Sob os Olhos do Inimigo

Alícia não conseguia afastar a imagem dos olhos dele. Mesmo horas depois, enquanto digitava relatórios e respondia e-mails automáticos, sentia a mesma sensação gelada na nuca. Aquela descarga de memória involuntária, como um sonho que invade o dia - ou um pesadelo que se recusa a morrer.

Ela tentava se convencer de que estava imaginando. De que era apenas a semelhança entre os olhos de Adrian e os olhos que a perseguiram desde os quinze anos. Mas seu corpo não mentia. A reação visceral, a paralisia súbita, o nó na garganta. Não era invenção.

Ao sair da sala de reuniões mais tarde, cruzou com Clara no corredor.

- Ei, você está bem? - perguntou a amiga, franzindo a testa.

- Estou. Só... um pouco tensa. Novo executivo. Nova rotina. Você sabe.

Clara sorriu de lado.

- Se o motivo do nervosismo for o novo executivo, eu te entendo. Ele é bonito de um jeito que irrita. Mas tem aquele ar de quem esconde alguma coisa, não acha?

Alícia não respondeu. Seu silêncio foi o bastante para Clara mudar de assunto.

- Vai passar na minha casa hoje? Fiz bolo de chocolate. Daquele que você gosta.

Ela hesitou por um segundo, mas assentiu.

- Preciso de um pouco de normalidade.

Naquela noite, sentada no sofá da amiga, com uma xícara de chá nas mãos e Lulu, o gato laranja de Clara, enroscado ao seu lado, Alícia tentou explicar.

- Eu acho que conheço ele de algum lugar, Clara.

- O Adrian? De onde?

- Eu... não sei. É só uma sensação estranha. Como se eu já o tivesse visto. Como se algo nele me lembrasse de... coisas que preferia esquecer.

Clara franziu o cenho, preocupada.

- Alícia, você está falando do que aconteceu com seu pai?

Ela assentiu, devagar.

- Eu me lembro dos olhos dele. Os olhos do homem que estava lá. E hoje, por um instante, quando Adrian me olhou... era como se fosse o mesmo olhar.

Clara não soube o que dizer.

Lulu se esticou, ronronando alto, como se tentasse aliviar a tensão que tomava conta do ar.

- Talvez... talvez seja só um trauma antigo confundindo você. Já faz tanto tempo...

- Eu pensei nisso também. Mas não é só isso. Foi como um gatilho. Uma lembrança vindo com força. Não posso ignorar.

Clara segurou sua mão.

- Então prometa que vai tomar cuidado. Que vai observar. Que vai manter a cabeça fria.

Alícia apertou os lábios, o olhar fixo em algum ponto distante da parede.

- Prometo.

Mas no fundo, ela já sabia que estava envolvida demais.

Mais tarde, deitada na própria cama, o sono demorou a chegar. As imagens voltavam em flashes: o escritório do pai, a discussão abafada, o som seco de um disparo. E os olhos. Sempre os olhos.

Quando finalmente adormeceu, sonhou com eles.

E acordou ofegante, como se estivesse sendo observada.

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