Fiquei sentada no banco de plástico duro do corredor durante o que pareceram horas, o telemóvel silencioso na minha mão.
Ele não voltou a ligar.
Nenhuma mensagem. Nada.
A imagem dele a consolar a Clara, a segurar-lhe a mão enquanto ela tremia por causa de uma aranha, sobrepôs-se à imagem do rosto pálido do meu pai.
A raiva era uma coisa estranha, fria e pesada no meu estômago.
Levantei-me, as minhas pernas rígidas. Tratei da papelada necessária com uma enfermeira de rosto simpático que me ofereceu um copo de água e um olhar de pena.
Recusei ambos.
Conduzi para casa em piloto automático, as luzes da cidade a passarem por mim como manchas desfocadas.
O nosso apartamento, o lugar que eu chamava de lar, parecia de repente o território de um estranho.
Fui direta ao nosso quarto e tirei uma mala de viagem do armário. Comecei a deitar lá para dentro as minhas roupas, sem as dobrar, os movimentos mecânicos e eficientes.
T-shirts, calças de ganga, roupa interior.
Cada peça era uma lembrança de uma vida que já não existia.
O meu telemóvel vibrou em cima da cama. Era ele. Miguel.
Ignorei.
Vibrou outra vez. E outra.
Finalmente, atendi, colocando-o em alta-voz enquanto continuava a fazer a mala.
"Sofia, pelo amor de Deus, atende o telefone! Onde estás? Fui ao hospital e não estavas lá!" a sua voz era uma mistura de pânico e irritação.
"Estou em casa," disse eu, a minha voz sem emoção.
"Graças a Deus. Estou a ir para aí. Precisamos de falar. Eu sei que estás chateada..."
"Chateada?" interrompi, uma risada seca a escapar-me. "O meu pai morreu, Miguel. Morreu porque o seu dador de sangue, o seu genro, estava demasiado ocupado a tratar da aracnofobia da sua melhor amiga."
"Não sejas assim, Sofia. Não é justo," ele defendeu-se imediatamente. "Tu não a viste! Ela estava num estado lastimável! Mal conseguia respirar. O Pedro morreu há menos de um ano, ela está frágil!"
A menção ao falecido marido da Clara, a sua tragédia pessoal que se tinha tornado a desculpa para tudo, já não me comovia.
"E o meu pai?" perguntei calmamente. "Ele não era frágil? Deitado numa cama de hospital, à espera de uma hipótese de viver?"
"Claro que sim, mas... é diferente. A morte do teu pai... foi uma doença. O pânico da Clara foi uma emergência. Eu tive de fazer uma escolha."
Ele tinha feito uma escolha.
Fechei o fecho da mala. O som foi alto e definitivo no silêncio do quarto.
"Sim, fizeste," concordei. "E agora eu estou a fazer a minha. Quando chegares, as minhas coisas já não estarão aqui."
Desliguei antes que ele pudesse protestar.





