Quando o Amor Morre na UTI

Saí do hospital quando o sol estava a nascer.

As ruas estavam vazias, a cidade ainda a dormir.

Eu sentia-me oca, como se tivessem tirado tudo de dentro de mim.

Fui para casa.

A nossa casa.

A casa que eu e o Miguel tínhamos construído juntos.

Agora parecia o túmulo das minhas esperanças.

Abri a porta.

O Miguel estava sentado no sofá, a dormir.

A sua cabeça estava encostada para trás, a boca ligeiramente aberta.

Ele parecia cansado.

Ao lado dele, no chão, estava uma tigela de sopa vazia e uma caixa de medicamentos.

Para a Sofia, claro.

Caminhei até ele e toquei-lhe no ombro.

Ele acordou sobressaltado.

"Inês? O que se passa? Porque é que a tua cara está assim?"

Ele olhou para o relógio.

"Já é de manhã? Eu adormeci. A Sofia finalmente conseguiu dormir."

Eu olhei para ele.

Não havia dor nos seus olhos, apenas cansaço e irritação.

"O Pedro morreu," disse eu.

A minha voz era plana, sem emoção.

Ele franziu a testa, como se não tivesse entendido.

"O quê? Do que estás a falar? Morreu? Como assim?"

"Ele parou de respirar. O coração dele parou."

O Miguel levantou-se de repente.

"Isso é impossível! Era só uma febre! Tu exageras sempre!"

"Os médicos disseram que era pneumonia grave."

Ele passou as mãos pelo cabelo, andando de um lado para o outro na sala.

"Merda! Porque é que não me ligaste mais vezes? Porque é que não me disseste que era assim tão sério?"

"Eu liguei. Tu desligaste o telefone."

"Eu estava ocupado! A Sofia estava a arder em febre, ela podia ter tido uma convulsão! Ela estava sozinha e assustada!"

Sozinha e assustada.

E eu? E o nosso filho?

"Ela é uma mulher adulta, Miguel. O nosso filho era uma criança."

Ele parou e olhou para mim, a sua cara vermelha de raiva.

"Estás a culpar-me? É isso? Estás a dizer que a culpa é minha?"

"Eu não estou a dizer nada. Estou a constatar um facto. O nosso filho morreu, e tu não estavas lá."

"Eu não podia estar em dois sítios ao mesmo tempo!" gritou ele.

"Tu fizeste uma escolha."

Ele aproximou-se de mim, o seu dedo apontado para a minha cara.

"Não te atrevas, Inês. Não te atrevas a pôr a culpa em mim. Nós vamos superar isto juntos, como uma família."

Família.

Que piada.

Olhei para o rosto dele, o rosto que eu já amei tanto.

Agora, só sentia nojo.

"Não há 'nós'," disse eu calmamente. "Eu quero o divórcio."

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