Yuna Takayama
Dizem que o silêncio protege.
Mentira.
O silêncio apenas dá espaço para que o perigo respire. Para que ele se arraste, se aproxime, se esconda atrás de tradições e paredes centenárias, que observe você antes que você o veja.
Já faz dez anos.
Dez anos desde o fogo, desde os sinos soando como luto, desde a fumaça tomando o céu como uma ferida aberta no destino da minha família.
Dez anos desde que eu deixei de ser filha para ser oficialmente herdeira, símbolo, promessa. Agora estou prestes a completar dezenove anos.
Me tornei uma mulher, ou pelo menos é assim que o mundo me vê.
O templo estava calmo naquela manhã, calmo demais. O cheiro de incenso antigo se misturava ao ar frio e cortante, criando aquela sensação estranha de que o tempo ali não passava, apenas observava. As lanternas filtravam a luz como se fossem guardiãs daquilo que não deveria ser exposto por completo.
Eu me ajoelhei diante do altar, como fiz todas as manhãs desde que aprendi a andar.
- Pai... mãe... - minha voz saiu baixa, íntima, quase uma confissão. - Continuem me guiando.
A madeira polida do altar refletia a chama das velas e minha própria imagem e por um instante, eu não soube se estava rezando ou tentando lembrar quem eu era antes de tudo.
Quando abri os olhos, Akio estava ali.
Meu primo, meu quase irmão. A única pessoa deste templo que me olha como se eu ainda fosse humana e não uma peça estratégica em um tabuleiro invisível. Desde que meus pais foram mortos, meu tio e ele voltaram do ocidente para cuidar de mim.
Logo depois do ocorrido, era Akio quem segurava minha mão para que eu não chorasse
Aiko parecia uma imagem viva de disciplina. A postura ereta, quimono impecável, expressão controlada, mas seus ombros traziam um peso. Algo que de alguma forma, eu sentia que tinha a ver comigo.
- Está tudo bem? - perguntei, tentando manter a voz neutra.
Ele deveria sorrir, fazer uma piada, ou simplesmente responder que sim. Apesar de sua postura séria diante de todos do conselho, sempre quando estávamos sozinhos, ele era normal. Mas ele não disse nada e o seu olhar, aquele olhar que sempre foi certeza, estava dividido entre dever e preocupação.
Akio tocou meu rosto com cuidado. Como se eu fosse algo precioso demais, ou prestes a quebrar.
- Nada demais - respondeu. - Apenas... cansaço.
Cansaço não fazia veias saltarem no pescoço, nem sua mandíbula travar como uma porta sendo fechada por dentro. Cansaço não colocava tempestades no olhar.
Mas eu me permiti acreditar na mentira. Porque às vezes verdades ditas cedo demais destroem antes de proteger.
O templo continuou vivo no ritmo lento e constante que me criou.
Portas deslizando, os monges recitando sutras, o som distante do bambu tocando o vento.
Mas naquele dia... havia algo diferente. Como se o ar estivesse segurando a respiração.
Enquanto caminhava pelos corredores, vi uma porta entreaberta ao final do salão cerimonial. Uma brecha pequena, mas suficiente para a luz escapar e, com ela, a sensação de que alguma decisão estava sendo feita ali dentro.
Me aproximei com passos lentos, não porque eu tivesse medo, mas porque o próprio destino parecia pedir silêncio.
No interior da sala estavam três homens.
Meu tio sentado no centro, com a postura de quem carrega um país inteiro nas costas. À frente dele, o General Hayato, rígido como aço, com mãos firmes atrás do corpo e olhos que já viram coisas que o mundo prefere esquecer.
E Akio estava diante dos dois com o corpo tenso como uma lâmina prestes a se quebrar ou atacar.
Eu não ouvi o que diziam, a porta abafava as palavras, mas o silêncio entre eles era ainda mais revelador.
O general falava, meu tio escutava e Akio reagia.
Ele deu um passo à frente de repente, rápido, impulsivo. Sua expressão era furiosa e impotente. Foi quando meu tio levantou apenas uma mão e ele parou. Como se aquele gesto fosse uma autoridade maior do que qualquer argumento.
O general continuou falando algo, meu tio assentiu uma única vez como quem confirma um destino e foi então que percebi o quarto homem.
Eu não o vi entrar.
Não ouvi seu movimento.
Não senti sua presença até aquele instante.
Ele estava parado nas sombras, imóvel, impecável, invisível para qualquer um que não soubesse procurá-lo. Mas eu vi. E algo dentro de mim estremeceu.
E quando o olhar dele cruzou o de meu tio, percebi o ar ficar mais denso, pesado e frio. Meu tio falou alguma coisa, e aquele homem apenas assentiu, como quem aceita uma missão antiga, ou como quem esperava por isso há muito tempo. Akio desviou o olhar, não em discordância mas em resignação. E a decisão, fosse ela qual fosse, estava selada.
A porta foi fechada logo depois e o templo permaneceu tão silencioso quanto antes, mas o silencio carregava uma sombra. Uma que tinha forma, propósito e destino.
E de alguma maneira eu sentia que tinha algo a ver comigo.
Naquela noite, voltei ao altar.
Não por disciplina, mas porque algo dentro de mim tremia e buscava respostas.
- Pai... mãe... - sussurrei, com a respiração falhando. - O que está acontecendo?
O vento entrou pela janela frio, preciso, quase consciente. E naquele instante, eu soube que não estava sozinha. Que desde a morte dos meus pais, desde aquela promessa, nunca estive. Apenas não tinha percebido... até agora.
Algumas horas depois, quando voltei ao meu quarto, encontrei algo sobre minha cama.
Não havia selo, nem dobradura cerimonial.
Apenas um pedaço de papel colocado com precisão cirúrgica sob meu travesseiro.
Uma única linha.
"Durma. Nada pode alcançá-la enquanto eu vigio."
Meu coração acelerou, minha pele arrepiou.
Apaguei a luz, deitei na cama, fechei os olhos e adormeci sabendo que em algum lugar nas sombras... meu anjo estava ali. Me protegendo.





