Pecador

Amous

Dois anos depois

Em algum lugar do Maine, nos Estados Unidos

— Eu não quero que sobre qualquer um.

— O FBI vai desejar interrogá-los — Blood diz, ao meu lado,

fora da casa que estamos prestes a invadir, em um canto perdido no

Maine[3]

.

— O FBI teve tempo mais do que o suficiente para salvá-lo e

não o fez. Os federais trabalham dentro da legalidade, o que nesse

caso, não serviu para porra nenhuma. Já nós, fazemos nossas

próprias leis.

Eu participei, tanto quando ainda trabalhava ativamente em

missões para nossa empresa de segurança, quanto na época em

que fui soldado das forças especiais do exército, no resgate de

sequestrados. Não saberia dizer o número de vítimas que já libertei,

mas tenho um ódio particular por quem comete tais atos contra

vulneráveis, sejam crianças ou idosos.

Até mesmo para criminosos há um código moral, algo de

sagrado, mas os malditos com os quais estamos lidando agora

parecem não se importar com nada.

— Por que estamos nos metendo, em primeiro lugar? Eles

são praticamente uma gangue, pelo que apuramos e não uma

organização, Amos.

— Porque miram sempre em idosos incapazes de se

defender. Já é o quinto sequestro em sete meses. Em todos, os

resgates foram pagos. Nenhuma das vezes a vítima voltou para a

família. Essa merda acaba hoje.

— Tudo bem, já entendi. Entramos e pegamos a vítima. Não

deve sobrar testemunha do resgate. Nenhum dos filhos da puta

envolvido nisso verá o sol nascer amanhã.

Aceno com a cabeça, já absolutamente concentrado no que

preciso fazer.

Sinto meu corpo inteiro tenso, pronto para a batalha, mas não

é apenas o desejo de salvar o senhor de noventa e sete anos, um

juiz aposentado, o que me faz querer acabar com a raça dos filhos

da puta, e sim o meu mais absoluto desprezo pelos covardes.

Crianças e idosos são os dois lados da mesma moeda.

Ambos em situação de vulnerabilidade física. E saber que uma

gangue de sequestradores se especializou em alvejá-los, faz com

que meu desejo por sangue eleve-se além do normal.

Na escuridão da madrugada, apenas as luzes de visão

noturna nos óculos nos guiam. Vejo a movimentação dos nossos

homens, se esgueirando por entre a vegetação.

A casa em que o juiz está sendo mantido parece abandonada

e foi preciso montar um verdadeiro quebra-cabeça tecnológico com

o uso de drones para conseguirmos identificar a localização em

meio à região pantanosa, o que, para mim, significa que os

criminosos não são tão inexperientes assim. Primeiro porque focam

apenas em milionários e segundo, porque levam meses estudando

suas vítimas até conseguirem sequestrá-las.

O resgate deveria ser pago amanhã, o que significa que o juiz

tem poucas horas de vida se eles seguirem o roteiro dos crimes

anteriores: assim que colocam as mãos no dinheiro, o contato cessa

e nunca mais se ouve falar no sequestrado.

Eles não deixam pistas para trás — ou melhor dizendo, não

deixam pistas visíveis para a polícia —, mas nossa especialidade é

fazer o que os que atuam dentro da lei não são capazes,

ultrapassando a barreira da legalidade de acordo com nosso

interesse.

Do lado de fora da casa, há apenas um automóvel, um

furgão, mas não é isso o que me chama a atenção e sim, o que está

escrito nele: frigorífico.

Repulsa se espalha por mim quando eu entendo rapidamente

por que nenhuma das vítimas jamais foi encontrada.

— Blood — chamo e aponto para o carro.

Ele segue a direção do meu dedo e quando volta a me

encarar, sei que entendeu tudo.

— Foda-me! Eles trituram os idosos.

— E ainda acha que vou entregá-los para a polícia? Mudei de

ideia. Tiraremos o juiz daqui. Descubra quem é o líder lá dentro.

Vamos interrogá-lo.

Eu vejo um dos nossos homens aproximando-se da única

janela. A ação precisa ser muito rápida para garantir que o juiz não

seja alvejado em uma tentativa de queima de arquivo.

Os nossos comunicadores emitem um som suave, quase ao

mesmo tempo, e aquela é a deixa para que comece a ação.

Estamos fortemente armados e todos dispostos a matar e a

morrer, como em qualquer missão que assumimos.

Há apenas uma entrada na casa, o que facilitará nossa ação

também. Todo o imóvel está cercado e não importa quem esteja lá

dentro, eles não têm a menor chance.

Eu já ouvi, vezes sem conta, o barulho infernal de quando um

tiroteio tem início e em todas, ao contrário do que acontece com a

maioria das pessoas, o som me acalma.

Os gritos agonizantes de dor dos criminosos são como um

bálsamo para as feridas que carrego dentro de mim.

Vê-los implorar pela morte me arranca sorrisos. Os pedidos

por misericórdia são minha ideia de justiça.

Como previra, a entrada foi rápida porque eles não

esperavam o ataque. Apenas um dos nossos homens foi atingido,

mas estava protegido com o colete à prova de balas.

E em menos de cinco minutos, estávamos dentro com tudo

finalizado.

Um dos meus mais antigos soldados volta correndo pelo

corredor.

— Encontrei o juiz, mas ele está completamente fora do ar.

Provavelmente drogado. Eu vou tirá-lo daqui.

Aceno com a cabeça, concordando.

— Eram os únicos? — pergunto, apontando para os merdas

mortos pelo chão.

Como se tivesse sido combinado, Blood volta, arrastando um

homem em uniforme de xerife.

— Você tinha razão, Amos. Nem tão desorganizados assim.

Esse é o líder.

— O xerife local? — pergunto só para confirmar, as palavras

saindo como ácido da minha boca.

Blood responde.

— O que quer fazer com ele?

O filho da puta ri.

— Não sei quem são vocês, mas não vão se safar dessa.

Tenho contato com…

Ele não termina de falar. Blood lhe aplica um mata-leão,

desacordando-o.

— Eu odeio os arrogantes — diz, dando de ombros. — Mas

ele tem razão em uma parte: teremos que ser cuidadosos. É um

filho da puta, mas ainda assim, um xerife. O que quer que eu faça?

— Interrogue-o. Depois, dê a ele o mesmo destino dos

outros.

— E em seguida, incendiamos a casa, como sempre?

— Não. Eles não merecem ter o direito de serem enterrados.

Se o fogo não os consumir, pode sobrar algo. Use o caminhão

frigorífico. Faça-os desaparecerem nas máquinas. Somente então,

ateiem fogo.

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