O Segredo de Três Anos

O café estava quase vazio, o cheiro a grãos torrados pairava no ar.

O Miguel já estava lá, sentado numa mesa junto à janela, a olhar para a rua.

Ele parecia mais magro, com olheiras escuras debaixo dos olhos.

Coloquei os papéis do divórcio e o teste de ADN na mesa.

Ele nem sequer olhou para os papéis. Os seus olhos estavam fixos em mim, frios e distantes.

"Eu assino," disse ele, com a voz rouca. "Mas tenho condições."

"Que condições?" perguntei, a minha voz a tremer ligeiramente.

"A guarda total do Leo. E tu renuncias a todos os direitos parentais. Nunca mais o verás."

As palavras dele atingiram-me como um golpe físico.

"Não. Miguel, não podes fazer isso. Ele é meu filho."

Um sorriso amargo torceu os seus lábios.

"Ele não é meu filho. O teste de ADN prova isso. Então, porque é que eu o haveria de criar?"

"Porque o amas! Tu criaste-o durante três anos!"

"Eu amava o rapaz que eu pensava ser meu filho," ele corrigiu, a sua voz a subir. "O que é que eu deveria fazer agora, Ana? Olhar para ele todos os dias e ver o rosto do David? Ver a tua traição?"

Baixei o olhar, a vergonha a queimar-me.

"Foi um erro, Miguel. Eu estava bêbada, eu..."

"Poupem-me das tuas desculpas," ele interrompeu. "Tu mentiste-me durante três anos. Cada vez que eu pegava no Leo, cada vez que eu o beijava para dormir, era tudo uma mentira."

Ele fez uma pausa, respirando fundo.

"Eu não quero o teu dinheiro. Podes ficar com a casa, o carro. Eu não me importo. Mas o Leo... ou ficas com ele e eu desapareço para sempre, ou eu fico com ele e tu desapareces."

O seu ultimato pairou no ar, pesado e sufocante.

"Isso não é justo," sussurrei eu.

"Justo?" ele riu, um som desprovido de humor. "Tu falas-me em justiça? Onde estava a justiça quando te deitaste com o meu colega? Onde estava a justiça quando me deixaste criar o filho de outro homem?"

As lágrimas escorriam pelo meu rosto. Eu não tinha resposta.

"Miguel, por favor. Ele precisa de mim."

"Ele precisa de estabilidade. Não de uma mãe que mente e engana. O David vai assumir a responsabilidade. Eu já falei com ele."

A menção do nome do David fez o meu estômago revirar.

"Tu falaste com ele?"

"Claro que falei. Eu precisava de saber a verdade. Ele confessou tudo. Pelo menos ele teve a decência de ser honesto quando confrontado."

Ele pegou numa caneta, o som do clique a ecoar no silêncio.

"Então, o que vai ser, Ana? Assinas, ou eu levo isto a tribunal e exponho tudo? A tua infidelidade, a tua mentira. Achas que algum juiz te daria a guarda depois disso?"

Eu sabia que ele tinha razão. Eu estava encurralada.

A minha mão tremia enquanto eu pegava na caneta. Cada fibra do meu ser gritava contra aquilo, mas que escolha eu tinha?

Assinei o meu nome nos papéis, a minha assinatura uma mancha ilegível através das minhas lágrimas.

Renunciei ao meu filho.

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