Renascida Das Cinzas da Traição

Sara POV:

A dor latejava em todo o meu corpo, mas minha mente estava clara. Mais clara do que nunca. Senti o peso das cicatrizes em meu rosto, um lembrete constante da traição que me havia moldado. Cada batida do meu coração parecia ecoar o vazio onde minha Força Interior deveria estar.

Com um gemido sufocado, me levantei da cama. Meus músculos tremiam, uma fraqueza que eu nunca havia conhecido. Augusto ressonava suavemente ao meu lado, inconsciente do vulcão que havia despertado em mim.

Me arrastei até o cofre embutido na parede. Augusto sempre foi previsível. O código? Nosso aniversário de namoro. O dia em que ele me pediu em casamento. O dia em que começaram as mentiras, como agora eu sabia.

Abri o cofre. Meus olhos escanearam o conteúdo. Documentos financeiros. Joias. E... um diário digital.

Meus dedos tremiam ao pegar o diário. Augusto sempre disse que escrevia sobre nós, sobre nosso futuro. Que tola eu fui.

Liguei o aparelho. A tela brilhou, revelando uma série de entradas. Mas não sobre nós. Sobre outra.

As primeiras páginas eram cheias de fotos de ultrassom. Datas. Sintomas de gravidez. Tudo detalhado. E a data de concepção… coincidia perfeitamente com a semana em que Augusto me pediu em casamento.

" Hoje, minha Rebeca me deu a melhor notícia da minha vida. Um filho. Eu serei pai. Duas vidas novas para proteger. É hora de colocar meus planos em ação. Sara será... removida do caminho, mas de forma que não gere escândalo. Minha linhagem, meu legado, precisam ser assegurados."

Eu ri. Uma risada seca e sem humor. Ele estava me pedindo em casamento enquanto outro filho crescia no ventre de outra mulher. Que gênio. Que monstro.

Rolei a tela. Havia uma pasta intitulada "Oliver" . Centenas de fotos. Vídeos. Augusto ao lado de Rebeca, segurando um recém-nascido. As entradas do diário eram cheias da voz dele.

"Oliver deu seu primeiro sorriso hoje. Tão perfeito. Eu sou um pai orgulhoso."

"Ele disse 'papai' . Meu coração explodiu. Preciso garantir que ele tenha tudo. O lugar que merece."

"O berço já está pronto no quarto secreto. Rebeca está cuidando de cada detalhe. Sara nunca vai suspeitar. Ela está ocupada demais com os preparativos do casamento. Tão ingênua."

O quarto secreto. Onde ele planejava a vida que eu nunca teria.

Havia também receitas detalhadas de refeições para gestantes, com anotações de Augusto sobre os gostos de Rebeca. Listas de enxoval. Planos para o futuro da criança. Cada detalhe que ele negou a mim.

Percebi que o nascimento de Oliver coincidia com um período em que Augusto alegou estar em uma viagem de negócios urgente. Ele até me disse que sentia falta da minha Força Interior, que poderia me ajudar a lidar com a solidão. Fui tão cega.

Lembrei-me de quando o questionei sobre termos filhos. Eu queria uma família. Ele me disse que não estava pronto. Que precisávamos nos focar em nossa carreira. Em "nossa" casa.

"Não estamos prontos, Sara. Uma criança exige muito. E sua Força Interior… é um pouco fraca para sustentar uma gravidez agora. Precisamos fortalecê-la primeiro."

Mentiras. Todas mentiras. Ele não estava pronto para ter filhos comigo. Ele já tinha um filho. Com Rebeca.

Meus olhos se fixaram em um anel. Não o meu anel de noivado. Era diferente. Mais elaborado. Com uma gravação: "Para minha Rebeca, para sempre."

Então, ele planejava se casar com ela. Depois de me destruir. Depois de me tornar infértil.

Havia documentos. Escrituras de uma propriedade. Em nome de Rebeca Bernardino. Com a data de registro de dois anos atrás. O mesmo ano em que ele me convenceu a investir todas as minhas economias em um "projeto de segurança" para nossa "futura família" .

Uma pasta de documentos jurídicos. Um contrato pré-nupcial, com Augusto Caldeira e Rebeca Bernardino como partes. E instruções para o celebrante do casamento.

"Garanta que a cerimônia seja discreta, mas impecável. E que o 'problema' atual seja resolvido antes da data. Não quero vestígios. Ninguém deve saber."

O problema. Sou eu. Eu era o problema.

Minha garganta apertou. O ar pareceu rarefeito. Comecei a rir. Uma risada histérica, que rapidamente se transformou em soluços. Soluços incontroláveis que rasgavam minha garganta.

Peguei meu telefone, meus dedos trêmulos mal conseguindo digitar. Abri o aplicativo de mensagens. Minha melhor amiga. Olívia.

"Olívia," eu digitei, as lágrimas embaçando minha visão. "Preciso de você. Preciso de um médico. Preciso desaparecer. Preciso de ajuda."

Enviei. O mundo parecia ruir ao meu redor. Mas em meio às ruínas, uma única flor de raiva começava a brotar. Uma promessa de que eu não seria destruída.

Minha mensagem foi enviada. Olívia não fez perguntas. Ela sempre foi leal. Ela pensou que eu finalmente tinha percebido o quão Augusto era um lixo.

A resposta dela veio quase instantaneamente: "Você merece mais, Sara. Muito mais. Estou a caminho."

Soltei o telefone no chão. O cansaço me dominou. Cai em um sono profundo. Um sono sem Augusto. Sem suas mentiras.

Meus sonhos não eram mais sobre ele. Eram sobre mim. Sobre liberdade.

Fui acordada pelo som de um choro. Um choro gutural, vindo de Augusto. Ele estava sentado na beira da cama, segurando um relatório. Suas mãos tremiam incontrolavelmente.

"Não," ele sussurrava. "Não pode ser."

Ele se virou para mim, os olhos vermelhos e inchados. Um ator nato.

"O Dr. Guilherme… ele veio enquanto você dormia," ele disse, a voz embargada. "Ele trouxe os resultados dos seus exames mais recentes. Ele disse que o incêndio... a explosão de Força Interior... danificou seu sistema reprodutivo. Sua Força Interior está quase morta. Você... você não pode ter filhos, Sara."

Ele me abraçou, chorando descontroladamente. "Nossa linhagem. Meu legado. Tudo por água abaixo. Eu queria tanto um filho com você."

Senti um calafrio. As mesmas palavras que ele disse ao Dr. Guilherme. Agora, ele estava recitando para mim, com lágrimas de crocodilo.

Ele se afastou, seus olhos fixos nos meus. "Mas não se preocupe, meu amor. Eu não vou abandoná-la. Nunca. Você é minha companheira. E sempre será. Vamos adotar. Sim. Adotar um órfão. Isso vai nos ajudar a curar. Vai ajudar você a recuperar sua Força Interior."

Ele enxugou uma lágrima do meu rosto com o polegar. Sua tristeza parecia genuína. Mais genuína do que a minha. Era nojento.

Eu o encarei. Cada fibra do meu ser gritava para eu expor suas mentiras. Mas eu precisava de tempo. Precisava de um plano.

"Eu... eu entendo, Augusto," eu disse, minha voz baixa e trêmula. Fingindo a dor que ele queria ver. "É... é difícil. Mas se você acha que adotar é o melhor... eu confio em você."

Ele me abraçou novamente. "Meu amor, você é tão compreensiva. Eu sempre soube que você era a pessoa certa para mim."

Ele se afastou, mas ainda me segurava pelos ombros. Havia um brilho esperançoso em seus olhos. Uma excitação disfarçada.

"A cerimônia… está tudo pronto. Rebeca está cuidando dos últimos detalhes. Ela é uma amiga maravilhosa, não é? Mas com sua condição… talvez não seja bom para você. A exposição. O estresse."

Ele estava me dando uma saída. Ele queria que eu me afastasse.

"Eu... eu compreendo," eu disse, baixando o olhar. "Talvez seja melhor eu não ir. Para não... envergonhar nossa nobre coletividade. Eu não quero que pensem que você é fraco por ter uma companheira com a Força Interior comprometida."

Ele me olhou, surpreso. Ele esperava uma luta. Uma súplica. Mas eu o estava entregando o que ele queria.

"Sara," ele engasgou. "Você é a mulher mais forte que eu conheço."

Meu telefone tocou na mesa de cabeceira. Ele olhou para o aparelho, depois para mim, uma ruga de confusão em sua testa.

"Você... você cancelou seu registro na coletividade?" ele perguntou, sua voz cheia de desconfiança. Ele queria me destruir. Mas não queria que eu tomasse minhas próprias decisões.

Ainda não. Ainda não era a hora.

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