Gisele odeia ver outras mulheres na minha vida, Emerson", ela murmurou de seus braços, sua voz tingida de uma doçura enjoativa. "Isso a perturba."
Isso foi tudo o que foi preciso. "Levem isso daqui", disse Emerson aos carregadores, sua voz seca. "Descartem."
Eu não senti nada. Uma calma estranha e fria se instalou sobre mim. O que era uma foto quebrada quando o casamento que ela representava já estava em pedaços?
Emerson pareceu confundir meu silêncio com tristeza. "Não se preocupe, meu amor", disse ele, sua voz suavizando para aquele tom praticado e paternalista. "Podemos tirar uma nova. Uma melhor."
A mentira está quebrada, pensei, minha voz um grito silencioso em minha cabeça. O que importa a moldura?
Ele entendeu mal novamente, pensando que meu silêncio era aquiescência. Ele gentilmente colocou Gisele em sua cadeira de rodas antes de se virar para subir as escadas, presumivelmente para encontrar uma foto substituta.
No momento em que ele sumiu de vista, a fachada doce de Gisele caiu. Seus olhos escureceram com um brilho familiar e predatório. Ela se dirigiu em sua cadeira de rodas até uma grande vitrine de vidro perto da lareira. Era onde eu guardava minhas coisas mais preciosas.
"O que é todo esse lixo?", perguntou ela, sua voz escorrendo desdém.
Antes que eu pudesse responder, sua mão disparou e ela pegou um pequeno pássaro de porcelana pintado à mão da prateleira de cima.
Minha respiração ficou presa na garganta. "Gisele, não", eu disse, minha voz aguda, desesperada. "Por favor, coloque isso de volta."
Ela examinou o pássaro, um sorriso cruel brincando em seus lábios. "Isso é importante para você?"
"Gisele, estou te avisando."
"Ops", disse ela com um encolher de ombros teatral, e deixou o pássaro escorregar de seus dedos.
Ele atingiu o chão de mármore e explodiu em cem pequenos pedaços.
Um grito rasgou minha garganta. Não era apenas um pássaro. Foi a última coisa que minha mãe e eu pintamos juntas no hospital, poucos dias antes do câncer levá-la. Era o único pedaço tangível dela que me restava.
Caí de joelhos, minhas mãos tremendo enquanto tentava juntar os fragmentos afiados e impossivelmente pequenos. Um pedaço de porcelana cortou minha palma, e uma gota de sangue brotou, vermelho vivo contra a poeira branca.
Gisele avançou com sua cadeira de rodas, o pneu de borracha moendo o maior pedaço restante da asa do pássaro até virar pó.
"Sabe", disse ela, sua voz um silvo baixo e venenoso, "minha mãe sempre disse que sua mãe era uma mulher patética e fraca. Chorando o tempo todo. Assim como você." Ela se inclinou para mais perto, seus olhos brilhando com malícia. "Se você não tomar cuidado, Aline, vai acabar como ela. Sozinha e esquecida."
Algo dentro de mim se partiu. A dor, a traição, os anos de raiva reprimida explodiram em uma única e violenta onda. Eu me lancei para frente e empurrei sua cadeira de rodas com toda a minha força.
Ela tombou, mandando-a para o chão com um grito de choque.
Emerson desceu correndo as escadas ao som da queda. Ele nem olhou para mim. Correu para Gisele, pegando-a nos braços, seu rosto uma máscara de preocupação frenética.
"Aline, que diabos há de errado com você?", ele rosnou, seus olhos finalmente encontrando os meus, ardendo de raiva. Então ele viu meu rosto manchado de lágrimas, o sangue na minha mão, a poeira de porcelana no chão. Ele hesitou, sua raiva vacilando por uma fração de segundo.
Gisele, sempre a atriz, enterrou o rosto no peito dele. "A culpa é minha, Emerson", ela soluçou. "Eu quebrei uma das bugigangas dela por acidente. Eu disse que compraria uma nova para ela, mas ela simplesmente... ela simplesmente explodiu." Ela levantou a cabeça, seus olhos arregalados e suplicantes. "Talvez... talvez eu devesse ir embora. Não quero causar problemas." Ela virou seu olhar choroso para mim. "Sinto muito, Aline. De verdade."
Eu apenas encarei Emerson, meu coração um peso de chumbo no peito. Eu esperei. Esperei que ele visse através da atuação, que se lembrasse da mulher que ele dizia amar.
Ele olhou da forma trêmula dela para a minha, silenciosa e sangrando. Ele suspirou, um som de pura exasperação.
"Era só uma estatueta barata, Aline", disse ele, sua voz desdenhosa. "Eu te compro uma dúzia de outras. Gisele acabou de acordar de um coma, ela está frágil. Você não pode ter um pouco de compaixão?"
Eu o encarei, o homem que havia prometido queimar por mim, agora me dizendo para ser compassiva com a mulher que acabara de estilhaçar a última lembrança da minha mãe. O absurdo daquilo era tão imenso, tão esmagador, que quase ri de novo.
Ele queria que eu abrisse espaço para ela. Ele queria que eu entendesse.
E naquele momento, eu finalmente entendi. Entendi perfeitamente.
"Não", eu disse, minha voz rouca e oca. "Você não pode me comprar uma nova."
Algumas coisas, uma vez quebradas, nunca podem ser substituídas.





