Saga Colegial

CAP 02 – LIVRO 01 – NOTIFICAÇÃO

— Letra “T” com emoji de coração? — Digo, incrédula com a maneira em que ele salvou seu contato. — Não acredito.

Abro a mensagem e fico surpresa com uma foto de Téo.

Ignoro e coloco o celular onde estava, apenas para ouvir três notificações seguidas me irritar e me fazer pegar o aparelho depressa.

Desbloqueio o celular e olho as mensagens.

-[Salvei seu contato como “Honey”]

-[Porém, tem um duplo sentido.]

-[“Honey” poder ser “querida” em inglês, porém, também pode ser mel, tipo, Mel de Melissa.]

-[O que achou?]

Rio da criatividade. Não consigo acreditar no que leio e decido responder.

-[Por quê vocês, idiotas, sempre procuram coisas com duplo sentido?]

Ele responde, rápido.

-[É inteligente procurar ângulos diferentes da mesma coisa.]

-[Não acha, Mel?]

Continuo a responder.

-[Eu acho que depende de muitos fatores.]

-[E não me chame de Mel.]

-[Por quê está me mandando mensagens?]

Téo digita por alguns segundos e para.

Fico confusa com isso e reviro os olhos.

É estressante quando alguém faz isso.

Bloqueio o celular e ponho sobre a barriga enquanto olho para o teto.

Sinto o aparelho vibrar e pego, rápido.

-[Boa noite pingo. Vai dormir.]

-[Te amo.]

A mensagem de Klaus chega e eu respondo.

-[Boa noite, já estou deitada. E você, vai dormir também, nada de passar a noite bebendo.]

-[Também te amo.]

-[Beijos.]

Ele responde.

-[Hoje é segunda feira. Por quê eu beberia? KKK]

-[Beijos.]

Respondo.

-[Não sei o que passa na sua cabecinha maluca.]

Ele manda mais duas mensagens.

-[Doida. Kkk]

-[Vai dormir, tchau.]

Rio.

-[Já disse que estou deitada para dormir.]

-[Tchau]

Téo manda mais uma foto e abro para conferir, dando de cara com uma foto dele abraçando o travesseiro, e uma mensagem logo em seguida.

-[Meu companheiro.]

Se refere ao travesseiro.

Rio e ignoro a mensagem. Entro no aplicativo de contatos e corrijo, deixando apenas seu nome. Largo o celular na mesinha, como antes.

Me viro para a parede e depois de vários minutos encarando o nada, finalmente pego no sono.

...

Acordo, cedo, com o alarme e me levanto, indo direto até o banheiro para tomar um banho e escovar os dentes.

Visto o uniforme do colégio, pego minha mochila, a chave e o celular.

Corro até a cozinha e minha mãe já está pronta para o trabalho.

— Bom dia, mãe. — Lhe cumprimento com um beijo e vou até o armário pegar duas canecas.

— Bom dia, minha filha. — Ela responde. — Como foi ontem, lá no evento do colégio?

— Foi incrível. — Respondo, enquanto coloco o café nas canecas e ela coloca os ovos mexidos nos pães. — Eu te falei ontem, porém não sei se a senhora lembra. Eu vi a lua com um telescópio e é perfeita.

— Que incrível. — Se empolga. — Poderíamos ir lá depois.

— Claro que sim. — Concordo e nos sentamos a mesa. — A senhora vai se amarrar no planetário.

Tomamos café e logo saímos com nossas bicicletas, cada uma para seu destino.

Ao chegar no colégio, paro direto no estacionamento próprio para bicicletas, que colocaram a três anos já que as poucas pessoas que vem de bicicleta decidiram ir atrás desse direito.

Tranco e entro.

Ao passar pelo corredor, vejo Téo e seus amigos logo a alguns passo a frente.

E apesar de querer muito ficar por aqui e esperar eles saírem para poder passar, não posso, já que eles só entram na aula quando o professor já está dentro da sala e prestes a chamar.

Então, eu tenho que enfrentar o que considero um dos maiores mistérios da humanidade.

Um ser humano maduro que desaprende a caminhar, apenas por passar em frente a um grupo de pessoas. No meu caso, um grupo de pessoas que eu considero totalmente idiotas, o que torna tudo mais difícil.

Continuo a caminhar e evito fazer contato visual. Porém não por muito tempo já que ouço a voz de Téo, me cumprimentando e me viro, automaticamente, sem entender o motivo dele está falando comigo desde ontem.

Porém, minha surpresa foi maior por ele está fazendo isso em frente ao seus amigos, já que achei que teria vergonha e ficaria apenas me enchendo o saco por mensagens.

— Oi. — Respondo, sem graça, e entro na sala de aula.

Sento na cadeira e retiro os materiais da mochila. Espero alguns minutos e o professor de artes, Marcelo Álvares, entra na sala.

Ele sempre foi um ótimo professor. É descolado, divertido, e parece que tem um parafuso a menos.

Isso é o que eu penso sobre ele, meu segundo professor favorito, já que ninguém se compara a minha professora de história, Lucinha Pinheiro.

Sempre a admirei mais do que a qualquer outro desse colégio.

Isso por quê, para mim, ela não é apenas a Lucinda, professora de história, mas também, a tia Luci, melhor amiga da minha mãe desde antes de eu nascer, que sempre foi muito exigente no colégio, mas sempre me apoiou e esteve presente nos piores momentos da minha vida.

Um desses momentos foi quando meu pai foi embora, a cinco anos atrás.

— Bom dia, meu jovens aprendizes. — O professor cumprimenta, depois de todos terem se acomodado em seus devidos lugares. — Vou passar um trabalho bem divertido para vocês.

— Aaaaaa. — A turma vira um coral de lamentações.

— Calma. — Pede. — Tenho alguns motivos para fazer vocês se interessem por esse lindo trabalho, e vou listar esses motivos para vocês. — Continua. — Primeiro, vocês vão fazer dupla com alguém que não tem intimidade, isso pode gerar novas amizades e até romances, que é o que vocês estão sempre procurando, devido aos hormônios da puberdade.

Todos nós rimos.

— Isso aí, professor. — Um dos alunos no fundo grita. — Meus hormônios estão explodindo.

Reviro os olhos e suspiro, fundo, fazendo cara de nojo.

— Calma jovem. — Pede. — Segundo. Vocês vão descobrir que todos nós somos uma obra prima que temos muito mais a mostrar do que apenas nossa superficialidade. — Continua. — Somos oceanos profundos que ainda não foram totalmente explorados. — Para um minuto e ri. — Nossa, eu deveria ser professor de filosofia, me valorizem. — Passeia o olhar por toda a turma. — Terceiro... Uma escultura que olha para cima, não consegue ver seus pés. Então, quem está admirando a obra, pode avisar que ela está no meio de um ninho de cobras super venenosas. — Todos nós, rimos alto. — Brincadeiras a parte. Outras pessoas podem avistar coisas em nós, que nunca havíamos percebido. E por último e mais importante. — Para um pouco, gerando um mistério. — Vocês só vão apresentar daqui a uma semana. — Ri.

— Podemos escolher a nossa dupla? — Questiono, preocupada que a resposta seja, não.

— As duplas já estão escolhidas. — Ergue um papel. — Você está com o senhor fênix alí.

Era o que eu temia.

O professor se refere a Téo. O chamava de “Sr Fênix” desde que ele voltou para o colégio depois do acidente de carro em que ele e os pais quase morreram.

— Claro. — Disse desapontada, porém apenas para que eu mesma escutasse.

O professor informou todas as duplas e colocou o papel sobre a mesa.

— Então, o trabalho vai ser o seguinte. — Chama a atenção de todos. — Vocês vão trocar de identidade e fazer uma carta de apresentação. Vão listar tudo que vêem no outro como se fosse vocês. Aparência, personalidade, qualidade, defeitos... Tudo que é transmitido apenas pelo que vocês vêem no dia-dia.

Na apresentação, vocês vão trocar mais uma vez, e vão ler, aqui na frente, a carta que foi escrita sobre vocês.

Assim que terminarem de ler, podem corrigir o que acharem que deve ser corrigido e podem dar os créditos ao seus colegas que notaram algo em você, que nunca tenham percebido antes. — Conclui. — Simples assim.

Abro o caderno e anoto as informações necessárias, como a data de entrega e nome do meu colega.

Na minha cabeça, eu rio de mim mesma por fazer isso, pois sei que nunca esqueceria o nome de Teodoro Salles Garcia.

Mas, tenho que escrever algo para evitar de olhar para ele, que está sentado ao meu lado.

Sinto meu celular vibrar e pego, rápido. Uma nova mensagem de Téo. Leio pela barra de notificação e ignoro, guardando o celular.

-[Precisa mesmo escrever meu nome completo?]

Me sinto tentada a olhar para o lado, porém pego meu lápis mais uma vez e volto as anotações.

“Não gosta do próprio nome, por isso só se apresenta como, Téo.”

Escrevo e ouço uma risada ao lado.

Não consigo evitar o sorriso enquanto continuo de cabeça baixa. Esse sorriso bobo que não consigo evitar mesmo quando estou morrendo de vergonha. Um sorriso que não mostra os dentes, e os lábios só são puxados para um dos lados.

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