Renascer das Cinzas: A Herdeira da Têxtil

A porta do escritório abriu-se com um rangido. O meu pai, Rui, entrou. Parecia dez anos mais velho do que na semana passada. Os seus ombros estavam curvados, o brilho nos seus olhos tinha desaparecido.

"Ainda aqui, filha?"

Ele forçou um sorriso, mas não chegou aos seus olhos.

"Estava a rever os números," menti, a esconder o contrato debaixo de uma pilha de faturas. Não lhe podia contar. Não agora. O peso da traição do Miguel era meu para carregar.

Ele sentou-se na cadeira do outro lado da secretária, a cadeira que normalmente pertencia aos clientes e parceiros. Agora, ele parecia um estranho no seu próprio império em colapso.

"O banco ligou," disse ele, a voz baixa. "Dão-nos até ao final do mês. Depois, executam a hipoteca."

O final do mês. Duas semanas.

"Vamos encontrar uma solução, pai."

Ele abanou a cabeça lentamente. "Não há solução, Clara. Para pagar a maquinaria, usei a casa como garantia. Vamos perder tudo."

A casa. A casa onde cresci. A casa onde a minha mãe plantou as rosas que ainda floresciam no jardim. A palavra "tudo" pairou no ar, pesada e sufocante.

"Foi a minha ganância," continuou ele. "Aquele contrato era demasiado bom para ser verdade. Eu devia ter sabido."

Não foi ganância, pai. Foi confiança. Confiança no homem com quem a tua filha casou.

Senti uma onda de raiva fria a substituir o meu choque. Uma raiva direcionada não ao meu pai, mas a Miguel e à sua família. Eles não tinham apenas atacado o nosso negócio. Eles tinham atacado o coração da nossa família, o legado do meu pai, a nossa casa.

"Não te culpes," disse eu, a minha voz firme. "A culpa não é tua."

O meu pai olhou para mim, uma centelha de surpresa nos seus olhos cansados. Ele esperava lágrimas, desespero. Mas não encontrou nada disso.

Encontrou determinação.

Levantei-me e comecei a arrumar os papéis na secretária, a criar ordem no caos. Cada movimento era deliberado, preciso.

"Vai para casa, pai. Descansa. Eu fecho tudo aqui."

Ele hesitou, depois assentiu. Levantou-se e, antes de sair, pôs a mão no meu ombro. "És uma boa filha, Clara."

Quando a porta se fechou, fiquei sozinha no silêncio. A minha mente estava a trabalhar, a conectar pontos, a formular um plano.

O divórcio não era suficiente. Eles queriam guerra. Eles iam ter uma.

Mas eu não ia lutar com as regras deles. Eu ia criar as minhas próprias.

Peguei no meu casaco e saí do escritório, apagando a luz. A escuridão não me assustava. Era nela que as melhores estratégias nasciam.

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