Quando a Febre Arde, e o Amor Esfria

Conduzi até ao hospital que a minha sogra mencionou.

O meu coração batia descontroladamente no meu peito.

Uma parte de mim queria acreditar que era tudo um mal-entendido.

A outra parte sabia, com uma certeza terrível, o que eu ia encontrar.

Encontrei o quarto da Sofia facilmente. A porta estava entreaberta.

Lá dentro, o Pedro estava sentado ao lado da cama, a descascar uma maçã com cuidado.

A luz do sol da manhã entrava pela janela, iluminando o seu perfil. Ele parecia cansado, mas os seus movimentos eram gentis.

A Sofia, deitada na cama, olhava para ele com uma expressão de adoração.

"Pedro, obrigada por ficares comigo a noite toda. Eu estava com tanto medo."

A voz dela era fraca e lamentosa.

"Não te preocupes. Eu estou aqui," respondeu o Pedro, sem levantar a cabeça.

Ele cortou um pequeno pedaço da maçã e levou-o à boca dela com o garfo.

A cena era tão íntima, tão doméstica.

Como se eles fossem o verdadeiro casal.

E eu era a intrusa.

A minha filha esteve com febre a noite toda, a chamar pelo pai. E ele estava aqui, a cuidar de outra mulher.

A raiva subiu pela minha garganta, a queimar.

Empurrei a porta com força. O som fez com que ambos se virassem para mim, surpreendidos.

O Pedro levantou-se de repente, a faca e a maçã caíram no chão com um baque.

"Ana? O que estás a fazer aqui?"

O seu rosto estava pálido.

"Eu é que te pergunto," disse eu, a minha voz a tremer de fúria. "A tua filha esteve no hospital a noite toda. Eu liguei-te cem vezes. E tu estavas aqui?"

A Sofia começou a tossir, o rosto a contorcer-se de dor.

"Pedro... o meu peito dói..."

O Pedro virou-se imediatamente para ela, a preocupação a tomar conta do seu rosto. "Sofia, estás bem? Vou chamar a enfermeira."

Ele ignorou-me completamente.

Como se eu não existisse.

"Pedro!" gritei, a minha voz a quebrar-se.

Ele finalmente olhou para mim, a sua expressão irritada.

"Podes parar de fazer uma cena? Não vês que a Sofia está doente? A Lia já está bem, não está? Tu és a mãe dela, podes cuidar dela. A Sofia está sozinha, não tem ninguém."

As suas palavras atingiram-me como um soco no estômago.

"Ela não tem ninguém? E eu? E a tua filha? Somos o quê para ti?"

"Ana, não sejas irracional," disse ele, a sua voz a baixar, como se estivesse a falar com uma criança birrenta. "Falamos disto em casa. Agora vai."

Ele virou-me as costas e voltou para o lado da Sofia.

Fiquei ali, paralisada, a vê-lo a confortá-la.

O mundo à minha volta parecia estar a desmoronar-se.

O homem que eu amava, o pai da minha filha, tinha escolhido outra pessoa.

E ele nem sequer sentia remorsos.

Virei-me e saí. Sem olhar para trás.

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