Helena POV:
O cheiro de café velho ainda grudava nas minhas roupas, um lembrete amargo do meu último ato de servidão. Mas desta vez, era diferente. Desta vez, enquanto eu caminhava em direção ao RH, havia uma leveza em meus passos, um propósito desafiador em minha passada. A dor no meu estômago ainda estava lá, uma dor surda, mas era ofuscada por uma resolução feroz.
O departamento de RH, geralmente um espaço estéril e silencioso, pareceu estranhamente acolhedor. Dona Célia, uma mulher de rosto gentil que estava na firma há mais tempo que qualquer um, ergueu os olhos do computador, sua expressão se suavizando quando me viu. "Helena, querida. Que surpresa. Entre, entre."
Sentei-me na cadeira em frente a ela, minha pasta apoiada na perna. "Dona Célia", comecei, minha voz firme apesar do tremor em minhas mãos. "Estou aqui para pedir demissão."
Ela piscou, seu rosto geralmente composto mostrando um lampejo de choque genuíno. "Demissão? Helena, você está falando sério? Você acabou de... acabou de perder a promoção para sócia júnior, eu sei, mas pensei que você fosse ficar e lutar por ela no próximo ano." Seu olhar continha uma pena conhecedora. Todos sabiam sobre Beatriz. Todos sabiam sobre Bernardo.
"Estou falando sério", confirmei, encontrando seus olhos. "Com efeito imediato."
Ela se inclinou para frente, sua voz baixa. "Bernardo sabe disso?"
Uma risada sem humor escapou dos meus lábios. "Não. E ele não saberá até que esteja feito." Fiz uma pausa e acrescentei: "Se a senhora puder agilizar o processo, ficarei grata."
Dona Célia me estudou por um longo momento, seus olhos perscrutando os meus. Então, um sorriso pequeno e triste tocou seus lábios. Ela assentiu lentamente. "Eu entendo, Helena. De verdade. Você é uma das melhores, sabe. Um ativo absoluto para esta firma. Bernardo... ele está cometendo um erro do qual se arrependerá."
Suas palavras foram um bálsamo para meus nervos em frangalhos. Eu simplesmente assenti, um nó apertado se formando na minha garganta. "Obrigada, Dona Célia."
Ela começou a digitar, seus dedos voando pelo teclado. O ar se encheu do silencioso clique-claque das teclas, um som de finalidade. Era isso. A ruptura oficial.
Meu celular vibrou, vibrando contra minha coxa. Bernardo. Ele estava ligando. De novo. Ignorei. Eu o ignorava desde que enviei aquele único e desafiador "Não". Ele ligou três vezes, mandou duas mensagens, cada uma se tornando progressivamente mais exigente.
Dona Célia terminou de digitar. Ela deslizou um formulário pela mesa. "Apenas assine aqui, Helena. E seu pagamento final será processado até o final da semana."
Peguei a caneta, minha mão firme agora. Assinei meu nome, um floreio de liberdade. Foi surpreendentemente bom. Como se estivesse me livrando de uma pele pesada.
"Helena", disse Dona Célia, sua voz gentil, "ele está tentando falar com você. Ele também tem ligado para o meu escritório, perguntando se eu te vi. Ele parece... frenético."
Eu apenas balancei a cabeça. "Não importa mais."
Quando me levantei para sair, meu celular vibrou novamente, uma nova mensagem. Olhei para a tela. Era Bernardo. "Helena, que porra está acontecendo? Minha assistente acabou de me dizer que você se demitiu. Você não pode estar falando sério. Venha ao meu escritório. Agora. Precisamos conversar. Isso é infantil."
Infantil. Essa era sua palavra favorita para qualquer coisa que desafiasse seu controle. Ele sempre achou que poderia resolver as coisas, oferecer uma concessão, uma bugiganga, e eu voltaria à linha. Ele fez isso inúmeras vezes. Após o aborto, quando eu era uma casca de mim mesma, ele me comprou uma pulseira de diamantes. "Por ser tão compreensiva", ele disse. Quando descobri que ele tinha feito uma viagem de fim de semana com outra associada para uma "reunião com cliente", ele se desculpou profusamente, chamando de "mal-entendido", e reservou uma escapada romântica para nós. Eu, sempre a tola esperançosa, sempre acreditei nele. Sempre aceitei seus gestos superficiais como remorso genuíno.
Mas não desta vez. A náusea de mais cedo voltou, mas desta vez, era puro nojo. O pensamento de suas mãos em mim, suas palavras suaves, suas desculpas calculadas... me dava arrepios.
Ele seguiu com outra mensagem. "Eu vou consertar as coisas, Helena. Seja o que for. Diga o seu preço. Podemos viajar neste fim de semana. Só nós dois. Como nos velhos tempos."
Como nos velhos tempos. Ele achava que poderia me comprar de volta com uma viagem de fim de semana e promessas. Ele achava que eu era tão fácil de manipular.
Meu olhar vagou para a lixeira ao lado da mesa de Dona Célia. Uma embalagem de doce velha e amassada jazia no fundo. Parecia apropriado.
Digitei uma resposta. Uma palavra. "Adeus."
Hesitei, depois acrescentei: "Não entre em contato comigo de novo." E enviei.
Era isso. O corte final. Eu nunca me recusei a ficar na casa dele quando ele pedia, nunca o excluí de verdade. Nenhuma vez em oito anos.
Meu celular permaneceu em silêncio. Por um longo momento, um silêncio enervante se estendeu entre Dona Célia e eu. Parecia que todo o escritório prendia a respiração.
Então, um pensamento súbito e desconhecido me ocorreu. Ele não estava em silêncio porque estava com raiva. Ele estava em silêncio porque estava chocado. Ele genuinamente não conseguia compreender que eu, Helena Tavares, sua "assistente jurídica de graça", sua "mercadoria avariada", finalmente tinha ido embora. Ele ainda achava que eu estava apenas fazendo birra, que eu voltaria rastejando. Ele ainda acreditava que eu era dele.
Ele teria um despertar rude.





