Capítulo 9
O idiota do meu chefe
- Não vai me falar mais sobre você? Estou esperando. – Pergunta.
- Falar o que de mim Sean? Acredite, não tenho nada de importante
a dizer.
- Eu Duvido.
- Tudo bem, por onde eu começo a falar sobre a minha
"extraordinária" vida. – Debocho sorrindo. Não queria falar sobre o
orfanato para ele, mas então sobre o que falaria? Realmente não
tinha tanta coisa assim para dizer...
- Você pode começar a me dizer no que você trabalha lá na
empresa. Sei que é no 9º andar, mas o que a senhora faz?
- Ah, sou secretária no setor comercial de novos clientes. Trabalho
para o Senhor Maxon, na realidade eu posso até dizer que trabalho
por ele na maior parte do tempo. – Dei uma risadinha porque isso
realmente era engraçado, eu trabalhava por ele quase todos os
dias, na realidade até hoje o que eu mais fiz foi trabalhar no lugar
daquele cara. Ele mais dorme do que trabalha.
- Como assim? – Sean parecia mesmo interessado no que eu
estava dizendo e pode até parecer loucura, mas olhando em seus
olhos pude sentir que podia confiar nele.
- Bom, - suspiro - que fique aqui entre nós, mas, por exemplo, você
sabe daquela conta milionária que pegamos com a Goldman
Sachs?
- Sim, eu ouvi falar – pude sentir que ficou um pouco nervoso,
agitado no momento. Não entendi sua reação - o que tem ela?
- Pois então, quem fechou e assinou todos os papeis foi o Senhor
Maxon, mas eu que fiz todo o planejamento. Vi que os clientes que
compravam seus empreendimentos eram de alto escalão e que
precisavam de uma empresa como a nossa para cuidar tanto das
transações quanto trabalhar na melhoria da divulgação, e ver os
reais lucros que esse investimento pode ter. Fiquei cuidando desse
contrato durante meses, mas no final quem assinava o trabalho todo
era ele.
Sean ficou sério e em silêncio por alguns minutos pensando no que
eu havia dito. Fiquei tentando analisá-lo para tentar saber no que
estava pensando, mas não conseguia ver nada. Quando queria
Sean conseguia se tornar indecifrável, seu rosto era impassível.
Estávamos quase chegando então paramos mais uma vez em um
farol.
- Emma, isso é muito grave. Você deveria conversar com ele sobre
isso ou delatar esse caso. O que ele está fazendo com você é
extremamente errado, está te usando para obter lucros para si.
- E você acha que eu não sei? Mas ele é desse jeito mesmo, um
tremendo idiota, tem vezes que eu vou na sala dele e ele está
dormindo. Mas a coisa é mais complicada do que isso...
- Emma, responda-me sinceramente. O que você estava fazendo
até essa hora na empresa? Porque já está bem tarde e essa hora
ninguém mais deveria estar lá. – Sean agora me olhava sério e pelo
tom de sua voz pude sentir que ele não me pedia uma resposta.
Estava mandando mas de forma gentil, parecia realmente
preocupado ou somente curioso. Hesitei de início, mas acabei
cedendo,
- Eu estava fazendo uma pesquisa e criando a apresentação final de
lucros e estratégias para prospectar novos clientes, para a reunião
que Senhor Maxon fará amanhã.
- Emma, você ficou a noite toda fazendo a apresentação que ele
fará amanhã. Você não percebe o quão absurdo é isso? - ele
pergunta indignado.
- Se você acha isso absurdo espera eu te contar que ele nem me
paga por isso – comecei a rir, mas parei quando Sean parou o carro.
Havíamos chegado e eu nem percebi. Quando ele parou o carro
virou totalmente na minha direção exatamente igual como havia feito
quando começamos a nos beijar. No entanto, agora me olhava com
raiva, estava sério e parecia um pouco irritado.
- O que foi? - perguntei sem entender.
- Como assim? – disse cada palavra pausadamente.
Sua voz era tão séria e firme que nem consegui responder de
imediato. Ele não estava brincando. Seus olhos pareciam mais
escuros e frios, sua mão que estava no volante o segurava tão
firmemente que os gomos de seus dedos estavam esbranquiçados.
A outra estava novamente em minha coxa. Tive que me segurar
para não me derreter naquele instante, meu corpo todo se aqueceu
tão rapidamente que respirar normalmente, estava de novo, se
tornando meu maior desafio.
- Emma, responda-me. Agora.
- Você é bem mandão. - Tentei brincar para diminuir sua irritação,
todavia Sean estava impassível. Seu olhar ficou mais sério ainda e
suas sobrancelhas se união formando um "v" em sua testa.
- De qualquer forma você não entenderia, me desculpe, é mais
complicado do que você pensa.
- Experimente. - Sean disse me desafiando.
Respirei fundo. Mais uma vez. De novo só para garantir.
- O senhor Maxon não poderia me contratar, eu não sou apta ao
meu cargo – dei uma risada sarcástica – ou a qualquer cargo
daquela empresa, talvez para faxineira.
- Não acredito nisso.
O interrompi e continuei.
Se eu não falasse de uma vez talvez depois não fosse ter coragem
de fazê-lo.
- Eu não consegui terminar a faculdade. - Faço um movimento com
os ombros – Tranquei faltando alguns meses para me formar. Além
disso só fiz alguns cursos de secretariado e administração, nada
que me faça ser apta a trabalhar na Crawford. Ele já me conhecia
por uma amiga em comum, ficou sabendo que eu precisava de um
trabalho então confiou em mim. Por isso que faço tudo o que ele
pede, e fico feliz por fazê-lo, porque isso prova que mesmo sem
diploma eu consigo fazer um trabalho excelente como o que te falei,
que foi aceito pela presidência da empresa. - E estava dizendo a
verdade, me orgulhava muito disso.
Sean continuou em silêncio. Agora não olhava mais para mim e sim
para frente. Tirou a mão de minha coxa e voltou a sua posição de
motorista. Sofri em silêncio por isso e como ele não disse nada
continuei.
- Ele não paga minhas horas extras porque sabe que não vou
denunciá-lo ou algo assim. Preciso mesmo desse trabalho, não
posso perdê-lo Sean. Sei que se eu for ao RH a primeira coisa que
vão fazer é me demitir, além de que não posso provar minhas horas
extras, pois todo trabalho que faço é no computador pessoal dele, e
todas as planilhas, pesquisas e reuniões estão em seu nome, como
vou provar que fui eu que fiz tudo? Sou uma simples secretária
quem nem faculdade tem.
- Emma isso... isso é tão errado de tantas maneiras. Você não
pode...
- Sean o que eu não posso é perder o meu emprego - disse sendo
firme - Mas sabe de uma coisa? Eu até gosto de ficar na empresa
até tarde, faço isso desde sempre. Sério está tudo bem, só te disse
por que confio em você, não preciso que você faça nada e
principalmente não conte a ninguém! Preciso muito desse emprego.
Sean olhou para mim ainda com raiva e certa relutância em seus
olhos. Sei que não era direcionada a mim, mas a situação. Parecia
revoltado e derrotado ao mesmo tempo.
- Você promete? Promete não contar a ninguém? - perguntei.
Olhei diretamente em seus olhos, sei que era algo extremamente
difícil, porém era o que precisava fazer. Sean tinha que prometer
não dizer nem fazer nada, preciso demais daquele emprego. Mais
alguns meses e eu já posso me mudar do lar, ter meu próprio
cantinho. E para que isso seja possível eu aceitaria até engraxar os
sapatos do Senhor Maxon todo dia.
- Tudo bem, – disse a contragosto – não irei dizer nem farei nada.
Porém se esse tal de Maxon fizer algo mais absurdo que isso, não
me responsabilizo, Emma.
- Fechado? – perguntei.
Estendi a mão para um "high five" com soquinho, era assim que
fazia com Jason quando éramos pequenos. E aquele sorriso
esplêndido, que me fazia pensar em coisinhas e fazia minhas
pernas ficarem bambas, apareceu novamente. Sean mostrava certa
teimosia, mas quando sorri ele desistiu e bateu em minha mão.
- Fechado.
- Ótimo, sabia que podia confiar em você Sr. Riquinho que curte
comer lesma, - estendo o punho em sua direção - agora faltou dar
um soquinho, para fechar a promessa.
Seu sorriso se estendeu tanto que pude ver seus dentes. Seus
olhos agora estavam me encarando com carinho. Apertando minha
mão a levou até seus lábios e deu um beijo de leve no gomo dos
meus dedos.
- Sempre que precisar Senhorita Smith, - fechou o punho e deu o
"soquinho" - e não se sinta desvalorizada só porque não terminou a
faculdade, você é mais inteligente do que muitos engravatados
cheios de diplomas naquela empresa.
Capítulo 10
Eu, você e o dogburger
Senti borboletas no estômago. Ele não precisava me dizer, sentia
que podia confiar em Sean mesmo não sabendo o motivo. Sejamos
racionais, eu o conheci a menos de quatro horas isso é realmente
muito, muito estranho. Porém, quando eu olhava para ele parecia
ser algo normal. Natural, como se já o conhecesse.
- Chegamos, estamos no Bronx. Onde é que fica o tal do dogduder?
Estou ansioso para comer comida de verdade.
- Primeiro, é DogBURGER. - Ri de sua confusão - E segundo,
estamos bem perto. É só você continuar aqui nessa rua mesmo e
em frente virar na terceira à esquerda. É naquela rua ali com a
estátua engraçada da mulher nua.
- Ah sim, Afrodite.
- Bom, se você quer chamá-la assim, por mim tudo bem. – Respondi
sem entender.
- Não Emma – Sean gargalhava. Toda vez que fazia isso olhava
para mim como se eu não estivesse falando sério. Sua risada tinha
um som tão gostoso de se ouvir, era firme e contagiante. Ele
realmente ria de verdade, não era para me agradar nem nada. Além
de que quando ria ficava mais atraente, como se fosse possível.
Seus dentes brancos apareciam e sua boca que fora lapidada por
deuses se abria gloriosamente. Ele era um sonho, só podia ser –
aquela estatua engraçada é Afrodite, uma deusa da mitologia grega.
- Acho que sei qual é. Aquela do amor, não é?
- Exatamente. Acho que chegamos.
Paramos em frente ao Dog&Burger's. É um foodtruck simples, todo
laranja e decorado com umas lâmpadas pisca-pisca de natal. Sean
parou o carro ao lado do furgão, saímos e logo fomos pedir.
- Hey Tuck! – eu digo ao homem alto dentro do furgão, que estava
picando alguns alimentos na bancada do fogão. Tuck tem uns 32
anos, é alto, magro, tem os cabelos da mesma cor que os meus,
marrom cor de terra, e olhos castanho escuros.
- Oi m&m's! Qual o pedido de hoje? Deixa eu
adivinhar...- Tuck disse, fazendo piada.
- O de sempre, é claro! – ri.
- Pode deixar comigo. Quem é o seu amigo? – disse levantando a
cabeça na direção de Sean.
- Esse é o Sean, ele trabalha lá na Cruelford também.
- Cruelford? – Sean me olhou não entendendo a referência. Fiz um
sinal com a cabeça dizendo "te explicou depois" e virei para Tuck
novamente.
- Faz dois DogBurgers do jeito da M&M's ok. Completos!
Tuck sorriu e disse - É pra já! Querem algo para beber?
- Não quero nada, e você Sean?
- Uma cerveja, por favor.
Sentamos em uma das mesas ao lado do furgão, nela haviam
algumas flores pequenas, pareciam margaridas. Sean puxou a
cadeira para mim, o que eu achei bem estranho. Que homem faz
isso atualmente? Mas me lembrei que Sean devia ser um Anjo
divino que deveria estar perdido na terra, ou algo assim. Era beleza
e simpatia demais para ser real.
- Cruelford? – perguntou quando finalmente nos sentamos.
- Pois é, mas não me dê todo crédito. Jason que inventou depois de
ter recebido um esporro do Senhor Maxon e dos seguranças de lá
na última vez que tentou me visitar. Ele seduziu umas das
recepcionistas e subiu escondido para me ver, coisas de Jason. –
não consigo evitar rolar os olhos – Porque pedir para que eu
descesse para vê-lo seria normal demais para ele.
- Claro que seria – Sean sorriu sem mostrar os dentes – Você mora
por aqui?
- Sim, dá para ir a pé. Meu apê fica perto daquele prédio ali na
esquina, o verde.
- Estou vendo, fica bem próximo mesmo. Você mora com seus pais
e com seu irmão?
- Moro só com Jason, meu irmão de criação. – E mais umas 200
pessoas, mas isso era só um pequeno detalhe não é mesmo?
- E seus familiares estão no Texas?
- Não tenho família, só Jason mesmo. Somos órfãos – não queria
parecer triste, porém foi inevitável. Não era pelo fato de não ter
família, já havia me acostumado com isso, mas porque chegaria um
momento em que teria que dizer a Sean quem eu realmente era.
Uma estúpida garota esperança.
- Sinto muito. – disse sendo sincero.
- Não, tudo bem. Eu cuido dele e ele... bem, vamos só dizer que ele
precisa de mais cuidados que eu. Jason pode ser um pouco
inconsequente às vezes – ou SEMPRE, TODA SANTA HORA – mas
o amo do mesmo jeito. E você? Tem irmãos?
- Tenho uma irmã, Kara. Ela mora em Londres... – Reparei que
quando começou a falar de sua irmã Sean pareceu triste por um
momento – Minha mãe mora em Hamptons, com o marido. – Agora
parecia com raiva, não pude identificar o porquê, mas parecia ter
algo a ver com marido de sua mãe – e eu em Manhattan.
- Nossa te trouxe para bem longe de casa então. Aposto que você
não vai se arrepender.
- É certo que não vou. – disse me encarando com aqueles olhos
negros como a noite e esbanjando um sorriso malicioso que fez com
que meu corpo todo se estremecesse.
Desse jeito não vou conseguir sobreviver. Quando chegar vou ter
que tomar um banho com pedras de gelo para ver se consigo
apagar um pouco desse fogo todo que sinto perto de Sean. Ótimo,
agora imaginei Sean nu. Se vestido já é desta forma, nu então...
Imagine ele todinho como veio ao mundo, molhado tomando banho,
cheio de sabão. Tocando meu corpo todo com suas mãos grandes.
Ele tem mãos bem grandes, realmente. Aqueles braços fortes me
apertando contra seu peitoral bem definido. Eu agarrando e
arranhando suas costas largas. Seu olhar negro e intenso sobre
mim. Seus cabelos ondulados, negros e molhados tocando meu
rosto. Aposto que Sean deve ter um grande e majestoso...
- Pronto! Dois DogBurger's estilo M&M's – disse Tuck deixando
nossos lanches em nossa mesa, me trazendo de volta para a
realidade – Aproveitem.
- Obrigada Tuck. – disse meio sem graça.
Ele fez um aceno com a cabeça e voltou para o furgão.
- Agora você pode me explicar o que estou prestes a comer, Emma?
Porque a aparência é ótima, mas tem tantas coisas...- disse
encarando o lanche confuso.
- Eu te disse que com Tuck não tem miséria. Tem de tudo um pouco.
Expliquei a Sean detalhadamente o que ele iria comer. Se fosse o
Jason nesta posição ele nem questionaria, aquele come até pedra.
Mas gostei de ter que explicar a Sean como era um simples
sanduíche. Ele me olhava com tanta atenção que pareceu até que
estava explicando qual era a cura do câncer. Sean realmente nunca
comeu um sanduíche decente. Essa era a mais estranha,
comovente e fofa situação em que eu já estive.
O lanche que iriamos comer é o mais vendido. Parece um
sanduíche normal, só que com tudo de gostoso possível. Muito de
tudo. No lugar do tradicional hambúrguer ia um salsichão. De
complemento vinha uma porção de batatas fritas e nuggets. Esse
sanduíche era uma explosão de enfarte cardíaco, diabetes e
colesterol. A morte em uma mordida. Pelo menos seria uma boa
forma de morrer, pois é delicioso.
- Nossa, pelo tamanho imaginei mesmo que teria muita coisa. É
gigantesco!
- Sim – eu disse – espere até você provar.
Fiquei observando Sean comer seu sanduíche. Ele pegou com tanto
cuidado que parecia que poderia quebrar. Levou o lanche até aboca,
mas hesitou. Antes de morder me olhou.
Seus olhos me perguntavam se estava fazendo certo, comecei a rir
e acenei com a cabeça o incentivando a continuar, então Sean deu
sua primeira mordida.





