Rainha do Castelo Próprio

Do outro lado da linha, Pedro Albuquerque riu ao ler a mensagem de Maria da Graça. Ele estava em seu apartamento luxuoso, com uma vista panorâmica de São Paulo, ao lado de seu amigo, João Mendes.

"Olha isso, João", disse Pedro, mostrando o celular com desdém. "A caipira está toda animada. 'Mal posso esperar para finalmente te ver'. Patético."

João, que estava sentado em uma poltrona de couro com um copo de uísque na mão, apenas ergueu uma sobrancelha. Ele não disse nada, apenas observou Pedro com uma expressão indecifrável.

"Eu não acredito que você realmente conversou com essa garota por meses", continuou Pedro, jogando-se no sofá. "Sério, que saco. Eu não tenho tempo nem paciência pra lidar com esse tipo de drama. Ainda bem que você vai resolver isso pra mim."

"Eu ainda não disse que iria", respondeu João, sua voz calma e grave contrastando com a agitação de Pedro.

"Ah, qual é? Você tem que ir. Eu não vou encontrar com ela. Imagina? Eu, Pedro Albuquerque, com uma garota que provavelmente ainda usa bota de caubói. Minha reputação iria pro lixo."

João tomou um gole de sua bebida, seus olhos fixos em Pedro.

"E por que eu deveria ir?", ele perguntou.

"Porque você é meu amigo! E porque eu te pago bem para resolver meus problemas. Considere isso um... serviço. Vá lá, encontre a garota, seja legal, diga que eu tive uma emergência de família, sei lá. Dê um dinheirinho pra ela comprar uma passagem de volta pro fim de mundo de onde ela veio e pronto. Fim da história."

João permaneceu em silêncio por um momento, o gelo tilintando em seu copo. Havia algo na forma como Pedro falava de Maria da Graça que o incomodava profundamente. A crueldade casual, o desprezo total.

"Eu vou", disse João, finalmente.

Pedro abriu um sorriso vitorioso. "Eu sabia! Você é o melhor, cara."

"Mas com uma condição", acrescentou João. "Você não vai interferir. Deixe tudo comigo."

"Fechado", disse Pedro, já pegando seu próprio celular para ligar para outra garota. "Só se livre dela. Não quero mais ouvir o nome Maria da Graça."

João observou o amigo, uma pontada de desgosto surgindo dentro dele. Ele conhecia Pedro desde a infância. Sabia de sua arrogância, de sua superficialidade. Mas desta vez, parecia diferente. Havia uma maldade calculada que João não estava disposto a ignorar.

"Por que você está tão interessado nisso, afinal?", Pedro perguntou de repente, olhando para João com uma desconfiança passageira. "Não é do seu feitio se meter nos meus rolos."

"Talvez eu esteja apenas curioso", respondeu João, com um encolher de ombros. "Quero ver como é essa 'garota pobre e ingênua' que conseguiu sua atenção por tanto tempo."

A resposta pareceu satisfazer Pedro, que voltou sua atenção para o telefone.

"Tanto faz. Apenas termine com isso", ele disse, já com a voz mudada, mais suave, para a pessoa do outro lado da linha.

João terminou seu uísque em um gole. Ele tinha seus próprios motivos para ir àquele encontro. Motivos que Pedro, em sua arrogância, jamais conseguiria compreender. Ele iria encontrar Maria da Graça. Mas dispensá-la? Isso ele ainda não tinha decidido.

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