O Vazio Que Ele Deixou

Passei as horas seguintes num torpor silencioso. As enfermeiras entravam e saíam, verificavam os meus sinais vitais, trocavam o soro.

Eu respondia com monossílabos.

"Sim."

"Não."

"Obrigada."

Por volta do meio-dia, a porta do quarto abriu-se de rompante.

Era o Leo. Tinha o cabelo despenteado e uma expressão de preocupação forçada no rosto.

"Ana! Meu Deus, o que aconteceu? A tua vizinha ligou-me agora! Diz que passaste a noite no hospital. O meu telemóvel ficou sem bateria, só o vi agora."

Ele aproximou-se da cama, tentando pegar na minha mão.

Eu afastei-a.

O meu silêncio pareceu desconcertá-lo. Ele olhou à volta do quarto, para o monitor, para o saco de soro.

"Então? O que disse o médico? Estás bem? E o bebé?"

A sua voz era leve, quase casual, como se estivesse a perguntar pelo tempo.

Olhei diretamente para ele, pela primeira vez. Vi os seus olhos, não a preocupação que ele tentava fingir, mas a impaciência por baixo.

"O bebé morreu, Leo."

A minha voz saiu fria e sem emoção, como se estivesse a ler uma lista de compras.

A cara dele mudou. O choque pareceu genuíno por um segundo, mas foi rapidamente substituído por outra coisa. Fúria.

"O quê? Como assim, morreu? O que é que tu fizeste?"

Eu ri. Um som seco e feio que arranhou a minha própria garganta.

"Eu? O que é que eu fiz?"

"Sim, tu! Foste descuidada? Comeste alguma coisa que não devias? Eu disse-te para teres cuidado!"

Ele estava a andar de um lado para o outro no pequeno quarto, a gesticular, a sua voz a subir de tom.

"Tu encomendaste a comida, Leo."

Ele parou. Olhou para mim, confuso.

"O quê?"

"Tu encomendaste o jantar. Do restaurante. Disseste que era o prato do costume."

"Sim, e então? Eu fiz-te um favor! Estava ocupado numa reunião importante!"

"A festa de aniversário da Sofia era uma reunião importante?"

O sangue fugiu do rosto dele. Ele ficou pálido, a boca a abrir e a fechar sem emitir som.

"Eu vi as fotos, Leo. Tu e ela. A sorrir. Enquanto eu estava aqui, a sufocar no chão do nosso apartamento."

"Não é o que parece," ele gaguejou. "A Sofia estava a sentir-se em baixo, os pais pediram-me para a animar. Foi só um jantar rápido."

"Dezoito chamadas, Leo. Eu liguei-te dezoito vezes. O meu telemóvel regista a duração de cada tentativa. Nenhuma foi atendida. Nenhuma foi retornada. Não estava sem bateria. Estava no silêncio, para não te incomodar enquanto cantavas os parabéns."

Ele ficou sem palavras. A culpa estava estampada na sua cara.

"Eu... eu não sabia que era tão grave."

"Tu sabias da minha alergia. Sabias o que o marisco me faz."

"Foi um erro! O restaurante deve ter trocado os pedidos! Não foi culpa minha!"

Ele estava a gritar agora, a sua defesa a transformar-se em ataque.

"Divórcio," eu disse, com a mesma calma gelada de antes.

Ele olhou para mim como se eu tivesse enlouquecido.

"Divórcio? Estás a brincar? Por causa de um acidente? Vais deitar fora o nosso casamento por causa disto?"

"Não foi um acidente. Foi uma escolha. Tu escolheste a Sofia em vez de mim e do teu filho. E agora o teu filho está morto. Portanto, sim. Divórcio."

Virei o rosto para a janela, a conversa terminada.

Ele ficou ali parado por um longo momento, a respirar pesadamente. Depois, saiu do quarto, batendo a porta com força.

Sozinha outra vez, finalmente permiti que uma única lágrima escorresse pelo meu rosto.

Não de tristeza. De raiva.

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