Lousa não saiu imediatamente. Ela se sentou no pufe de veludo no hall de entrada, sua mala ao lado dela como um cão leal. Ela precisava fazer isso direito.
Quando Arpão desceu dez minutos depois, ele estava totalmente vestido para o escritório, a gravata desfeita em volta do pescoço. Ele a viu sentada lá e soltou um suspiro de alívio que soou mais como condescendência.
- Ótimo - disse ele, aproximando-se. - Você recobrou o juízo. Agora, arrume essa gravata. O nó nunca fica certo quando eu faço.
Ele estufou o queixo, expondo o pescoço, esperando pelos dedos familiares dela. Era um ritual. Todas as manhãs por quatro anos.
Lousa não se moveu. - Você tem mãos, Arpão.
Arpão congelou. Ele virou a cabeça lentamente, olhando para ela como se o pufe tivesse começado a falar. - Como é?
Lousa enfiou a mão na bolsa e tirou um documento dobrado. Era uma lista manuscrita no verso de um panfleto de alta hospitalar que ela havia rabiscado na sala de espera.
Ela o colocou na mesa de console de mármore.
- Precisamos falar sobre a separação - disse ela.
Os olhos de Arpão se estreitaram. O alívio desapareceu, substituído por uma raiva fria e dura. - Você está abusando da sorte, Lousa. Eu te disse, não tenho tempo para joguinhos.
- Não é um jogo. - Ela se levantou. - Eu quero o divórcio.
A palavra pairou no ar, absorvendo o oxigênio.
Arpão a encarou, depois jogou a cabeça para trás e riu. Foi um som áspero, como um latido. - Divórcio? Você? Lousa, não seja ridícula. Você estaria na rua em uma semana. Você não tem emprego. Você não tem habilidades. Você não tem nada sem mim.
- Tenho minha dignidade - disse ela, embora sua voz tremesse um pouco. - E prefiro dormir na rua do que em uma cama que cheira a ela.
- Ah, cresça - Arpão retrucou. Ele se aproximou, pairando sobre ela. Ele usava sua altura como uma arma. - A Gema é uma estrela. Ela está sob imensa pressão. Ela é frágil. Você... você é apenas uma decoração. Uma decoração muito cara que meu pai comprou para me fazer parecer estável.
As palavras a atingiram como golpes físicos. Decoração. Comprou.
- A decoração quebrou, Arpão - disse ela, encontrando o olhar dele. - Cansei de ser seu adereço de cena. E cansei de ser a vilã na novela da Gema.
- Não se atreva a falar o nome dela - avisou Arpão, apontando o dedo para ela. - Ela é pura. Ela passou pelo inferno.
- Pura? - Lousa soltou uma risada incrédula. - Ela colocou uma foto de ultrassom no bolso de um homem casado. Isso não é pureza, Arpão. Isso é marcar território.
O rosto de Arpão ficou de um tom violento de vermelho. Sua mão se contraiu, movendo-se instintivamente em direção ao bolso do peito, depois parou. Ele sabia. No fundo, ele sabia.
- Saia - ele sussurrou.
- O quê?
- Eu disse, saia! - Ele rugiu, agarrando um vaso de cristal da mesa e arremessando-o contra a parede. Ele se estilhaçou, cacos chovendo no chão imaculado. - Você quer ir embora? Vá! Dê o fora da minha casa!
Ele enfiou a mão no paletó, tirou um talão de cheques e rabiscou furiosamente. Ele arrancou o cheque e jogou nela. Ele flutuou até o chão, caindo perto dos pés dela.
- Toma - ele cuspiu. - Pagamento de rescisão. Pegue e desapareça.
Lousa olhou para o cheque. Estava em branco. Ele nem tinha preenchido o valor. Ele estava dizendo a ela que ela podia dar o preço para ir embora.
Ela olhou para ele, vendo a raiva trêmula em suas mãos, o medo por trás de seus olhos que ele se recusava a reconhecer.
Ela passou por cima do cheque.
- Eu não quero seu dinheiro, Arpão - disse ela calmamente. - Eu só quero meu nome de volta.
Ela agarrou a alça da mala.
- Se você sair por aquela porta - gritou Arpão, sua voz falhando -, vou congelar tudo. Os cartões, as contas, as associações de clubes. Você será um fantasma nesta cidade.
Lousa abriu a pesada porta da frente. O ar do corredor estava frio.
- Eu já era um fantasma aqui, Arpão - disse ela.
Ela jogou seu cartão-chave na mesa do console. Ele caiu com um estalo seco ao lado da lista de divórcio não assinada.
Ela saiu.
A porta não bateu. Ela se fechou com um clique aterrorizantemente final.
Arpão ficou sozinho no hall de entrada. O silêncio era ensurdecedor. Ele olhou para o cheque em branco no chão. Ele olhou para o vaso estilhaçado.
O pânico explodiu em seu peito, uma sensação repentina e irracional de que ele acabara de cometer um erro catastrófico.
Ele pegou o telefone. Seus dedos tremiam enquanto discava para seu advogado.
- Cajado - ele ladrou quando a linha conectou. - Congele as contas dela. Todas elas. Agora. Quero que ela tenha acesso zero a fundos até o meio-dia.
Ele desligou e olhou para a porta, esperando. Esperando a ficha cair. Esperando que ela se virasse e batesse.
Ela não bateu.





