O Rim Vendido: O Preço da Liberdade da Minha Mãe

Uma semana depois, eu estava no quarto do hospital, a usar a bata fina.

A cirurgia estava marcada para a manhã seguinte.

O meu pai entrou, não sozinho. A mãe da Lia, a sua amante de longa data, estava com ele. Ela trazia uma cesta de frutas.

Ela colocou-a na mesa de cabeceira, evitando o meu olhar.

"Ana, obrigada. Nunca esqueceremos o que estás a fazer pela Lia."

A sua voz era suave, mas não parecia sincera.

O meu pai sentou-se na cadeira.

"Comeste alguma coisa? O médico disse para não comeres depois das oito."

"Não comi."

"Bom. Precisamos que estejas na melhor condição."

Ele falava como um treinador a preparar um atleta para uma competição.

Não como um pai a falar com a sua filha antes de uma grande cirurgia.

A mãe da Lia olhou para o telemóvel.

"Oh, a Lia publicou uma nova foto. Ela parece tão pálida."

Ela mostrou o ecrã ao meu pai. Vi a foto de relance.

A Lia estava na sua cama de hospital, com um filtro que a fazia parecer etérea e frágil. A legenda dizia: "À espera do meu anjo. Tão assustada, mas tão grata. #salvaumavida #amorfraterno".

Amor fraterno.

Senti um gosto amargo na boca.

O meu noivo, Pedro, chegou pouco depois. Ele trazia uma sopa que a sua mãe tinha feito para mim.

Ele ignorou o meu pai e a amante dele, vindo diretamente para o meu lado.

"Como te sentes?"

"Estou bem."

Ele tocou na minha testa.

"Estás um pouco fria."

O meu pai interrompeu.

"Pedro, agora não é altura para isso. Ela precisa de descansar."

"Ela precisa de apoio, Sr. João. Não de ordens."

A tensão encheu a pequena sala.

A mãe da Lia interveio rapidamente.

"Claro, claro. Vamos deixá-los a sós. Vamos, João."

Eles saíram. Fiquei aliviada.

Pedro sentou-se na cama e segurou a minha mão.

"Ana, ainda podemos cancelar isto. Podemos simplesmente sair daqui."

Eu olhei para ele. Os seus olhos estavam cheios de preocupação genuína.

"E a minha mãe, Pedro? Ele vai arruinar a vida dela."

"Nós damos um jeito. Encontramos uma solução. Juntos."

As suas palavras eram um bálsamo. Mas eu conhecia o meu pai. Ele era implacável.

"É só um rim. Eu vou ficar bem."

Tentei sorrir, mas saiu fraco.

"Não é 'só um rim'. É o teu rim, Ana."

Ele abraçou-me com cuidado.

"Eu amo-te. E odeio vê-los fazer-te isto."

"Eu também te amo."

Naquela noite, não consegui dormir. Olhei para o teto escuro, a pensar no dia seguinte.

A pensar na faca, na dor, na cicatriz que ficaria.

A pensar se a liberdade da minha mãe realmente valia uma parte do meu corpo.

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