Por Amor aos Meus Filhos: A Força de Uma Mãe

O Miguel apareceu uma hora depois.

Não entrou a correr, preocupado. Entrou devagar, com uma expressão irritada, como se tivesse sido forçado a vir a um compromisso chato.

A Sara estava com ele.

Ela agarrava-se ao seu braço, o rosto pálido e os olhos vermelhos de tanto chorar. Parecia que era ela a doente.

"Onde está o médico? Quero ver esses exames," disse o Miguel, sem sequer olhar para mim.

A minha sogra, Elvira, bloqueou-lhe o caminho.

"Primeiro, vais ver o teu filho. Ele acordou e está a chamar por ti."

O Miguel hesitou, olhando para a Sara, que se encolheu como se estivesse com frio.

"Eu espero aqui fora, Miguel," sussurrou ela. "Isto é demais para mim."

Ele acenou e entrou no quarto.

Eu segui-o. O Leo, ao ver o pai, tentou sorrir.

"Papá..."

O Miguel aproximou-se da cama. A sua expressão suavizou-se um pouco ao ver o nosso filho tão pálido.

"Olá, campeão. O papá está aqui."

Ele ficou ali por talvez cinco minutos. Falou sobre futebol, prometeu comprar-lhe um novo jogo de vídeo. Depois, virou-se para sair.

"Vou falar com o médico," disse ele, já no corredor.

Encontrámos o médico, que explicou novamente a situação. A urgência do transplante. A necessidade de testes de compatibilidade imediatos.

O Miguel ouviu, impaciente.

"Ok, ok, eu faço o teste. Onde é que se faz isso?"

Enquanto uma enfermeira o levava para a colheita de sangue, a Sara aproximou-se de mim. Os seus olhos estavam cheios de lágrimas.

"Ana, eu sinto muito. Eu não sabia que era tão grave. O Miguel estava tão preocupado comigo, eu... eu tenho tido ataques de pânico."

"O meu filho tem cancro, Sara."

A minha voz saiu fria, sem emoção.

Ela recuou, como se eu lhe tivesse batido.

"Eu sei... é horrível. Se houver alguma coisa que eu possa fazer..."

"Podes," interrompi-a. "Podes deixar o meu marido em paz para que ele se possa concentrar no filho dele."

A sua cara contorceu-se em mágoa.

"Eu nunca quis causar problemas. O Miguel é só... ele é a única família que me resta."

Antes que eu pudesse responder, o Miguel voltou. Ele passou o braço pelos ombros da Sara.

"Vamos. Já fiz o que tinha a fazer. Eles ligam com os resultados."

"Não vais ficar?" perguntei, incrédula. "O Leo pode acordar a qualquer momento."

"A Sara não está bem," disse ele, como se isso explicasse tudo. "Ela precisa de descansar. E eu também, trabalhei o dia todo."

Ele nem sequer tinha perguntado se eu tinha comido, se eu precisava de alguma coisa.

Eles viraram-se e foram-se embora, o Miguel a amparar a Sara como se ela fosse feita de vidro.

Fiquei a vê-los desaparecer no fim do corredor. A minha sogra veio para o meu lado e pôs uma mão no meu ombro.

"Ele vai arrepender-se disto, Ana. Ele vai."

Mas eu não tinha a certeza. Naquele momento, parecia que o Miguel já vivia num mundo diferente, um mundo onde a sua prima frágil era o centro, e o seu próprio filho era apenas uma obrigação inconveniente.

Voltei para o quarto do Leo e sentei-me na cadeira ao lado da sua cama. Peguei na sua mãozinha quente.

A guerra pela vida do meu filho tinha acabado de começar, e eu percebi que teria de a lutar sozinha.

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