Quando o Amor Não É Suficiente

O cheiro de desinfetante inundava o quarto. Sentia o meu corpo pesado, uma dor surda a espalhar-se pela minha anca.

O meu marido, Pedro, sentou-se ao meu lado, segurando a minha mão. A sua expressão era uma mistura de alívio e preocupação.

"Graças a Deus, Clara. O médico disse que a cirurgia foi um sucesso. O bebé está seguro."

Olhei para a minha barriga, ainda ligeiramente inchada sob o lençol do hospital. O nosso filho. O nosso pequeno milagre, que quase perdemos.

Um acidente de carro. Um condutor bêbado que passou um sinal vermelho. Eu estava a apenas cinco minutos de casa.

O meu telemóvel vibrou na mesa de cabeceira. Era a minha mãe.

Pedro atendeu.

"Sim, sogra. Ela está bem. A cirurgia correu bem, o bebé está estável."

Houve uma pausa. O rosto de Pedro mudou, a sua testa franziu-se.

"O quê? A Sofia está no hospital? O que aconteceu?"

Sofia. A minha meia-irmã. A filha do meu padrasto com a sua primeira mulher, que faleceu há muitos anos.

Pedro continuou a falar ao telefone, a sua voz agora tensa. "Okay, entendo. Sim, claro. Vou já para aí."

Ele desligou e olhou para mim, evitando o meu olhar.

"A Sofia... ela tentou suicidar-se. Tomou um frasco inteiro de comprimidos para dormir. O meu pai encontrou-a. Estão no Hospital da Luz."

O Hospital da Luz ficava do outro lado da cidade.

"Ela está bem?", perguntei, a minha voz rouca.

"Está fora de perigo, mas está muito fraca. O meu pai está desesperado. Precisa de mim lá."

Senti um aperto no peito. "Pedro, eu acabei de sair de uma cirurgia. O nosso filho quase morreu."

"Eu sei, Clara, eu sei", disse ele, levantando-se. "Mas a Sofia... ela não tem mais ninguém. O meu pai está sozinho a lidar com isto. Eu sou o único que ele tem."

Ele inclinou-se e beijou a minha testa. O beijo foi rápido, quase um formalismo.

"Vou só ver como eles estão. Volto o mais rápido que puder. Liga-me se precisares de alguma coisa."

E com isso, ele saiu.

Fiquei a olhar para a porta fechada, a mão dele já não na minha. O quarto de repente pareceu maior, mais frio.

Eu e o nosso filho quase morremos, e ele foi a correr para a irmã que tentou tirar a própria vida.

A ironia era amarga. A vida que eu carregava, lutando para sobreviver, parecia menos importante do que a vida que a Sofia tentou descartar.

Liguei a televisão. O noticiário local falava de um engavetamento na autoestrada, causado por um condutor imprudente. A mesma autoestrada que Pedro teria de apanhar para chegar ao outro hospital.

Pensei em ligar-lhe, em dizer-lhe para ter cuidado. Mas não o fiz.

Em vez disso, desliguei a TV e fechei os olhos, tentando focar-me na pequena vida dentro de mim. A única coisa que realmente importava agora.

A única coisa que eu tinha de proteger. Sozinha.

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