Quando o Amor Morre no Asfalto

Acordei com o cheiro a antisséptico. As paredes brancas e a luz fraca de um quarto de hospital encheram a minha visão. A minha mãe, Laura, estava sentada numa cadeira ao meu lado, os olhos vermelhos e inchados.

Quando ela viu que eu estava acordada, segurou-me na mão. A sua mão estava fria.

"Mãe?", a minha voz era um fio.

Uma lágrima solitária escorreu-lhe pela bochecha. "Oh, minha querida."

A minha outra mão foi imediatamente para a minha barriga. Estava vazia. Lisa. Aquele peso familiar e reconfortante tinha desaparecido.

O meu coração parou. Não, não parou. Partiu-se em mil pedaços.

"O bebé...", comecei, mas não consegui terminar. A verdade estava nos olhos da minha mãe.

Ela abanou a cabeça lentamente, as lágrimas a caírem livremente agora. "Lamento muito, Sofia. Os médicos fizeram tudo o que podiam."

Um som oco saiu da minha garganta. Não era um choro. Era o som de uma alma a ser arrancada. Olhei para o teto, para a janela, para qualquer lugar que não fosse o rosto da minha mãe ou a minha barriga vazia.

Onde estava o Miguel? O pai do meu filho. O meu marido.

A minha mãe pareceu ler-me os pensamentos. "Ele está lá fora. Com a família dele."

A palavra "família" soou estranha. Eu não fazia parte da família dele? O nosso filho não fazia parte?

A porta abriu-se e o Miguel entrou. Tinha o cabelo molhado e a roupa amarrotada. Atrás dele, a sua mãe, Helena, olhava para mim com uma expressão fria.

"Sofia, como te sentes?", perguntou o Miguel, a voz baixa.

Não respondi. Apenas o encarei.

Ele desviou o olhar, desconfortável. "A Clara está traumatizada. Partiu o braço em dois sítios. Está em choque."

Ainda a Clara. Mesmo aqui, mesmo depois de tudo, a primeira preocupação dele era a Clara.

"O nosso filho morreu, Miguel," disse eu, as palavras a saírem diretas, sem emoção. Eu estava vazia por dentro.

Ele estremeceu. "Eu sei. É horrível. Eu..."

"Tu deixaste-me lá," interrompi, a minha voz a ganhar uma força gelada. "Deixaste-me a sangrar para ires salvar a tua irmã de um braço partido."

A mãe dele, Helena, deu um passo à frente. "Como te atreves a falar assim com o meu filho? Ele fez o que qualquer irmão faria! A Clara estava em pânico!"

"E eu estava a perder o meu filho," respondi, virando a minha cabeça para a encarar. "O teu neto."

"Talvez tenha sido para melhor," disse Helena, a sua voz venenosa. "Claramente, não tens instinto maternal. Entraste num carro a chover, foste tu que causaste o acidente."

O ar saiu dos meus pulmões. Olhei para o Miguel, à espera que ele defendesse a sua mulher, a mãe do seu filho morto.

Ele permaneceu em silêncio. Apenas olhou para o chão.

Naquele silêncio, a minha decisão foi tomada. Era tão clara e final como a morte do meu filho.

"Quero o divórcio," disse eu. A minha voz não tremeu.

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