Renascer das Águas Amargas

Não sei quanto tempo passou. Perdi a noção de tudo.

Lembro-me do som de vidro a partir-se e de braços fortes a puxarem-me para fora do carro, para um barco insuflável.

A última coisa que vi antes de desmaiar foi o rosto da minha mãe, pálido como cera, a ser ajudada por outro bombeiro.

Acordei num quarto de hospital. O cheiro a antisséptico invadiu-me as narinas.

O quarto estava silencioso, a tempestade lá fora tinha acalmado.

A minha barriga... estava vazia. Lisa.

Uma dor oca, profunda, instalou-se no meu peito. Mais forte do que o frio que ainda sentia nos ossos.

Uma enfermeira entrou, com um olhar de pena.

"Sofia, que bom que acordou. A sua mãe está estável, está a descansar noutro quarto."

Eu não conseguia falar. Apenas olhei para a minha barriga, para o espaço vazio onde o meu bebé deveria estar.

A enfermeira compreendeu. A sua expressão suavizou-se com tristeza.

"Lamento muito, Sofia. Devido ao choque hipotérmico e ao stress, entrou em trabalho de parto prematuro. Fizemos tudo o que podíamos..."

Ela não precisou de terminar a frase.

"O bebé...?" a minha voz era um sussurro rouco.

"Era um menino. Lamento, ele não sobreviveu."

As lágrimas que não chorei no carro começaram a escorrer pelo meu rosto, silenciosas e quentes.

Não havia soluços, não havia gritos. Apenas um vazio imenso e a certeza fria de que a minha vida, como a conhecia, tinha acabado ali.

O meu filho tinha morrido porque o pai dele estava a salvar o gato de outra mulher.

Nesse momento, a porta do quarto abriu-se.

Era Miguel. E o pai dele, Jorge, que também era o novo marido da minha mãe.

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