O Saldo Zero: O Dia Que Tudo Mudou

O cheiro a café fresco e papel novo enchia o ar do escritório da imobiliária. Eu segurava a caneta com força, os meus dedos estavam um pouco húmidos.

Hoje era o dia.

O dia em que eu e o Lucas, o meu marido, íamos assinar os papéis da nossa primeira casa.

O agente imobiliário, um homem simpático chamado Sr. Alves, sorriu para mim.

"A Sra. está ansiosa, Eva?"

Eu assenti, um sorriso rasgava o meu rosto.

"Muito. Esperámos por isto durante três anos."

Três anos a poupar cada cêntimo, a dizer não a jantares fora, a férias, a tudo. Tudo para este momento.

O Lucas estava atrasado, o que era estranho. Ele estava mais ansioso do que eu.

Peguei no telemóvel para lhe ligar, mas ele ligou-me primeiro.

"Eva, amor, desculpa. Vou demorar um pouco."

A voz dele soava tensa, distante.

"Aconteceu alguma coisa, Lucas? Estás bem?"

"Estou, estou. É só que... a Sofia teve um problema. O filho dela, o Léo, ficou doente de repente, tive de a levar ao hospital."

Sofia. A amiga de infância dele. A viúva com quem ele passava demasiado tempo a "ajudar".

Uma sensação fria percorreu-me.

"O Léo está bem? É grave?"

"Não sei bem, parece ser uma febre alta. Ouve, eu sei que hoje é importante, mas eu não podia deixá-la sozinha. Vou assim que puder, ok? Faz a transferência do dinheiro para a conta da imobiliária, eu assino quando chegar."

Ele desligou antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa.

Respirei fundo. Era pela criança. Eu tinha de compreender.

Abri a aplicação do banco no meu telemóvel, a conta conjunta onde guardávamos os 150.000 reais para a entrada da casa.

O meu dedo pairou sobre o ecrã.

Selecionei a conta.

O saldo apareceu.

Zero.

Um zero grande e redondo.

O meu coração parou. Atualizei a página. Uma vez. Duas vezes. Três vezes.

Zero.

Olhei para o extrato. Havia apenas uma transação, feita há duas horas.

Uma transferência de 150.000 reais.

Para uma conta em nome de Sofia Mendes.

O telemóvel escorregou da minha mão e caiu no chão com um baque surdo.

O Sr. Alves olhou para mim, preocupado.

"Sra. Eva? Está tudo bem?"

Eu não conseguia responder. O ar não entrava nos meus pulmões. O cheiro a café agora dava-me náuseas.

A nossa casa. O nosso futuro. O nosso dinheiro.

Tinha desaparecido.

E o meu marido tinha-o dado à outra mulher.

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