Sem Raiva, Sem Pena: Vazio

Meu pai armou para que eu me casasse com Pedro Costa, o herdeiro da fazenda de café vizinha.

Eu tinha uma paixão platônica por ele desde a adolescência.

Meu pai, na sua tentativa de me proteger e garantir minha felicidade, encontrou uma maneira de nos unir.

Pedro foi encontrado em minha cama, uma armadilha que meu pai planejou nos mínimos detalhes.

Ele, um homem frio e calculista, aceitou se casar comigo no dia seguinte para evitar um escândalo que mancharia o nome de sua família.

O casamento foi uma formalidade fria, sem amor, sem calor.

Logo depois, Pedro começou a viajar.

Suas viagens para a Europa se tornaram frequentes, depois constantes, até que ele simplesmente ficou por lá.

Três anos se passaram.

Nesses três anos, eu vivi sozinha na imensa fazenda.

Dei à luz nossa filha, Clara, sozinha.

Cuidei dela, administrei os negócios da nossa fazenda, e esperei.

Todo dia eu esperava pelo retorno dele, acreditando que a presença de uma filha poderia amolecer seu coração.

Três anos depois, recebi a notícia.

O assistente dele, João, me ligou para avisar que Pedro estava voltando ao Brasil.

Naquele dia, eu tinha um compromisso de negócios inadiável, uma reunião que poderia definir o futuro da nossa safra de café.

Cancelei tudo.

Peguei Clara, que agora tinha quase três anos, e dirigi até o aeroporto.

Meu coração batia descontrolado.

A espera no portão de desembarque pareceu uma eternidade.

Clara, em meus braços, olhava para as fotos de Pedro no meu celular e apontava.

"Papai."

Quando ele finalmente apareceu, alto, bonito, vestindo um terno caro, meu fôlego sumiu.

Ele parecia ainda mais charmoso do que nas minhas memórias.

Clara se agitou no meu colo, esticando os bracinhos na direção dele.

"Papai! Papai!"

Eu me aproximei, com um sorriso nervoso nos lábios.

"Pedro, bem-vindo de volta."

Ele me olhou, um olhar que atravessou meu corpo como um vento gelado.

Seus olhos não demonstraram nenhuma emoção.

Nenhuma alegria. Nenhum reconhecimento.

Ele olhou para a pequena Clara, que ainda se contorcia para alcançá-lo, e deu um passo para trás.

Sua voz foi baixa, mas cortante.

"Desculpe, tenho aversão a germes."

Fiquei paralisada.

Aquelas palavras ecoaram no barulho do aeroporto, mas para mim, soaram como um grito em meio ao silêncio.

Clara parou de se mexer, seus bracinhos caíram.

Ela olhou para ele, depois para mim, com seus grandes olhos castanhos cheios de confusão.

A partir daquele dia, minha vida se transformou em uma tentativa desesperada de agradá-lo.

Clara e eu lavávamos as mãos mais de três vezes antes de cada refeição.

A fazenda estava impecável, brilhando de tão limpa.

Demiti uma das cozinheiras porque Pedro reclamou que sentiu cheiro de alho em suas roupas.

Mas ele nunca mais voltou para casa.

Ele se instalou em um apartamento de luxo na cidade e nunca mais pisou na fazenda.

Nunca abraçou Clara.

Nunca sequer tocou nela.

A esperança que eu alimentei por três anos começou a morrer, lentamente, dolorosamente.

Até que, em uma noite fria, eu vi o vídeo.

Um amigo me mandou o link, sem nenhum comentário. Era uma entrevista de uma revista de celebridades, gravada na Europa.

O repórter perguntou a ele, em meio a um evento sofisticado.

"Pedro, qual a coisa mais feliz que você fez recentemente?"

Pedro sorriu, um sorriso charmoso e despreocupado que eu não via há anos.

Ele respondeu, com a voz leve.

"Na semana passada, na Europa, coloquei a Ana para dormir e depois levei a Beatriz para a despensa."

A plateia riu, cúmplice.

Eu senti um frio percorrer minha espinha.

Beatriz era sua ex-namorada, uma socialite com quem ele ainda mantinha contato.

E Ana. Ana era a filha dela.

Os rumores que eu ignorei por três anos, os sussurros de que eles viviam juntos na Europa, eram verdadeiros.

Ele não tinha aversão a germes.

Ele tinha aversão a mim.

Ele não tinha medo de pegar uma criança no colo.

Ele só não queria pegar a nossa filha.

Naquela noite, a ilusão se quebrou em mil pedaços.

A dor foi tão intensa que me deixou sem ar.

Eu olhei para o quarto ao lado, onde Clara dormia abraçada a um ursinho de pelúcia.

A única coisa que importava no mundo.

Completamente desiludida, peguei uma folha de papel.

Comecei a escrever.

Os papéis do divórcio.

Eu iria embora. Para longe dele, para longe daquela fazenda que se tornou minha prisão.

Eu iria para a Europa com minha filha, e nós começaríamos de novo.

Sem ele.

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