As memórias do passado se agarram a mim como sombras vingativas, insistentes em sua presença, impossíveis de exorcizar.
Elas não são apenas lembranças, são cicatrizes vivas, pulsando com uma dor que não se acalma, queima como brasas sob a pele e me arrasta, noite após noite, à beira de um abismo que parece não ter fim.
Minha tia, com seu coração bondoso e suas mãos sempre estendidas para mim, tentou tudo o que podia para me salvar dos pesadelos que me devoravam.
Ela buscou especialistas, cada um com suas promessas vazias de cura, de um alívio que parecia estar sempre ao meu alcance, mas que eu sabia, no fundo, ser impossível.
Em cada sessão, eu me escondia atrás de uma máscara impenetrável, fingindo uma força que nunca tive, esboçando sorrisos ensaiados enquanto, por dentro, uma tempestade feroz de dor e raiva ameaçava explodir.
O psicólogo nunca percebeu a real, o que rolava de verdade nos meus olhos. Ele nunca chegou perto da escuridão que tava lá dentro, enterrada sob camadas de mentiras que eu mesma criei pra me proteger.
Com o tempo, os gritos ensurdecedores na minha mente viraram um sussurro distante, quase como um eco. Minha tia, querida e ingênua, acreditou que eu tinha finalmente deixado o passado pra trás, que minha alma tinha encontrado paz. Pobre tia… Ela nunca soube que eu só tinha aprendido a disfarçar, a me fazer de forte.
Eu envolvi minha dor numa frieza brutal, tipo um escudo que afastava todo mundo e mantinha a curiosidade de quem me rodeava longe. No morro, eu andava como se fosse dona da porra toda, com um olhar que falava pros outros: "Cuidado, aqui não tem espaço pra fraqueza." Diziam que meu coração era uma pedra. Talvez fosse. Mas era o preço, o sacrifício silencioso, pra me manter viva.
Eu sabia que o caminho que escolhi era um jogo mortal, tipo uma roleta russa. Cada passo me aproximava mais do fundo do poço, mas a adrenalina queimava nas minhas veias como uma droga, e eu não podia parar.
Era o único caminho que me restava, o único que alimentava a chama da justiça dentro de mim. A vingança pela morte da minha família não era só desejo; era um fogo que não se apagava, uma chama que me consumia a cada respiração.
Eu tava disposta a tudo, até a sacrificar minha própria vida, pra fazer com que aqueles que acabaram com minha família pagassem. Não ia ter descanso, não ia ter misericórdia, ia ser na raça.
Hoje, porém, o dia é diferente. O Morro do Alemão me chama de volta, como uma amante insaciável que não se contenta com migalha.
É ali que a adrenalina corre de verdade, onde o perigo e a excitação se misturam, onde cada passo pode ser o último, mas também o mais intenso.
O telefone vibra na minha mão, e eu atendo com a calma de quem já viu o inferno de perto, escondendo o turbilhão de emoções que me consome.
— Oi, tia Isabella, tô indo pra casa da Bianca. Vou ficar uns quatro dias lá.
— Quatro dias? Mas por que tanto tempo, minha filha? Isso tá me matando. Não some assim, não agora, por favor.
A mentira sai com a facilidade de quem já se acostumou a dar aquele jeitinho na verdade. Suave como uma brisa, mas com um veneno ardente por baixo.
Dentro de mim, a real tá gritando, tipo um furacão prestes a virar tudo de cabeça pra baixo. Não tem mãe doente, não tem amiga precisando de ajuda. O que precisa de mim agora é o morro, meu território, meu império, que não pode ficar vulnerável.
— Tia, eu adoraria ficar com você, mas a mãe da Bianca está muito doente. Eu preciso estar lá pra ajudar. Fica tranquila, já tô quase me formando.
As palavras saem com tanta naturalidade que até eu me convenço, mas sei que a real missão me espera, e ela é bem mais sombria.
No morro, sou Doris, a rainha que comanda aquele labirinto de concreto, onde cada olhar é calculado, onde cada gesto pesa, e não tem como ignorar.
Lá, sou mais do que uma estudante qualquer na PUC. Lá, sou a mulher que ninguém mete a cara pra desafiar, mas que, no fundo, carrega uma dor que não vai sair de dentro de mim.
A única pessoa que sabia da minha real existência foi, levando consigo a única verdade que me protegia, deixando-me exposta em um mundo onde não posso vacilar.
Por trás da fachada de universitária, eu era uma estranha naquele mundinho de falsas perfeições e arrogâncias disfarçadas.
Nos corredores da PUC, cheios de egos inflados e sorrisos amarelos, eu me destacava entre os bolsistas, os que estavam na luta para conquistar um futuro que parecia sempre escapar.
Se ao menos eu tivesse me chegado mais na minha amiga, se tivesse mostrado minha verdadeira força, talvez tivesse mandado aqueles imbecis, que olhavam pra ela como se fosse nada, pra aquele lugar.
— Fica tranquila, tia. Vou te manter informada. Te amo, beijos.
Desligo o telefone com um sorriso que não chega nos olhos e sigo pra garagem, onde deixo pra trás a estudante e, num piscar de olhos, me transformo na mulher que ninguém consegue entender.
Troco a suavidade pela minha outra eu. A calça justa, a blusa de onça. Cada peça de roupa é uma declaração silenciosa de quem sou, do que sou capaz.
Em segundos, já tô em cima da minha moto, acelerando pelas ruas como se estivesse fugindo de alguma coisa, mas, na real, tô indo ao encontro de quem realmente sou.
O vento no meu rosto me dá uma sensação de liberdade visceral, algo que só a velocidade consegue proporcionar.
Motos são minha paixão secreta, meu refúgio. São cinco, cada uma mais bruta, mais potente que a outra, cada uma um pedaço da minha alma indomável.
Um pedaço de mim que minha tia nunca ia entender, que ninguém ia entender. Porque, no fundo, eu sabia que a verdadeira Doris não tinha vez naquele mundo. Ela pertencia ao asfalto, ao perigo, à adrenalina que corre nas minhas veias.





