O médico entregou-me um envelope. Dentro, não estava um relatório de saúde, mas sim as fotos do meu marido, Pedro, com outra mulher. O nome dela era Sofia.
"Senhora Alves, o seu marido tem vindo a acompanhar a Srta. Sofia para os exames pré-natais dela há três meses. Achei que precisava de saber."
A voz do Dr. Mendes era calma, mas cada palavra atingia-me com força.
Eu estava sentada no seu consultório, com os meus próprios resultados de exames na mão. O relatório dizia que eu tinha cancro do pâncreas em estado avançado. Restavam-me apenas seis meses de vida.
Seis meses. E o meu marido, o homem com quem eu partilhava a cama todas as noites, estava a construir uma nova família pelas minhas costas.
"Obrigada, Dr. Mendes", disse eu, a minha voz surpreendentemente firme. Guardei as fotos no meu saco.
Saí do hospital e o sol de Lisboa brilhava intensamente, mas eu sentia um frio profundo.
Liguei ao Pedro. Demorou a atender.
"Ana? O que foi? Estou ocupado." A voz dele soava distante, impaciente.
"Onde estás, Pedro?"
"Estou numa reunião importante. Não me incomodes com coisas sem importância. Falamos à noite."
Ao fundo, ouvi uma voz de mulher, suave e um pouco queixosa. "Pedro, o bebé está a dar pontapés outra vez. Vem sentir."
Uma pausa. Depois o som de um beijo abafado.
"Tenho de ir", disse o Pedro apressadamente, e desligou.
Eu fiquei ali, no meio da calçada, com o telemóvel na mão. Reunião importante. Era a essa "reunião" que ele se referia.
O meu cancro, a traição dele. Parecia que o meu mundo inteiro estava a desmoronar-se de uma só vez.
Naquela noite, o Pedro chegou a casa tarde, a cheirar a um perfume de mulher que não era o meu.
Ele entrou na cozinha onde eu estava sentada no escuro.
"Ana? Porque não acendeste a luz? Assustaste-me."
"Tivemos um bom dia?" perguntei, a minha voz vazia de emoção.
"Foi cansativo. Muitas reuniões", disse ele, abrindo o frigorífico para pegar numa garrafa de água. "O que há para o jantar?"
"Não cozinhei."
Ele virou-se, irritado. "Não cozinhaste? Sabes que chego a casa exausto. O que se passa contigo ultimamente?"
"Pedro", disse eu, olhando diretamente para ele. "Vamos divorciar-nos."
Ele riu, um som seco e incrédulo. "Divorciar-nos? Estás a brincar? Porquê? Porque não fizeste o jantar?"
"Porque estás a ter um caso. Porque a tua amante está grávida."
O sorriso desapareceu do seu rosto. Ele ficou pálido. Por um momento, não disse nada, apenas me encarou.
"Quem te disse isso?", sibilou ele finalmente.
"Isso importa?"
A raiva tomou conta das suas feições. "Estás louca, Ana! Andas a espiar-me? É isso? Depois de tudo o que eu faço por ti, é esta a tua gratidão?"
"Gratidão? Por me traíres?"
"Eu não te traí!", gritou ele. "A Sofia... ela é só uma amiga. Ela está a passar por um momento difícil. O namorado abandonou-a. Eu só a estou a ajudar!"
"Ajudá-la a ter um bebé? O teu bebé?"
O silêncio dele foi a única resposta de que eu precisava. O meu coração, que eu pensava já estar partido, partiu-se um pouco mais.
"Não te vou dar o divórcio", disse ele friamente. "Não vais arruinar a minha vida por causa dos teus ciúmes estúpidos. Pensa na tua reputação. Pensa na nossa família."
Ele virou-me as costas e saiu da cozinha. Ouvi a porta do quarto a bater.
Fiquei sentada no escuro, o silêncio da casa a ecoar a minha solidão. Família. Ele ousava falar de família.





