Quando o médico me disse que eu precisava de um transplante de rim, o meu marido, Pedro, ficou ao meu lado.
Ele segurou a minha mão com força.
"Não te preocupes, meu amor. Eu dou-te o meu. Somos compatíveis."
Eu olhei para ele, com os olhos cheios de lágrimas.
A minha sogra, Lúcia, que estava sentada no canto, bufou.
"Dar o teu rim? E se algo correr mal? O nosso filho ainda é pequeno, precisa de um pai saudável."
O nosso filho, Leo, tinha apenas cinco anos.
Ignorei-a e foquei-me no Pedro.
"Pedro, não precisas de fazer isto."
"Claro que preciso, Ana. És a minha mulher. Não vou deixar que nada te aconteça."
As suas palavras aqueceram o meu coração, apesar do frio do consultório médico.
Uma semana depois, estávamos no hospital, prontos para a cirurgia.
Eu estava numa maca, a caminho da sala de operações, quando o telefone do Pedro tocou.
Era a sua irmã mais nova, Sofia.
"Pedro! Onde estás? O meu carro avariou no meio da autoestrada! Estou sozinha e está a ficar escuro!"
A voz dela estava cheia de pânico.
Pedro olhou para mim, o seu rosto dividido entre a preocupação por mim e pela sua irmã.
"Ana, eu..."
"Vai," eu disse, forçando um sorriso. "Ela precisa de ti. Eu fico bem."
Eu sabia que a cirurgia podia esperar algumas horas. A segurança da Sofia era mais importante naquele momento.
Ele hesitou.
"Eu volto o mais rápido possível. Prometo."
Ele beijou-me a testa e correu para fora do hospital.
Eu observei-o partir, um sentimento estranho a instalar-se no meu peito.
As horas passaram.
A minha cirurgia foi adiada.
A equipa médica esperou, mas o Pedro não voltou.
As minhas chamadas iam diretamente para o correio de voz.
Finalmente, à noite, o meu telefone tocou. Era ele.
"Ana, desculpa. Tive de levar a Sofia a casa, ela estava em choque. E depois tive de tratar do reboque do carro dela. Foi um caos."
A sua voz soava cansada.
"Está tudo bem," eu menti. "Quando podes vir?"
Houve uma pausa.
"Sobre isso... a Sofia está com febre alta agora. Acho que apanhou um susto muito grande. Não a posso deixar sozinha."
"Pedro, a nossa cirurgia..."
"Podemos remarcá-la, certo? É só uma questão de alguns dias. A saúde da Sofia é frágil, tu sabes."
Sim, eu sabia. Todos na família sabiam como a Sofia era "frágil".
Desliguei o telefone, o quarto do hospital de repente a parecer muito mais frio e vazio.
A minha sogra, Lúcia, entrou no quarto nesse momento, com um sorriso triunfante.
"Eu disse-te. Um homem deve sempre colocar a sua família de sangue em primeiro lugar."
As suas palavras não me magoaram. Apenas confirmaram o que eu já começava a sentir.
Naquela noite, recebi uma chamada do hospital.
Encontraram um dador compatível da lista de espera nacional.
A cirurgia seria na manhã seguinte.
Eu não disse nada ao Pedro.





