Renascer das Cinzas: A Escolha Dele

Acordei com o som constante de um bip.

O cheiro não era de fumo, mas de antissético. Estava num quarto de hospital, branco e estéril.

Um homem de bata branca estava ao lado da minha cama, a ajustar o soro.

"Olá, Clara. Sou o Dr. Miguel. Você está no Hospital de Santa Maria. Inalou muito fumo, mas vai ficar bem."

A minha mão foi instintivamente para a minha barriga. Estava vazia. Plana.

O pânico subiu pela minha garganta, frio e amargo.

"O meu bebé," sussurrei, a voz a falhar. "Onde está o meu bebé?"

O Dr. Miguel olhou para mim, os seus olhos cheios de uma compaixão que me partiu o coração.

"Clara, devido ao stress e à falta de oxigénio, tivemos de fazer uma cesariana de emergência. O seu filho... ele nasceu muito fraco. Fizemos tudo o que podíamos, mas os pulmões dele não resistiram."

As palavras dele pairaram no ar, mas a minha mente recusava-se a aceitá-las.

Não.

O meu filho. O nosso filho.

Não chorei. Não gritei. Senti apenas um vazio imenso a abrir-se dentro de mim, um buraco negro que engolia toda a luz e todo o som.

A porta do quarto abriu-se e o Diogo entrou. Atrás dele, agarrada ao seu braço, estava a Sofia. Tinha os olhos vermelhos, mas não parecia ter estado num incêndio. Parecia perfeitamente bem.

"Clara! Graças a Deus que estás bem! Fiquei tão preocupado!"

O Diogo correu para a minha cama, mas eu encolhi-me.

Ele não reparou. A sua preocupação era um espetáculo para uma audiência de um. Ele próprio.

"A Sofia ficou em estado de choque, coitada. Tive de a levar às urgências também."

Olhei para a Sofia. Ela baixou o olhar, parecendo culpada. Mas não havia culpa nos seus olhos, apenas uma satisfação mal disfarçada.

"O nosso filho morreu, Diogo."

As palavras saíram da minha boca, frias e sem emoção.

Ele parou. O sorriso falso desapareceu do seu rosto.

"O quê? Como assim? O que é que o médico disse?"

"Ele disse que o nosso filho morreu."

O Diogo olhou para o Dr. Miguel, depois para mim, a sua cara a contorcer-se numa máscara de confusão e raiva.

"Isso... isso não pode ser."

Olhei para ele, para o homem com quem me casei, o pai do meu filho morto. E não senti nada. Apenas o vazio.

"Quero o divórcio, Diogo."

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