A festa do escritório de advocacia de Sofia era um evento anual obrigatório, um mar de ternos caros, vestidos de grife e sorrisos falsos. Ricardo estava lá, como sempre, um passo atrás dela, segurando sua bolsa enquanto ela era o centro das atenções. Ele ouvia fragmentos de conversas ao seu redor, a maioria sobre sua esposa.
"Ela conseguiu a absolvição no caso de corrupção, você viu? Impossível!" disse um advogado mais jovem, com admiração.
"Dizem que ela não perde um caso há cinco anos", comentou uma mulher. "Mas a vida pessoal dela é um mistério. Aquele ali é o marido dela?"
"Sim. Um dono de casa, ouvi dizer. Que desperdício para um homem", respondeu outro, com desdém.
Ricardo permaneceu impassível. Ele estava acostumado com os sussurros, com os olhares de pena ou desprezo. Eles não sabiam quem ele era, e isso, por muito tempo, foi sua escolha.
Então, ele ouviu um nome que o fez parar.
"Gustavo Lima está na cidade! O músico! Ouvi dizer que ele e a Sofia tiveram um caso sério na faculdade", disse uma assistente jurídica, fofocando com uma colega. "Ele era o grande amor da vida dela. Dizem que ela nunca o superou."
Gustavo Lima. Ricardo sentiu algo se apertar dentro dele. Ele conhecia a história. Sofia nunca a escondeu completamente. Era a história de um primeiro amor idealizado, um músico talentoso que a deixou para seguir uma carreira internacional e se tornou famoso. Para Sofia, Gustavo era a personificação do que poderia ter sido, uma obsessão romântica que ela guardava em um canto do coração.
No meio da festa, a porta do salão se abriu e um tumulto começou. Fotógrafos, jornalistas. E no centro de tudo, ele: Gustavo Lima, com seu sorriso de celebridade e ar de quem era dono do mundo.
Os olhos de Sofia se arregalaram. Ela ficou paralisada por um instante, e Ricardo viu em seu rosto uma vulnerabilidade que raramente aparecia. Um brilho de uma antiga paixão.
O evento se transformou em caos. Gustavo foi cercado, mas seus olhos procuravam por uma única pessoa. Ele encontrou Sofia. O mundo ao redor deles pareceu desaparecer.
Mais tarde naquela noite, a festa acabou, mas o estrago já estava feito. Sofia bebeu mais do que o habitual. Ricardo a levou para casa, ajudando-a a andar enquanto ela tropeçava nos próprios saltos.
No apartamento, a atmosfera estava pesada. Sofia estava visivelmente abalada, uma mistura de euforia e melancolia. Ela se jogou no sofá, a maquiagem um pouco borrada, o cabelo perfeitamente arrumado agora em desordem.
"Ele voltou, Ricardo", ela disse, a voz embargada. "Depois de todos esses anos, ele voltou."
Ricardo não disse nada. Apenas a observou.
Sofia se levantou, cambaleando um pouco, e se aproximou dele. Ela o encarou, seus olhos procurando algo. Ela se inclinou e o abraçou, um gesto raro e surpreendente. Ricardo sentiu o cheiro familiar do perfume dela, uma mistura de laranja e algo que era só dela, agora misturado com o cheiro de vinho caro. Por um instante, ele sentiu uma fagulha de esperança. Talvez ela o estivesse vendo, finalmente.
Ele a segurou, sentindo o peso do corpo dela contra o seu. Era um abraço desesperado, o abraço de alguém que se sentia perdido.
Mas então, ela sussurrou, a voz abafada contra o peito dele.
"Gustavo..."
O nome saiu como um suspiro, um chamado do fundo da alma dela. E para Ricardo, foi como um balde de água gelada. Ele não era ele. Ele era apenas um substituto, um corpo quente para ela se agarrar enquanto sonhava com outro homem.
Toda a esperança, toda a paciência que ele cultivou por três anos, se desfez naquele momento. A dor foi aguda, precisa. Ele a afastou gentilmente, o rosto uma máscara de calma fria que escondia a tempestade por dentro.
"Sofia", ele disse, a voz firme. "Precisamos conversar."
Ela piscou, confusa pela súbita mudança de atitude dele.
Ele caminhou até sua escrivaninha, abriu uma gaveta e tirou um envelope. Ele o colocou na mesa de centro na frente dela. Dentro, estavam os papéis do divórcio, que ele havia preparado com Carlos há algumas semanas.
"O que é isso?", ela perguntou, a embriaguez começando a dar lugar à confusão.
"É o nosso divórcio", ele respondeu, sem rodeios. "Eu quero o divórcio."
Sofia o encarou, chocada. "Divórcio? Por quê? Você está brincando?"
Ele não respondeu à pergunta dela. Em vez disso, tirou os papéis do envelope e uma caneta. "Assine, por favor."
O coração de Ricardo doía. Doía terrivelmente. Ele fechou os olhos por um segundo, a imagem do sorriso dela quando se conheceram piscando em sua mente. Mas a realidade era o nome "Gustavo" ecoando em seus ouvidos.
Sofia pegou a caneta, ainda atordoada. "Não... não, Ricardo. Não faça isso. Não me deixe agora."
Suas palavras de súplica eram vazias para ele. "Agora"? Agora que o fantasma do passado dela havia retornado?
"Assine, Sofia", ele repetiu, a voz sem emoção.
Em seu estado de embriaguez e confusão, ela olhou para o papel, para a linha pontilhada. Talvez pensasse que era um pesadelo, ou uma piada de mau gosto. Ela pegou a caneta e, com a mão trêmula, rabiscou sua assinatura.
"Pronto", ela disse, jogando a caneta na mesa. "Feliz? Mas não vá. Fique. Por favor."
Ele pegou o papel assinado. Era real. Estava feito. Ele se virou para sair do cômodo.
"Ricardo!" ela chamou.
Ele parou na porta, sem olhar para trás.
"Onde nós nos conhecemos?", ela perguntou, a voz subitamente pequena e perdida.
A pergunta o pegou de surpresa. Ele se lembrou perfeitamente. Foi em um bar, três anos atrás. Ela estava comemorando uma vitória no tribunal, cercada de colegas, mas parecia incrivelmente sozinha. Ele, escondido em um canto, fugindo de seu próprio sucesso, de sua própria vida. Os olhares deles se cruzaram. Ela, a famosa Sofia Marques. Ele, um ninguém.
Ela estava bêbada naquela noite também. Seus amigos a deixaram. Ele a ajudou a pegar um táxi. Ela segurou o pulso dele com força, a voz rouca. "Não me deixe sozinha."
Ele não a deixou. Ele a levou para casa, a colocou na cama e dormiu no sofá. Na manhã seguinte, ela acordou, com uma ressaca terrível e uma vulnerabilidade que ele nunca mais viu. Ela o olhou e, em um impulso que ele nunca entendeu, ela disse: "Case-se comigo."
Ele, um homem que analisava todos os ângulos, que nunca agia por impulso, olhou para aquela mulher brilhante, poderosa e incrivelmente triste, e disse "sim".
Ele se virou para a Sofia do presente, sentada no sofá, confusa e magoada.
"Não importa mais, Sofia", ele disse, e saiu, fechando a porta do quarto atrás de si, deixando-a com o eco de suas próprias memórias.





