Renascer das Chamas: A Vingança da Ex-Esposa

O fogo começou à noite.

O cheiro a queimado acordou-me, um odor acre que arranhava a garganta.

Abri os olhos e vi fumo a entrar por baixo da porta do quarto.

O meu coração parou por um segundo, depois começou a bater descontroladamente.

Estava grávida de oito meses, sozinha em casa. O nosso apartamento ficava no décimo segundo andar.

Peguei no meu telemóvel com as mãos a tremer e liguei para o meu marido, Leo.

Ele atendeu ao segundo toque, a sua voz calma como sempre.

"Clara? O que se passa? Porque é que estás a ligar a esta hora?"

"Leo, fogo! Há um incêndio no prédio!"

A minha voz saiu num grito agudo, cheio de pânico.

Houve um momento de silêncio do outro lado, depois ouvi o som de chaves a tilintar.

"O quê? Onde estás? Estás bem?"

"Estou no quarto, há fumo por todo o lado! Não consigo sair!"

O fumo estava a ficar mais denso, e eu já não conseguia ver o outro lado da sala. Comecei a tossir, o meu corpo a contrair-se violentamente.

"Aguenta, Clara! Eu sou bombeiro, sabes o que fazer. Vai para a varanda, fecha a porta atrás de ti. Estou a cinco minutos de distância. Vou já para aí."

A sua voz era firme, a voz de um profissional. Mas ele era o meu marido, não apenas um bombeiro.

"Leo, por favor, despacha-te!"

"Estou a ir, estou a ir. Amo-te."

Ele desligou.

Rastejei pelo chão, onde o ar era um pouco mais limpo, em direção à varanda. A cada movimento, a minha barriga grande era um obstáculo. O bebé pareceu sentir o meu pânico e começou a mexer-se freneticamente.

"Calma, meu amor, o papá vem salvar-nos."

Sussurrei, mais para me convencer a mim mesma do que ao bebé.

Consegui chegar à varanda e fechei a porta de vidro, mas o fumo já tinha invadido tudo. Lá fora, o ar da noite era frio, mas salvador. Olhei para baixo e vi o caos. Carros de bombeiros, ambulâncias, pessoas a gritar.

O meu telemóvel tocou. Era o Leo.

Atendi imediatamente. "Leo! Onde estás?"

"Estou quase a chegar ao prédio. Ouve, a Sofia também mora aí, dois andares abaixo de ti. Ela não atende o telefone. Estou preocupado."

Sofia. A sua amiga de infância. A vizinha que se mudou para o nosso prédio há seis meses "para estar mais perto dos amigos".

Uma sensação fria percorreu o meu corpo, mais fria que o ar da noite.

"Leo, eu não consigo respirar bem. O bebé..."

"Eu sei, Clara, eu sei. Aguenta firme. Vou tirar-vos daí."

Mas a sua voz estava dividida. Ouvi sirenes a aproximarem-se ao fundo da sua chamada. E depois, ouvi outra voz, fraca, mas clara. A voz de Sofia.

"Leo... ajuda-me... o meu apartamento... está cheio de fumo..."

Ele não estava a falar comigo ao telefone. Ele estava com ela. Ele já estava no prédio.

"Sofia? Consegues ouvir-me? Onde estás?"

A voz dele estava cheia de uma urgência que eu não tinha ouvido quando falou comigo.

A chamada não tinha sido desligada. Eu estava a ouvir tudo.

"Estou perto da escada... não consigo ver nada... Leo, estou com tanto medo..."

"Não te preocupes, estou a ir buscar-te. Já te estou a ver. Vem, dá-me a mão."

O meu mundo desabou.

Ele estava no andar dela. Ele escolheu ir para o andar dela primeiro.

"Leo?" A minha voz era um sussurro quebrado. "Leo, e eu? E o nosso filho?"

Houve um som de estática, e depois silêncio.

Ele tinha desligado.

Olhei para a minha barriga, as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto, misturando-se com o suor e a fuligem. O fumo denso começou a infiltrar-se na varanda. A minha tosse tornou-se incontrolável. A última coisa que senti foi uma dor aguda no meu ventre, e depois, tudo ficou escuro.

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