Renascida da Culpa

Sofia olhou para o médico à sua frente, o seu amigo de longa data, João.

"Eu quero doar todos os meus órgãos, João. Cancro do estômago em fase terminal, lembras-te?"

A sua voz era calma, quase leve, mas os seus olhos carregavam o peso do mundo.

"A morte para mim não é uma tragédia, é uma libertação. E uma última oportunidade de fazer algo que preste."

João suspirou, a sua expressão era uma mistura de tristeza e frustração profissional.

"Sofia, ainda há tratamentos experimentais, protocolos que podemos tentar. Não desistas assim."

Ela abanou a cabeça, um sorriso fraco nos lábios.

"Não, João. Já decidi. É o meu último ato de altruísmo, e talvez uma forma de pagar o que devo."

Ele sabia que ela se referia a Clara.

O telemóvel dela vibrou na mesa de cabeceira. O nome "Tiago" brilhou no ecrã.

Sofia estremeceu ligeiramente antes de atender.

"Sofia, onde estás? O evento no Douro começa em três horas e os investidores chegam em duas. Espero que não estejas a pensar em faltar."

A voz dele era fria, cortante, como sempre.

"Estou a caminho, Tiago."

"É bom que estejas."

Ele desligou.

Sofia levantou-se, a dor no estômago era uma companheira constante. "Tenho de ir. O dever chama."

João observou-a sair, o coração apertado. Ele sabia o que a esperava.

Na quinta histórica no Douro, o ambiente era de luxo e negócios. Sofia, pálida mas composta, coordenava tudo com uma eficiência que desmentia o seu sofrimento.

Tiago aproximou-se dela, um copo de vinho tinto na mão.

"Os nossos convidados estão a adorar o vinho. Tu provaste, claro?"

Ele sabia da sua condição, das suas restrições.

"Sim, Tiago. Excelente escolha." Mentiu ela.

Mais tarde, um grupo de associados de Tiago, já alegres pelo álcool, cercou-a.

"Então, Sofia, o Tiago diz que és a alma da festa! Mostra-nos lá como se bebe um Porto como deve ser!"

Eles empurraram-lhe um cálice cheio. Tiago observava de longe, um sorriso frio nos lábios.

Ela bebeu, sentindo o álcool queimar-lhe o estômago já fragilizado. Depois outro, e outro. Cada gole era uma tortura, mas ela aguentou, os olhos fixos em Tiago, que não movia um músculo para a ajudar. A humilhação era palpável, mas ela aceitava-a como parte da sua penitência.

Um dos associados mais velhos, talvez com um pingo de compaixão, afastou-a discretamente.

"Minha querida, não tens de fazer isto. Posso arranjar-te uma desculpa, dizer que te sentiste mal."

Sofia sorriu-lhe, um sorriso cansado.

"Agradeço, mas tenho uma dívida a pagar. E esta é apenas uma pequena parte dela."

O homem olhou-a com pena, sem compreender.

Quando o evento terminou e os convidados se foram embora, Tiago seguiu Sofia até ao pequeno quarto que lhe fora designado.

Ele agarrou-a pelo braço, encostando-a à parede.

"Gostaste do espetáculo, Sofia? De te fazeres de vítima?"

O seu hálito cheirava a vinho caro.

Ele beijou-a à força, um beijo carregado de raiva e ressentimento. Sofia não reagiu.

Ele afastou-se, frustrado pela sua passividade, e deu um soco na parede ao lado da cabeça dela.

"Tu manipulas todos, não é? Com essa tua cara de santa sofredora. Achas que me enganas?"

"Eu só quero expiar o meu pecado, Tiago. Só isso." A voz dela era um fio.

A menção do pecado pareceu enfurecê-lo ainda mais.

"Pecado? Tu és o pecado! Se queres tanto expiar, então morre de uma vez! Faz-nos a todos um favor!"

As palavras dele eram cruéis, mas Sofia sentiu uma estranha ironia. Ele não sabia o quão perto estava o seu desejo de se realizar.

O telemóvel dele tocou. Era Beatriz, a sua noiva.

A expressão de Tiago suavizou-se instantaneamente.

"Olá, meu amor. Sim, o evento correu lindamente. Estou a caminho."

Ele desligou e olhou para Sofia com desprezo.

"Não penses que isto acabou."

E saiu, deixando-a sozinha na penumbra do quarto.

Sofia sentiu uma onda de náusea e uma dor aguda no estômago.

Correu para a casa de banho, ajoelhou-se em frente à sanita e vomitou.

Sangue. Vermelho vivo, a manchar a porcelana branca.

A dor intensificou-se, e o mundo começou a girar.

Ela caiu no chão frio, o som do seu corpo a embater nas lajes a ecoar no silêncio, antes de a escuridão a engolir.

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