O Silêncio da Guitarra Quebrada

Hugo acordou na sua própria cama. O seu corpo doía e ele tinha febre alta, uma consequência inevitável da noite anterior. Um médico particular, chamado por Juliette, tinha-lhe administrado medicamentos e agora estava a dormir um sono inquieto.

Ele abriu os olhos e viu Juliette sentada numa poltrona ao lado da cama, a olhar para o seu telemóvel com um sorriso. Ao lado dela, de pé, estava Leonel Acosta, o surfista. O seu ar era arrogante, e ele olhava para Hugo com um desprezo mal disfarçado.

"Olha quem acordou," disse Leonel com um tom de escárnio. "A primadona do fado."

Juliette nem sequer levantou o olhar do telemóvel. "Leonel, não sejas mau. Ele está doente." A sua voz era desinteressada, como se estivesse a falar do tempo.

Hugo sentou-se, a cabeça a latejar. "O que é que ele está a fazer aqui?"

"Eu convidei-o," disse Juliette, finalmente olhando para ele. O seu olhar era frio. "Ele veio para ouvir o teu pedido de desculpas."

"Pedido de desculpas? Porquê?"

Leonel riu-se. "Por me teres ameaçado, claro. Por teres tentado sabotar a minha carreira. Juliette contou-me tudo."

Hugo olhou para Juliette, incrédulo. Ela tinha acreditado na sua mentira forçada e agora estava a usá-la contra ele.

"Isso não é verdade," disse Hugo, a sua voz fraca.

"Não interessa," disse Juliette, levantando-se. Ela aproximou-se da cama, o seu perfume caro a encher o ar. "Vais pedir desculpa ao Leonel. Agora."

Dois seguranças corpulentos entraram no quarto, posicionando-se atrás de Juliette. A mensagem era clara.

Hugo olhou para os rostos impassíveis dos seguranças, para o sorriso trocista de Leonel, e para o olhar gelado de Juliette. Ele sentiu-se encurralado, impotente.

"Desculpa," murmurou ele, sem olhar para Leonel.

"Não ouvi," disse Leonel, aproximando-se.

"Pede desculpa como deve ser, Hugo," insistiu Juliette. "Ou os meus homens vão ajudar-te a encontrar a tua voz."

Com o maxilar cerrado, Hugo olhou para Leonel. "Peço desculpa por te ter dito para te afastares da Juliette."

Leonel sorriu, satisfeito. Ele virou-se para Juliette e beijou-a longamente, à frente de Hugo. "Estás a ver? Eu disse-te que ele era fácil de domar."

Depois do beijo, Leonel afastou-se de Juliette e disse com um ar dramático: "Juliette, meu amor, depois disto... acho que não podemos continuar. Este homem, o teu marido, está entre nós. É uma sombra constante."

Juliette pareceu alarmada. "O que queres dizer, Leonel? O que posso fazer?"

Leonel olhou para Hugo com desprezo. "Divorcia-te dele. Livra-te dele. Só assim poderemos ter um futuro."

O mundo de Hugo desabou. Divórcio. A palavra ecoou na sua cabeça.

Juliette não hesitou. Ela olhou para Hugo, o seu rosto uma máscara de indiferença. "Ouviste. Vamos divorciar-nos. Vou dar-te uma compensação generosa. Podes comprar uma casa, viver confortavelmente. Mas vais desaparecer da minha vida."

Leonel passou o braço à volta da cintura de Juliette. "E vamos anunciar o nosso noivado na próxima gala de caridade. Vai ser o evento do ano."

Eles saíram do quarto, rindo, deixando Hugo sozinho com os seguranças e o eco das suas palavras. O amor não era nada. Era uma transação. E ele tinha acabado de ser vendido pelo preço de um novo brinquedo.

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