Reescrever as Estrelas

Eles continuaram conversando e dando risada até que meu olhar foi atraído para uma garota que tinha acabado de chegar.

Ela entrou devagar e olhava ao redor como se estivesse procurando alguém. Vasculhei minha mente a procura de alguma lembrança com ela, mas não veio nada. Eu com certeza nunca a vi, se tivesse visto, jamais esqueceria.

Meu olhar varreu cada centímetro dela, percebendo seus dedos torcerem levemente o boné branco em uma atitude nervosa, era óbvio que ela estava tensa.

Aos poucos, todo mundo foi percebendo a sua presença e isso com certeza a deixou sem graça.

— Quem é? — Miguel perguntou e ouvi vagamente Vega responder alguma coisa, mas não dei atenção.

Meu olhar caiu em seus longos cabelos negros e lisos, decididamente eu tinha um fraco por morenas. Ela era absurdamente linda e a calça legging que usava detalhava perfeitamente seu corpo, e que corpo. Nem mesmo o moletom que cobria seu tronco até os quadris conseguia disfarçar.

Então de repente ela abriu um sorriso para o nosso anfitrião e se jogou em seus braços. Ben a abraçou de volta nos deixando ainda mais curiosos.

Ouvi ele perguntar alguma coisa, mas não entendi, acho que eles estavam falando em português.

Ben parecia nervoso e Mikaela se aproximou tocando no ombro da garota que também a abraçou.

As expressões do nosso colega de time e da mulher dele deixavam claro que nenhum dos dois esperava por essa visita.

O olhar da garota cruzou com o meu por um instante e eu não consegui desviar. Eles me pareciam castanhos claros, mas foi tão rápido que não dá pra ter certeza.

Eles conversaram mais um pouco o que me parecia ser ainda em português e Ben a abraçou antes de conversar algo com a esposa. Ele veio em nossa direção e acenou para nós com a cabeça antes de subir as escadas abraçado a garota morena.

Era óbvio o clima de curiosidade presente na sala e Mikaela escapuliu para a cozinha antes de alguém perguntar alguma coisa. Vega se levantou e foi atrás dela.

— O que será que aconteceu? — Miguel perguntou levemente surpreso, acho que todos nós estávamos assim.

Dante deu de ombros, seu olhar focado na porta de ligação com a cozinha, para onde Vega tinha ido.

— O que cê acha que aconteceu? — Miguel perguntou novamente me empurrando com ombro e olhei para ele.

— Sei lá. — respondi dando de ombros. — Tu é curioso Miguel, parece aquelas velhas fofo-queiras.

Ele me encarou fazendo uma expressão de ultraje.

— Eu não sou fofoqueiro, eu só gosto de saber das coisas.

— E qual é a diferença? — indaguei tentando não dar risada.

— A diferença é que eu não saio por aí espalhando o que eu sei. — Miguel explicou como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.

Romero se aproximou de nós enquanto bebia sua cerveja Heineken.

— Rapaz sei nem quem é, mas apaixonei. Tremenda gata.

A gente não aguentou e começou a dar risada.

— Cara, tu não pode ver um rabo de saia que já vai atrás. — Miguel o provocou ainda rindo.

— O que eu posso fazer se eu sou irresistível? — perguntou fazendo a gente rir novamente.

Ele se achava demais, essa era a verdade.

— Você sai atirando pra todo lado, isso sim. — Dante apontou o dedo indicador pra ele. —

Deu em cima até da minha namorada.

— Em minha defesa, eu não sabia que vocês estavam namorando. — Romero se defendeu levando a mão ao peito fazendo eu e Miguel cair na gargalhada.

Dante balançou a cabeça em negação olhando pra ele e tentando não dar risada também.

Mikaela e Vega vieram juntas da cozinha, a loira subiu a escada levando uma xícara e Vega se sentou novamente no colo do namorado.

— Conta tudo! — Romero pediu tentando sentar no sofá de dois lugares apertando Miguel que reclamou.

— Ai caralho! Você é cego porra?! Tá vendo que só cabem duas pessoas aqui!

Romero fez um gesto de mão como se estivesse o dispensando e Miguel o empurrou fazendo com que ele esbarrasse em Vega e Dante que o empurraram de volta para Miguel, que quase esbarrou em mim também, mas meu reflexo foi rápido e me inclinei pra trás a tempo.

— Gente para! — Vega pediu séria. — Tá todo mundo olhando pra cá!

— Sair com esse povo dá nisso! — Dante comentou enquanto acariciava as costas da na-morada.

Miguel e Romero se olharam e viraram a cara um para o outro, parecendo duas crianças birrentas.

— E aí, quem é a garota? — o paraguaio perguntou e Miguel olhou também, pois estava interessado na fofoca. Eu também tava, porém jamais admitiria isso.

— O nome dela é Olívia e ela é irmã do Ben. — Vega revelou baixinho nos deixando surpre-sos.

Então o nome dela é Olívia.

— Mas ele não tem irmã, só um irmão mais novo. — Dante comentou a encarando.

— Na verdade amor, essa garota é prima dele, mas é como se fosse uma irmã caçula. — Vega explicou e assentimos entendendo. — Mika disse que ele a protege e defende de tudo.

— Por que ela tava chorando? — Miguel indagou e eu também queria saber o motivo da sua expressão tristonha.

— Isso eu não sei. — Vega respondeu. — E acho que nem a Mika e nem o Ben sabem, já que eles não tinham ideia de que ela tava vindo pra Barcelona. Ela disse que elas se falam todo dia e estranhou o fato de a Liv, como ela é carinhosamente chamada, não ter respondi-do hoje de manhã.

— Porque ela tava no avião vindo pra cá. — Romero concluiu e Vega assentiu.

— Isso mesmo.

— Será que não é melhor a gente ir embora? — Dante perguntou encarando a gente e a namorada. — Vai que eles tão conversando alguma parada séria e a gente aqui atrapalhan-do.

— Mika disse que a gente podia ficar à vontade. — Vega disse dando de ombros. — Vamos esperar um pouco pra ver.

Eles concordaram e eu fiquei quieto. Continuaram o assunto sobre a misteriosa "irmã" do Ben.

Tito se aproximou parando ao meu lado.

— E aí moleque, tu vai pra onde depois daqui? — ele me perguntou baixinho.

— Acho que pra casa, amanhã tem treino. — respondi no mesmo tom de voz. — Por quê?

— Bora dar um pulo na casa de uma conhecida minha? Tá rolando uma festinha lá, aniver-sário de uma amiga dela.

Um sorriso surgiu em meu rosto. Essas saídas com o Tito até que tão rendendo, sempre tinha alguma gata gostosa disponível. Eu realmente tava precisando daquilo, os treinos estão puxados. Isco está querendo arrancar o nosso couro, isso sem contar minha mãe enchendo minha paciência.

— Bora. Daqui a pouco a gente sai.

— Fechou. — Tito concordou e fizemos um toque. — Vou avisar pra ela que a gente vai.

Tito se afastou digitando algo no celular e eu voltei minha atenção para os malucos ao meu lado.

— Sai caralho! — Miguel gritou empurrando Romero e quase o derrubando do sofá fazendo todo mundo dar risada. Esses dois não tem jeito.

Eu me levantei para ir ao banheiro e quando voltei Ben estava conversando com meus amigos.

— Mas ela tá bem? — ouvi Miguel perguntar quando ia me aproximando e olhei para o brasi-leiro esperando sua resposta.

— Tá sim, foi só um susto. — ele respondeu sorrindo.

Pelo modo como ela chegou aqui eu tinha certeza de que não foi somente um susto, tem mais nessa história.

— Fiquem à vontade e se precisar de qualquer coisa falem comigo ou com a Mika. — Ben continuou. — Eu vou até a portaria pegar as malas da Liv, ela deixou lá com o porteiro.

— Aí cara quer ajuda? — Romero se ofereceu e Miguel olhou para ele.

— Na verdade, eu vou querer sim, se você não se importar é claro. Não sei quanto bagagem ela trouxe, esqueci de perguntar.

— Imagina, bora lá.

— Também vou ajudar. — Miguel também se ofereceu, percebi Dante e Vega tentando se-gurar a risada e fiz o mesmo.

Fiz um sinal para Tito avisando que já estava na hora. Iria aproveitar que Ben tava saindo e já ia embora. Meu amigo entendeu e se aproximou.

— Ben eu já tô indo cara, eu tenho umas coisas pra fazer hoje ainda. Valeu pelo convite.

Miguel e Dante me encararam com curiosidade e nem dei atenção aqueles dois fofoqueiros.

— Imagina cara, eu agradeço por ter vindo. — Ben disse e trocamos um abraço rápido. Tito também agradeceu a ele pelo convite e se despediu.

Saímos todos juntos da mansão e esfreguei meus braços sentindo frio. A temperatura estava caindo bastante a noite. Ainda bem que eu sempre deixava um casaco no carro. Eu e Tito fomos para o estacionamento, Ben, Miguel e Romero foram em direção a portaria.

Me aproximei do meu carro e destravei entrando rapidamente por causa do frio.

Peguei o casaco que estava no banco de trás e vesti. Me olhei no espelho retrovisor ajeitando meu cabelo e abri o porta-luvas, peguei minha carteira e conferi se tinha camisinha, ainda tinha três pacotinhos.

A verdade é que não faz tanto tempo assim que eu perdi a virgindade, mas meus amigos jamais poderiam saber disso, ou eu seria zoado para o resto da minha vida. Ainda tô aprendendo, mas acho que até agora eu me saí bem, ninguém reclamou. Descobri que ten-tar aprender com vídeos pornôs é uma péssima ideia, a vida real é bem diferente. Eu nunca fui muito fã daquilo, assistia alguns só pra ter uma noção mesmo, mas não foi legal.

Guardei as camisinhas no meu bolso e coloquei a carteira de volta onde estava.

Enquanto esperava Tito, conferi meu celular e minha mãe já tinha mandado quase umas trinta mensagens.

Rolei os olhos irritado e decidi gravar um áudio em resposta.

— Só vou chegar mais tarde mãe, e por favor, não fica ligando ou mandando mensagem.

Sabendo que provavelmente ela faria exatamente o contrário do que eu pedi, guardei o celular junto com carteira. Eu realmente tô de saco cheio disso.

A Ferrari de Tito acendeu os faróis e passou ao meu lado buzinando. Buzinei de volta e liguei meu carro enquanto colocava o cinto de segurança.

Manobramos pra fora do condomínio e segui meu amigo pelas ruas de Barcelona.

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