O choque da realidade me atingiu com a força de um soco no estômago. Eu me levantei da poltrona, as pernas bambas, e caminhei até o espelho do banheiro. A mulher que me encarava era eu, Maria da Silva, trinta e dois anos, artesã de doces. Mas meus olhos... meus olhos carregavam o horror de uma morte violenta e a dor de uma traição inimaginável.
Eu estava aqui. Tinha voltado. O universo, por algum motivo insondável, me deu uma segunda chance.
As memórias da minha "morte" eram vívidas, fragmentos de um pesadelo que se recusavam a desaparecer. O rosto furioso de João, o desprezo de meus pais, as palavras cruéis de Sofia, e as mãos e os pés da multidão me agredindo até a escuridão.
Meu corpo inteiro tremia. Sentei na beirada da banheira, a cabeça entre as mãos, forçando-me a respirar. Pânico não me ajudaria. Eu precisava pensar.
Analisei os fatos da minha vida anterior.
A viagem. A doença súbita de Sofia. O quarto de hotel separado. O vídeo. As acusações financeiras. A acusação de abuso.
Tudo se encaixava com uma perfeição demoníaca. Não foi uma série de acasos infelizes, foi uma conspiração. Uma armadilha meticulosamente planejada para me destruir completamente.
Meu marido, meus pais... Eles não foram enganados. Eles eram os arquitetos da minha ruína.
Por quê?
Dinheiro? A cooperativa? As receitas? Sim, isso fazia parte. Meu pai, Pedro, sempre foi ambicioso, e minha parte na cooperativa era substancial. Mas a traição de João... havia algo mais. O ódio em seus olhos não era apenas por uma suposta traição. Era pessoal, profundo.
E Sofia... minha doce Sofia. Ela não inventaria uma mentira daquelas sozinha. Ela foi coagida, manipulada. Alguém a ensinou a dizer aquelas palavras terríveis. Quem? Como?
Preciso mudar o curso dos acontecimentos.
Na minha vida anterior, eu fiquei no hotel. Fiquei isolada, uma presa fácil. Desta vez, seria diferente.
Peguei meu celular e olhei a hora. Seis da manhã. João ainda devia estar dormindo no outro quarto. Os eventos hediondos só começaram por volta das oito. Eu tinha duas horas.
Andei até a cama e toquei a testa de Sofia. A febre havia cedido. Ela estava apenas dormindo. Com cuidado para não acordá-la, comecei a arrumar nossas coisas numa pequena mala de mão. Apenas o essencial.
Meu plano era simples, quase primitivo: fugir. Sair daquele hotel, daquela cidade. Ir para um lugar onde eles não pudessem me encontrar. Mas para onde? Eu não tinha amigos íntimos em quem pudesse confiar, minha vida sempre girou em torno da família e do trabalho.
A paranoia começou a se instalar. E se eles já estivessem me vigiando? E se a recepção do hotel já estivesse instruída a não me deixar sair?
Não. Eu precisava manter a calma. Na minha vida anterior, a armadilha foi montada no quarto. O "amante", o vídeo... tudo aconteceu aqui. Se eu não estivesse aqui, a primeira parte do plano deles falharia.
Decidi não fugir da cidade ainda. Isso levantaria suspeitas imediatas. Em vez disso, eu iria para um lugar público. Um lugar com muitas testemunhas, muitas câmeras. Um lugar onde seria impossível forjar uma cena de traição.
Peguei Sofia no colo com cuidado. Ela resmungou um pouco, mas continuou dormindo, seu corpo pequeno e quente contra o meu. Aquele contato me deu força. Eu faria qualquer coisa para protegê-la.
Com a bolsa no ombro e minha filha nos braços, abri a porta do quarto lentamente. O corredor estava silencioso e vazio. Caminhei nas pontas dos pés até o elevador, o coração batendo descontrolado no peito. Cada som me fazia pular.
Dentro do elevador, apertei o botão do térreo. O espelho refletia minha imagem: uma mãe desesperada fugindo de uma ameaça invisível.
Na recepção, o funcionário da noite estava sonolento. Ele mal ergueu os olhos quando passei.
"Bom dia", eu disse, a voz mais firme do que eu esperava.
"Bom dia", ele respondeu, sem interesse.
Eu saí para o ar fresco da manhã. A brisa do mar trazia um cheiro de sal e liberdade. Chamei o primeiro táxi que vi.
"Para onde, senhora?", perguntou o motorista.
Pensei por um momento. Um shopping center. Era perfeito. Abria cedo para os funcionários, tinha cafés, e o mais importante, segurança e câmeras por toda parte.
"Para o Shopping Marítimo, por favor."
Durante o trajeto, olhei para trás constantemente, procurando por qualquer sinal de que estava sendo seguida. Nada. Apenas o trânsito normal da manhã.
Sofia acordou quando chegamos.
"Mamãe? Onde a gente tá?"
"Oi, meu amor. Fomos passear. Você está se sentindo melhor?"
Ela assentiu, ainda sonolenta.
Entramos no shopping, que ainda estava relativamente vazio. Fomos direto para a praça de alimentação e nos sentamos em um café que acabara de abrir. Pedi um suco para Sofia e um café forte para mim.
Enquanto ela bebia seu suco, eu a observava. Não havia sinal de medo ou angústia em seu rosto. A manipulação ainda não tinha acontecido.
Olhei para o relógio. Oito e quinze. O horário em que, na outra vida, meu mundo desabou.
Aqui, no meio de um café movimentado, com dezenas de pessoas ao redor, eu me senti... segura. Eu tinha mudado o cenário. Eu tinha quebrado o roteiro deles.
Um sorriso cansado, mas genuíno, brotou em meus lábios. Eu tinha conseguido. Eu evitei o desastre.
O resto do dia seria para planejar meu próximo passo. Ligar para um advogado, talvez. Contratar um detetive particular. Expor João e meus pais.
Me permiti um momento de alívio. Respirei fundo, o cheiro de café e pão fresco enchendo meus pulmões. O barulho das pessoas conversando, o som das máquinas de café... era a trilha sonora da normalidade.
Eu estava a salvo.
Por enquanto.





