O Veneno na Paella

A primeira coisa que senti foi o cheiro de antisséptico.

Abri os olhos, a luz do quarto do hospital era forte demais, e a minha garganta estava seca e arranhava.

Uma enfermeira ajustava o soro ao meu lado, o seu rosto era uma máscara de profissionalismo calmo.

"Onde está o meu bebé?"

A minha voz saiu como um sussurro rouco, quase inaudível.

A enfermeira parou o que estava a fazer, o seu olhar suavizou com uma pena que eu não queria ver.

"A reação alérgica foi muito severa, o seu corpo sofreu um choque anafilático. Fizemos tudo o que podíamos, mas o stress foi demasiado para a gravidez."

Ela não precisou de dizer as palavras.

Eu já sabia.

O meu bebé, o meu filho de cinco meses que eu mal começara a sentir mexer, tinha-se ido.

A mão que levei à minha barriga encontrou apenas um vazio macio. A pequena curva que eu amava acariciar tinha desaparecido.

As lágrimas que eu pensei que viriam não vieram, em vez disso, um frio instalou-se no meu peito, um vazio gelado que espelhava o da minha barriga.

Peguei no meu telemóvel na mesinha de cabeceira, os meus dedos tremiam.

Precisava de ligar ao Marcos, o meu marido.

O telefone chamou uma, duas, três vezes. No quarto toque, ele atendeu.

Não houve um "Estás bem?". Não houve um "O que aconteceu?".

Apenas irritação.

"Clara? O que foi agora? Estou ocupado."

A sua voz estava abafada, ouvi a voz da irmã dele, a Sofia, a choramingar ao fundo.

"Marcos, o bebé..."

"O que tem o bebé? A Sofia não está a sentir-se bem, preciso de cuidar dela. Ela comeu um pouco daquela paella também, coitada, está com dores de estômago terríveis."

Paella. A paella de marisco que a minha sogra, a Laura, insistiu que eu provasse no jantar de família. A paella que eu recusei educadamente, lembrando a todos da minha alergia mortal a marisco. A paella da qual um pedaço de camarão apareceu misteriosamente no meu prato.

"Marcos, eu perdi o bebé."

Silêncio do outro lado da linha.

Não um silêncio de choque ou de dor. Era um silêncio de quem foi apanhado.

"Olha, Clara, isso é... é terrível. Mas não podes culpar a Sofia, foi um acidente. Ela sente-se culpada, está aqui a chorar sem parar."

Ele estava a defender a irmã dele.

Naquele momento, enquanto eu estava deitada numa cama de hospital, sozinha, depois de perder o nosso filho, ele estava em casa a consolar a mulher que me envenenou.

"Um acidente?" A minha voz era baixa, perigosamente calma. "Ela olhou-me nos olhos, Marcos. Ela viu-me a lutar para respirar."

"Não sejas dramática, Clara. A minha mãe já está a caminho do hospital para ficar contigo. Eu preciso de ficar aqui, a Sofia precisa de mim. Conversamos depois."

Ele desligou.

Eu olhei para o ecrã escuro do telemóvel.

A minha sogra, Laura, estava a caminho. A mulher que ficou a ver enquanto a filha dela punha camarão no meu prato e sorria.

Naquele quarto de hospital estéril, com o cheiro de luto e desinfetante, eu tomei uma decisão.

Era hora do divórcio.

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